“Eu jamais deixaria meu país na mão”, escreveu a bicampeã olímpica Sheilla depois de saber que não estaria na seleção de vôlei feminino que vai a Tóquio, mas deixando a porta aberta caso fosse convocada outra vez. Essa frase fica martelando na cabeça depois da doída derrota da seleção masculina de basquete para a Alemanha, na final do pré-olímpico. O Brasil fez um torneio impecável, amassando a anfitriã e a favorita Croácia na fase de grupos, mas jogou mal a partida decisiva, errando muito no ataque, por vezes sem saber como sair da marcação, e incapaz de parar Moe Wagner, do Orlando Magic, que anotou 28 dos 75 pontos alemães.

O Brasil não foi com força máxima para Split. O ala Marquinhos (São Paulo), o ala-armador Didi Louzada (New Orleans Pelicans), o armador Raulzinho (Washington Wizards) e o ala-armador Gui Santos (Minas) estavam na lista inicial do técnico Aleksandar Petrović, mas pediram para não jogar o pré-olímpico. Marquinhos aproveitou para anunciar a despedida da seleção, mas os outros três ainda são jovens. O Brasil teria vencido com eles? Nunca saberemos, mas ao menos o time estaria muito mais forte no papel e Petrović teria mais opções de jogo para superar momentos complicados como os que o Brasil viveu na final.

Se o Brasil tivesse vencido, eu não veria problema algum se Petrović mantivesse o time do pré-olímpico e deixasse Raulzinho, Didi e Gui Santos vendo os Jogos Olímpicos pela televisão. Não dá pra querer comer o filé mignon sem ter roído o osso. Mas agora o ciclo olímpico começa do zero e o talento dos três acrescentaria muito ao time. A seleção deve aceitá-los de volta sem ressentimentos?

Raulzinho, Didi e Gui não são os primeiros e não serão os últimos a fazer isso. Nenê era mestre em pedir dispensa. Leandrinho, Anderson Varejão e Guilherme Giovannoni, por exemplo, já escolheram não disputar um ou outro torneio pela seleção. Há motivos e motivos. Giovannoni não foi ao pré-olímpico mundial de 2008 porque a esposa estava com uma gestação de risco. Mas há outras razões que merecem ser consideradas. É importante, sim, defender as cores do país, mas infelizmente seleção não paga boleto. O contrato de Raulzinho está no fim e ele ainda não sabe onde vai jogar na próxima temporada; Didi tem contrato assinado, mas os Pelicans montaram uma série de treinos para o jogador, e a sua permanência no time depende disso; e Gui Santos vai participar do próximo draft da NBA. Mercenários? Nem de longe; cada um sabe do que precisa para se firmar na carreira.

Espero que Petrović continue à frente da seleção; ele pode ter errado na final do pré-olímpico insistindo com jogadores que estavam mal, mas seu saldo é tremendamente positivo. E acho que ele poderia, sim, seguir chamando o que o Brasil tiver de mais talentoso; se continuar recebendo “nãos”, e especialmente se os pedidos de dispensa não forem bem justificados, dá para pensar em deixar alguém indefinidamente de molho. Enquanto isso, temos dois a três anos para que nossos jogadores se estabeleçam na NBA a ponto de poderem fazer o que Luka Dončić fez. O esloveno, astro do Dallas Mavericks, afirmou nas mídias sociais que defenderia seu país e escreveu “nada de férias” antes do pré-olímpico de Kaunas, na Lituânia. Na final contra os donos da casa, anotou um triplo-duplo e classificou a Eslovênia para sua primeira participação olímpica no basquete masculino, deixando os lituanos de fora dos Jogos Olímpicos pela primeira vez desde a independência do país.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Fã inveterado dos Jogos Olímpicos, participou como voluntário em duas edições (Turim-2006 e Rio-2016).

Participe da conversa!
0