Em um Campeonato Brasileiro marcado pela baixa qualidade técnica, tanto que na última rodada nenhum dos dois postulantes ao título sequer teve a capacidade de vencer, o Flamengo conquistou seu sétimo título brasileiro (1980, 1982, 1983, 1992, 2009 e 2019, 2020).

Com certeza você notou a ausência de 1987 na lista acima. Não é implicância. O Flamengo não é o campeão brasileiro desse ano. Sei que se trata de uma polêmica antiga, muitas vezes usada pelos adversários apenas para tirar sarro ou provocar os flamenguistas – o que também é extremamente válido, já que parte da graça do futebol é fazer troça e zombaria. Mas é preciso explicar o que aconteceu em 1987 para as novas gerações não caírem no conto do Flamengo octacampeão.

Tudo começou quando a CBF, que naquele ano se encontrava falida, na mais absoluta penúria, repassou a responsabilidade de organizar o campeonato para os clubes. O que se seguiu foi algo típico da cartolagem brasileira: acordos não cumpridos, intromissão estatal e judicialização de algo que poderia – e deveria – ter sido resolvido em campo.

Foi nesse contexto que surgiu o Clube dos 13: São Paulo, Corinthians, Palmeiras, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Grêmio, Internacional e Bahia. Donos das maiores torcidas e também os melhores clubes brasileiros até então, se uniram para organizar a Copa União, que ganharia vários patrocínios e transmissão da Rede Globo.

A Copa União resolveria alguns problemas crônicos do futebol brasileiro, como o gigantismo do Brasileirão, que chegou a ter mais de 90 clubes no fim da década de 70, sob o lema “Onde a Arena vai mal, um clube no Nacional”. Era uma forma de fortalecer o partido que funcionava como suporte político para a ditadura militar. Com a Copa União, o Brasileiro se modernizaria com a participação de apenas 16 clubes, possibilitando um calendário mais racional, mais força nas negociações com a TV. Foi algo extremamente inovador. Para se ter uma ideia, a Premier League inglesa seria criada apenas anos depois.

Bem, mas foi aí que os problemas começaram. A Copa União, ao escolher os participantes tendo como critério o tamanho da torcida, relegou times como Guarani, vice-campeão no ano anterior; América-RJ, quarto colocado; Portuguesa, décimo; e Joinville, 12º. Em compensação, foram incluídos entre os 13 participantes o Grêmio (14º), o Internacional (17º), Santos (19º), e Botafogo (31º). É como se mandássemos o atual vice-campeão, o Internacional; e o quarto colocado, o São Paulo, disputar a Série B de 2021. E de quebra ainda os acompanhariam o Bragantino e o Corinthians. Impensável, certo?

Para completar os 16 clubes, foram convidados Coritiba, Santa Cruz e Goiás, os clubes de maior torcida em seus estados na época. Criciúma e Internacional de Limeira, que ficaram entre os 16 primeiros colocados no ano anterior, foram solenemente ignorados.

Para acalmar os clubes descontentes, a CBF propôs, antes de começar a Copa União, que houvesse quatro módulos, com cruzamento entre os primeiros colocados para definir o campeão. Até a Federação Paulista fez uma proposta: um cruzamento entre os quatro primeiros do módulo verde, três do módulo amarelo, e os campeões do módulo branco e azul. O acordo final, aceito pelo Clube dos 13, ficou levemente alterado. O primeiro colocado do módulo verde seria aclamado campeão nacional diretamente, sem a necessidade de nenhuma disputa extra. Mas haveria um cruzamento entre os campeões e vices do módulo verde e amarelo para definir os representantes brasileiros na Copa Libertadores. Mas os cartolas, sempre tão espertos, cometeram um erro digno de amadores: tudo isso foi acordado verbalmente, sem que nada fosse registrado no papel.

O regulamento previa que, em caso de igualdade de pontos nos dois jogos, um sorteio definiria o campeão. Antes da final entre Internacional e Flamengo, decidiram mudar. Prorrogação e pênaltis no lugar do sorteio.

A CBF aproveitou a mudança de regulamento para fazer valer o cruzamento entre os módulos verde e amarelo para definir o campeão. É aí que a porca torce o rabo: esta mudança, que depois seria negada pelo Flamengo, foi aceita pelo Clube dos 13. Como isto aconteceu? A entidade, num ato supremo de inocência, confiou em Eurico Miranda, e enviou o cartola vascaíno para ser seu representante na CBF. Fazendo jogo duplo, aceitou a determinação da CBF à revelia do que os outros 12 clubes do Clube dos 13 decidiram entre si. “Ele nos traiu e deu sinal verde para a CBF virar a mesa, mesmo contra a determinação dos outros 12 clubes de não fazer o cruzamento com o módulo amarelo”, afirmou, Carlos Miguel Aidar, então presidente do Clube dos 13, duas décadas depois.

O Flamengo tentou alterar novamente o regulamento, mas não obteve sucesso e se recusou a disputar o quadrangular. O Internacional até se sentiu tentado, visando a Libertadores, mas ficou de fora por pressão de seus pares. Depois de um empate por 1 a 1 com o Guarani em Campinas e vitória por 1 a 0 no Recife, o Sport foi campeão, reconhecido pela CBF e pela FIFA. Anos depois, o São Paulo, para cutucar o Flamengo, passou a reconhecer também o Sport como legítimo campeão de 1987.

O que poucos sabem é que até o Flamengo reconheceu o Sport como campeão. Em 1997, o Clube dos 13 aceitou a entrada de Coritiba, Goiás e Sport na entidade. Kléber Leite, o então presidente do Flamengo, condicionou a entrada do Sport apenas se o clube reconhecesse que a Copa União tinha dois campeões: o próprio Sport e o rubro-negro carioca. No fim, encaminharam um documento à CBF reconhecendo que Sport e Flamengo eram os campeões, Inter e Guarani os vices.

(Este é um resumo do que aconteceu. A história completa foi contada pelo jornalista Leonardo Mendes Júnior no livro Guia Politicamente Incorreto do Futebol, do qual fui co-autor).

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