Acostumados com as entediantes entrevistas quase que diárias de técnicos e jogadores de futebol, o telespectador brasileiro tem se surpreendido, nesta Olimpíada, com as excelentes entrevistas dos atletas no pós-competição. Quase sem espaço na mídia em tempos normais e sem as blindagens de assessorias de imprensa que funcionam mais como obstáculos à imprensa nos clubes de futebol, os atletas olímpicos têm aproveitado para dar o seu recado quando têm os microfones voltados para eles.

Do “eu só vim me divertir e deu tudo certo” da Fadinha Rayssa, após a prata no skate ao “cobrem de mim, mas não dessa geração que acabou de chegar” da rainha Marta, após a dolorosa eliminação do futebol feminino, os atletas brasileiros têm deixado frases para a história em Tóquio. E cada um ao seu estilo.

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Quem não se emocionou com o choro de Ítalo Ferreira, lembrando sua origem, sua família e sua trajetória até chegar ao ouro olímpico após a conquista no surf, ou com o de Mayra Aguiar, narrando a série de cirurgias a que se submeteu durante o último ano, em que só conseguiu disputar duas lutas oficiais e, mesmo assim buscou um bronze em Tóquio, sua terceira medalha olímpica, um recorde entre os judocas e entre as mulheres em esportes individuais? Mas também teve o choro inconsolável e Maria Portela, que após perder sua luta em uma decisão para lá de controversa, aos prantos, não reclamou da arbitragem e pediu “desculpas ao torcedor brasileiro por não ter dado um pouquinho a mais”?

A vice-campeã olímpica Aghata, do vôlei de praia é a simpatia em pessoa (mesmo sendo curitibana) e também foi de uma transparência sem igual ao analisar o primeiro jogo da dupla com Duda em Tóquio, quando tiveram um primeiro set bastante complicado, diante de adversárias reconhecidamente bem mais frágeis. “A velhinha aqui (38 anos), experiente, medalhista olímpica, campeã mundial, também fica nervosa, sente a pressão de uma estreia e comete erros bizarros. Mas, depois, na manha, a gente controla”, afirmou. Lucão, do vôlei masculino analisa cada jogo com a mesma profundidade dos comentaristas da TV, logo após deixar a quadra.

Hugo Calderano, do tênis de mesa, fez história ao ser o primeiro jogador de fora da Ásia ou da Europa a chegar às quartas de final olímpica. Mas ele não ficou satisfeito não. Ele sabe que teve chances diante do alemão Dimitrij Ovtcharov. “Eu não consegui manter a regularidade, nem o mesmo nível que comecei a partida. Ele se adaptou ao meu jogo, não consegui achar meu nível mais alto - disse Hugo. É muita dor, claro, mas é importante sentir a dor da derrota e voltar cada vez mais forte. É importante sofrer bastante com a derrota, porque aí dá para esquecer mais rápido”, declarou, com os olhos marejados.

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Fria, no melhor dos sentidos, durante toda a competição que lhe garantiu a primeira medalha olímpica da ginástica artística feminina do Brasil, Rebeca Andrade, a segunda melhor ginasta no individual geral em Tóquio não chorou em sua entrevista. Exibiu um enorme sorriso, mesmo ao lembrar de todo seu histórico de lesões e dedicou a medalha a todas as pessoas que a ajudaram a se recuperar e a toda a ginástica feminina brasileira, lembrando do legado e das várias vezes que o Brasil bateu na trave com Daiane dos Santos, Daniele Hypólito e Jade Barbosa. A ginasta ainda foi brilhante ao comentar a decisão de Simone Biles se retirar da prova para preservar sua saúde mental "O fato de ela (Biles) ter saído não foi nada negativo. As pessoas precisam entender que o atleta não é um robô, e sim um humano. A decisão dela foi a mais sábia para ela, não para os outros. Todo mundo sabe que ela é a melhor do mundo, Fiquei orgulhosa da atitude dela, ter pensado nela antes de qualquer coisa”, declarou.

Então fica a dica: antes de trocar de canal ao final de uma competição, vale a pena aguardar pela entrevista.

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