Está no ar na Globoplay o documentário "Doutor Castor", sobre a saga do Castor de Andrade, cartola, patrono de escola de samba e bicheiro em Bangu, uma espécie de gangsta's paradise nos anos 80. Vi os dois primeiros capítulos e quero assistir logo aos dois finais. Recheado de imagens históricas, é imperdível.

Tempos em que o futebol brasileiro era muito melhor do que atualmente: mais livre, espontâneo, original, criativo e colorido. E, ao mesmo tempo, muito pior: mais desorganizado, pobre e violento. Uma contradição, como diria aquele confuso narrador, fascinante.

Na talvez melhor matéria sobre futebol já escrita, o espetacular repórter de Placar, Marcelo Rezende, despejou todas as definições possíveis para Castor, tais como: "recuperador de marginais e inventor de outros", "o próprio marginal", "matador". "homem bom" e "irmãozinho de gente importante". Leia a matéria aqui.

Reprodução
Reprodução

Sem a mesma malícia e street credit do saudoso Rezende, acrescentaria o óbvio: o banguense foi o Poderoso Chefão do subúrbio carioca e, atualizando a notável figura para o esporte atual, uma espécie de VAR humano, pistola presa à perna, à espreita de possíveis "equívocos" de arbitragem no infernal estádio Moça Bonita, na zona oeste do Rio.

Eis que o Coritiba foi trombar justamente com o Bangu na final da Taça Ouro, o Brasileirão de 1985, em jogo único, no Maracanã, numa quarta-feira de julho. Duelo fatal de duas equipes forasteiras, encontro inusitado mesmo para o cenário do futebol à época, de fórmulas mirabolantes.

E aí, claro, o Alvirrubro enxergou no Alviverde a presa ideal para ascender, de vez, ao primeiro escalão do futebol brasileiro. Turbinado pelo prestígio da Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval, pelo dinheiro vivo das bancas de bicho, e campeão brasileiro, inaugurando, quem sabe, uma dinastia miliciana da bola.

Faltou, entretanto, combinar com o renhido conjunto coxa-branca, liderado, dentro de campo, pelo experiente técnico gaúcho Ênio Andrade, então bicampeão nacional. Clube que detinha, nos bastidores, um também wise guy da cartolagem, Evangelino da Costa Neves, presidente do Coritiba.

Não bastasse, o Coxa chegava tonificado à final. Teve desempenho discreto ao longo da disputa, mas derrubou o tinhoso Atlético-MG na semi. Contava com o goleiro Rafael, e seu visual de bandido de faroeste, pilar de uma defesa firme, o lépido Toby, o matador Índio e o liso e instagramável (se existisse) Lela Careta.

O Coritiba campeão brasileiro. O Globo.
O Coritiba campeão brasileiro. O Globo.

Havia, evidentemente, um temor com o trânsito livre de Castor na CBF, fincada na Rua da Alfândega, centro do Rio. O Coxa, então, ativou uma rede de relações a partir do jornalista Vinícius Coelho, que acionou o amigo Mozart Di Giorgio, braço direito de João Havelange, presidente da Fifa.

A principal preocupação: blindar a arbitragem contra Castor. O escolhido para dirigir Coxa e Bangu no Maior do Mundo foi Romualdo Arppi Filho, juiz nascido em Santos e, coincidentemente, amigo de outro personagem importante na ocasião, igualmente oriundo do litoral paulista: Evangelino.

Arppi Filho acabou protagonizando lance fundamental. Aos 39 minutos do segundo tempo, Marinho partiu livre, driblou Rafael e tocou entre as pernas de Heraldo: Bangu 2 a 1. O bandeira confirmou o gol, mas o árbitro o anula. Não há videoteipe que desminta o impedimento, nem que referende.

O prêmio pela condução da decisão de 1985 viria no ano seguinte. Arppi Filho foi o indicado pela CBF, e referendado por João Havelange, para representar o país na Copa do Mundo do México. E ainda dirigiu a final entre Argentina e Alemanha que sacramentou Maradona como Díos.

No mais, no gramado do Mário Filho, o Coxa fez 1 a 0 com um tirambaço de Índio, tomou o empate com Lulinha e viu Rafael Camarotta transformar-se em legenda, com intervenções que empurraram a definição para os pênaltis. Ado perdeu, Gomes estufou as redes, 6 a 5, Coritiba campeão brasileiro de 85 para todo o sempre.

Coxa comemora conquista. Agência Estado
Coxa comemora conquista. Agência Estado

Em 2007, estive em Bangu, passei calor e pude ouvir, da boca de todos, que nunca mais o clube foi o mesmo. Na bola, não suportou outra decepção em seguida, no Carioca daquele ano, quando viu o Fluminense levantar o caneco com atuação estrambólica de José Roberto Wright no apito.

Aos poucos, também começou a trepidar a vida mansa dos bicheiros, acostumados a desfilar na high society da Zona Sul e, com a mesma desenvoltura, esgueirar-se por favelas e subúrbios cariocas. Junto veio a consolidação das principais grifes do tráfico de drogas que, com extrema violência, ocuparam toda a paisagem.

Castor de Andrade foi, então, vivendo o seu ocaso até que, em 1993, a juíza Denise Frossard mandou a cúpula do bicho ver o sol nascer quadrado. Era o fim da trajetória inigualável do maior marginal do futebol brasileiro que, mesmo à margem, por pouco não tomou o país inteiro.

Reprodução
Reprodução
Participe da conversa!
0