O tênis está presente no programa dos Jogos Olímpicos desde a sua primeira edição na era moderna, em 1896, mas só neste século, com as adequações do calendário da ATP, que os principais nomes do circuito passaram a disputar os torneios. E o espírito olímpico fica claro na forma como esses atletas, multicampeões e multimilionários se dedicam ao torneio olímpico de tênis que não vale pontos para o ranking mundial e não oferece as premiações a que eles estão acostumados no circuito. E o tênis foi notícia, na madrugada deste sábado, com duas situações que revelam o melhor e o pior das histórias olímpicas.

Comecemos pelo melhor. Até esta Olimpíada, poucos sabiam que o Brasil tinha uma das 30 melhores duplistas do mundo. Os resultados de Luisa Stefani, de 23 anos, são bastante recentes e ela está, hoje, no seu melhor ranking, nº 23 do mundo. No circuito, ela costuma jogar com uma parceira americana, Hayley Carter, e não tem, no Brasil, uma parceira com ranking nem próximo ao seu, para sonhar com uma vaga olímpica. No entanto, após algumas desistências, no último dia de inscrições para o torneio olímpico, oito dias antes da estreia, ela recebeu a notícia de que abrira uma vaga para jogar ao lado de Laura Pigossi. A vaga quase escapou porque as tenistas e suas equipes demoraram para conseguir se comunicar e tinham aquele dia para decidir tudo sobre a participação. E lá foram elas realizar o sonho olímpico.

+ Olimpíada de Tóquio-2021: veja o calendário com datas e horários dos eventos e marque na agenda!

Laura Pigossi ocupa a modesta 188ª posição no ranking de duplas, com uma pontuação que não lhe permite vislumbrar disputar os principais torneios do circuito, fazendo carreira, assim, em eventos secundários. De repente, estava em Tóquio para enfrentar as melhores tenistas do mundo, na maior competição esportiva do planeta. E, ao invés de sentir a pressão, se deslumbrar, tremer, apenas desfrutou. Na primeira rodada, uma vitória por 2 a 0 sobre a dupla canadense, que, em 2018, chegou a ocupar a 7ª posição do ranking mundial.

Nas oitavas de final, elas tiveram pela frente a dupla da República Checa, com a ex-número 1 do mundo Karolina Plisková e a vice-campeã de simples destes Jogos, Marketa Vondrousová. E aí começou a ser escrita uma história épica: vitória de virada, com direito a um 13 a 11 no match tiebreak que, geralmente, vai a 10. Nas quartas de final, enfrentaram a dupla norte-americana, que somava cinco títulos de Grand Slam. Mais uma virada, com 10 a 6 no tiebreak.

Na semifinal, a dupla brasileira até teve chances, mas acabou eliminada para o time da Suíça e, na disputa do bronze, encararam a dupla russa, com títulos de Roland Garros e do US Open. Perderam o primeiro set, novamente, venceram o segundo e, no tiebreak, protagonizaram uma das viradas mais espetaculares da história do tênis. Estavam perdendo por 9 a 5 (e eu já tinha um texto pronto lamentando o fato de a medalha ter escapado mas exaltando o feito da dupla), salvaram quatro match points das rivais e venceram o jogo por 11 a 9. E sabe quem foi a melhor em quadra? Laura. Controlou o jogo, puxou Luisa para cima nos momentos de instabilidade, pressionou as russas e fez os pontos decisivos. Número 188 do mundo, encarou as top com personalidade, e habilidade, de top, conquistando a primeira medalha da história do tênis brasileiro, e, certamente, a mais improvável da deleção brasileira em Tóquio.

+ Siga o quadro de medalhas da Olimpíada de Tóquio 2021 em tempo real!

Enquanto uma quase anônima entrava para a história, na quadra ao lado, um dos maiores de todos os tempos dava vexame. Novak Djokovic foi a Tóquio obstinado pela medalha de ouro, único título que falta em seu currículo. Chegou a duas semifinais, nas simples e nas duplas mistas, mas acabou derrotado em ambas. Na disputa do bronze em simples, fez fiasco, perdeu o controle ao ser derrotado pelo espanhol Pablo Carreno Busta (que se emocionou demais com a conquista do bronze) quebrou a raquete, batendo-a violentamente no suporte da rede. Para piorar, o sérvio anunciou desistência da disputa do bronze em duplas mistas, alegando uma contusão no ombro, e deixando na mão sua parceira, Nina Stojanovic, que é apenas a número 92 do mundo e podia ter nesta medalha o grande feito de sua carreira. O sérvio, que acumula uma série de polêmicas, como a organização de torneios e a criação de uma nova associação de tenistas quando a ATP decidiu suspender as competições por conta da pandemia de Covid-19 (e que resultou em uma série de jogares, inclusive ele, contaminados) deu mais uma demonstração de que o espírito olímpico não é seu forte.

Participe da conversa!
0