Antes que os paranistas inevitavelmente fiquem indignados com o texto que vem a seguir (talvez já estejam com o título), quero esclarecer nesta primeira coluna (bem atrasada, por sinal, desculpe Pugliesi) que não pretendo ser uma voz isenta. Pelo contrário, sou atleticano, sou conhecido por ser atleticano e não escondo isso de ninguém. Não critico os colunistas que escondem seu time do coração, mas como eu vou escrever muitas vezes aqui sob a perspectiva do torcedor, que por natureza é apaixonada e nem um pouco imparcial, prefiro deixar claro a priori qual é o meu time.

Feitos os devidos avisos, vamos ao texto propriamente dito: Sim, estou feliz, felicíssimo, com o rebaixamento do Paraná para a Série C. Explico por quê. Aos 42 anos de idade, guardo lembranças traumáticas da década de 90, uma época bastante difícil para os atleticanos. Enquanto o Athletico mal conseguia se sustentar, o Paraná estava voando em campo e fora dele. Era o time do futuro, único paranaense na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, chegou a ter Vanderlei Luxemburgo, no auge, como técnico.

Antes dos jogos contra o Paraná, eu travava diálogos mentais violentíssimos comigo mesmo. “Você por acaso é masoquista? Vai ao estádio para quê? Para ver seu time perder de novo?”, meu cérebro perguntava, com razão. “Vai que DESTA VEZ a gente ganha? O Paulinho Kobayashi é craque”, o coração respondia, totalmente fora de si.

Então lá ia eu ao Couto Pereira ou ao Pinheirão, naquelas tardes de domingo geladas e deprimentes que só Curitiba (ou talvez algum vilarejo perdido no interior da Sibéria) sabe produzir, cheio de uma esperança que aos olhos alheios provavelmente mais se parecia com algum tipo de demência precoce.

No estádio, o roteiro se repetia sem qualquer misericórdia. Com João Antônio, Adoílson, Ednélson, Saulo e companhia, o Paraná invariavelmente atropelava o Athletico. Eu saía do estádio furioso, mas durante a semana absorvia o golpe aos poucos. Então o Athletico ganhava do Matsubara e eu me enchia de esperança de novo, até receber mais um balde de água fria no clássico seguinte.

Aos 15 anos de idade, por um momento eu realmente pensei que aquela seria minha rotina para o resto da vida. Me imaginava já idoso, varrendo as folhas da calçada e escutando no rádio meu time perder para o Tricolor, gols de Saulo Neto, o tigrinho da Vila. Riqueza, um bom casamento, filhos lindos e inteligentes? De que adiantaria tudo isso se meu time continuasse a perder pela eternidade?

Como é de conhecimento público, o jogo virou. E hoje os paranistas vivem seu inferno futebolístico, embora eu ache menos vergonhoso cair para a Série C do que disputar a Segundona do Campeonato Paranaense, como aconteceu em 2012.

Então, estou feliz. E os paranistas deveriam desejar que todos os seus rivais se sentissem assim. Quem torce para o Paraná não pode em hipótese alguma aceitar a pena ou a simpatia dos rivais, sob o risco de se tornar uma Portuguesa. Olhem para onde a simpatia de corintianos, são-paulinos e palmeirenses levou a Lusa.

Diferentemente do que é desejável para nossa vida cotidiana, a simpatia e a pena são sentimentos tóxicos quando tratamos de futebol. Em contrapartida, a raiva é o propulsor de grandes mudanças, a chama que mantém vivo um time. Tanto a raiva dos paranistas, indignados com a situação do clube, quanto a raiva dos rivais, que não esquecem as humilhações sofridas no passado e agora saboreiam a tão esperada vingança.

É óbvio que nenhum desses sentimentos deve ser cultivado por uma pessoa que deseja levar uma boa vida. Mas o futebol é um mundo à parte. Por isso estou feliz com o rebaixamento do Paraná. Por isso os paranistas deveriam se regozijar com a alegria dos rivais. Enquanto coxas e atleticanos detestarem o Paraná Clube, ele jamais vai morrer.

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