O meme “Palmeiras não tem Mundial” talvez seja um dos mais injustos de todos os tempos. Ok, memes só precisam ser engraçados, se são justos ou não é totalmente secundário. Apenas um seleto grupo de clubes brasileiros são campeões mundiais. Logo não ser detentor de tal título não deveria ser demérito para ninguém. Mas isso serve de gancho (jargão jornalístico para algo que justifica uma reportagem ou um artigo como este) para falar do Mundial de Clubes da FIFA.

Não simpatizo com o atual formato. Um país endinheirado chega com alguns sacos de dinheiro na sede da FIFA, na Suíça, e compra o direito de sediar o Mundial. Geralmente é algum país árabe com mais petróleo do que água no subsolo, com uma tradição futebolística próxima do zero, ou o Japão. Em ambos os casos, um time que sofreu horrores para ganhar um torneio tradicional de verdade, como é a Libertadores ou a Liga dos Campeões, viaja milhares de quilômetros para atuar em duas partidas com cheiro de amistoso, cara de amistoso, e futebol de jogo amistoso. Para piorar, agora participam uns times da Nova Zelândia e da Arábia Saudita. É como fazer um torneio mundial de basquete com pigmeus.

O formato anterior, um jogo no Japão entre o campeão da Libertadores e da Liga dos Campeões, também não passava de um amistosão. Final de Mundial era o que havia nos anos 60 e 70: dois jogos, um em cada país. Eu nem era nascido, mas imagino que ver um Manchester United tendo que ir à Bombonera enfrentar 66 mil torcedores e a pancadaria do Estudiantes em 1969 deve ter sido algo incrível. Eu vi imagens de arquivo de Santos contra o Milan no Maracanã lotado em 1963, com o atacante Pepe (técnico do inesquecível Athletico de 1995) destruindo os italianos. Jogos pegados, disputados como uma final de Copa do Mundo, com craques históricos de ambos os lados.

Por frescura (e com medo de algumas botinadas sul-americanas), os europeus passaram a se recusar a jogar deste lado do Atlântico. Em 1975, o Bayern de Munique, esse aí que vai disputar a final do Amistosão da FIFA no Catar contra o Tigres, pulou fora do jogo contra o Independiente em Buenos Aires. Veio o Atlético de Madri em seu lugar e ganhou, complementando com outra vitória na Espanha.

Enfim, o ponto deste texto não é meu saudosismo, de algo que nem vivi, por sinal. O ponto é que não interessa se o Palmeiras jogou um futebolzinho fajuto na final da Libertadores, se não é o melhor time da humanidade, se é isso ou aquilo. Vencer um torneio como a Libertadores da América não é como atravessar a rua para comprar um Chicabon. Nem a Libertadores é apenas uma seletiva para o Mundial. A Libertadores é um fim em si mesmo, não um meio. Viajar para o Japão, Catar, ou o raio que o parta é só um bônus.

Claro que é legal medir forças contra um Bayern, um Barcelona, um Real Madrid. Adoraria ver jogos assim toda semana. Mas a verdadeira batalha foi vencida lá atrás, ao conquistar o principal torneio de clubes das Américas — eu arrisco dizer do planeta, já que um Camp Nou não tem um centésimo do charme de uma final no Monumental de Nuñez. E não estou escrevendo nada disso por se tratar do Palmeiras (torço pelo Athletico, como frisei no meu primeiro artigo). Se um dia o seu time alcançar a glória de vencer a Libertadores, comemore como louco, saia pelado pela rua (não faça isso), peça a namorada em casamento, ligue passando trote para o seu chefe. O Mundial é somente a cereja do bolo. Se ganhar, ok. Mas não passa de um amistoso referendado pela FIFA, nada mais que isso. Não deixem burocratas suíços decidirem se você deve ser feliz ou não. Isso vale para o futebol e vale para a vida.

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