Não são apenas a Uefa e a Conmebol que andam atormentadas com a ideia idiota do presidente da Fifa, Gianni Infantino, de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos em vez de quatro. O Comitê Olímpico Internacional – do qual Infantino, aliás, é membro – também está de orelha em pé, em boa parte pelos mesmos motivos que enfureceram as entidades europeia e sul-americana: a coincidência de datas, seja com a Copa América, com a Euro ou com os Jogos Olímpicos – no caso europeu, ainda há a oposição dos clubes, sempre relutantes em ceder seus jogadores pagos a peso de ouro para as seleções nacionais.

O chefão da Fifa jura de pés juntos que a relação não mudaria em nada e que a Fifa não tem a menor intenção de tirar o futebol do programa olímpico. E isso nos leva àquela frase do Fernando Meligeni quando criticou (com toda a razão) Daniel Alves no episódio dos agasalhos boicotados na premiação em Tóquio: o esporte olímpico (do Brasil, mundial, pouco importa) precisa do futebol? E podemos inverter a questão: o futebol precisa dos Jogos Olímpicos?

Convenhamos: o torneio masculino de futebol é bastante esvaziado sem a possibilidade de as grandes seleções mundiais levarem força total – uma escolha da Fifa, que não quer ver o torneio olímpico rivalizando com a Copa do Mundo. Creio que o futebol é o único caso em que o campeonato mundial da modalidade tem muito mais visibilidade que sua versão olímpica, e isso explica que todas as outras federações esportivas concordem em ver os times principais de suas modalidades disputando o ouro. Se o campeonato mundial de basquete tivesse o mesmo prestígio da Copa, por exemplo, será que a Fiba teria liberado um Dream Team em 1992?

As duas megaentidades esportivas continuarão se tolerando até uma delas concluir que não precisa mais da outra para nada

Então, pensando exclusivamente por este lado, não é que o torneio olímpico de futebol masculino, em seu formato atual, seja algo tão essencial assim. Quando você pensa em ícones da história olímpica, algum jogador de futebol vem à sua mente? Então, eu diria que sim, os Jogos Olímpicos poderiam prescindir do futebol, se não fosse pelo entorno da coisa.

O primeiro complicador seria o torneio de futebol feminino. Ali, sim, as seleções vêm com os times principais, e os Jogos Olímpicos ainda são muito importantes para a modalidade, ainda que a Fifa esteja bastante empenhada em promover a Copa do Mundo de futebol feminino. Duvido muito que a Fifa aceitasse manter apenas o torneio feminino de futebol nos Jogos Olímpicos, ou topasse trocar o torneio masculino de futebol de campo pelo futsal (o que eu, particularmente, acho que seria muito bom); a entidade provavelmente insistiria na “venda casada”.

Depois, há o fato de que, goste ou não o COI, o futebol é o esporte mais popular do mundo. E como você faz uma competição multidesportiva sem o esporte mais popular do planeta? Em países mais futebolcêntricos como o nosso, o fato de haver futebol nos Jogos serve de chamariz para que as pessoas acabem vendo outras modalidades também? Em outras palavras: há gente que nem ligaria mais para os Jogos Olímpicos se não houvesse um campeonato de futebol dentro deles? Não sei se o COI tem algum estudo nesse sentido, e, se não tem, já deveria estar providenciando.

No fim das contas, não acho que essa maluquice do Infantino vá prosperar. Mas, mesmo que a Copa siga ocorrendo apenas a cada quatro anos, a relação entre Fifa e COI continuará sendo um casamento de conveniência em que os parceiros não são exatamente apaixonados um pelo outro. Talvez a coisa até piore um pouco, já que Infantino sabe que Thomas Bach também trabalha contra a ideia da Copa bienal. As duas megaentidades esportivas continuarão se tolerando até uma delas concluir que não precisa mais da outra para nada.

A Aiba terá coragem de suspender a Sérvia?

Na coluna passada falei das investigações de Richard McLaren sobre corrupção e manipulação de resultados dentro da Aiba, a federação internacional de boxe amador. Agora a entidade tem outro problema sério para resolver. O campeonato mundial da modalidade está ocorrendo na Sérvia, e os atletas do Kosovo – nação reconhecida pelo COI e por boa parte da comunidade internacional, mas que a Sérvia considera pertencer ao seu território – estão comendo o pão que o diabo amassou. A delegação kosovar teve a entrada recusada no país-sede três vezes e segue esperando a permissão para ir a Belgrado.

A Aiba afirmou, em comunicado, “lamentar” a situação, e disse estar trabalhando para permitir que os kosovares participem da competição, mas sem sucesso até agora. Segundo o site insidethegames, a entidade ainda acrescentou que o acordo que fez da Sérvia o país-sede do mundial previa a liberação para que a delegação do Kosovo estivesse no torneio sem restrição alguma, acordo que os sérvios quebraram.

Se os sérvios não recuarem, a solução é simples: suspender a Sérvia, como a Federação Internacional de Judô fez com o Irã depois do episódio envolvendo Said Mollaei. O COI, que está esperando por melhorias na governança da Aiba, está de olho para ver se a nova gestão da entidade que comanda o boxe amador está disposta a se levar a sério, ou se vai se deixar desmoralizar pela intromissão da política internacional no esporte.

Duas despedidas

Duda Amorim ajudou a colocar o Brasil no mapa do handebol. Destaque do time campeão mundial de 2013 e melhor jogadora do torneio, melhor jogadora do mundo em 2014, tricampeã pan-americana, e isso só para ficar nas conquistas com a seleção brasileira. Isadora Williams ajudou a colocar o Brasil no mapa da patinação no gelo. Estreou nos Jogos Olímpicos em Sochi-2014 e, em PyeongChang-2018, tornou-se a primeira sul-americana a se classificar para o programa longo da patinação artística; não conseguiu a classificação para Pequim-2022 ao competir na última seletiva ainda se recuperando de uma lesão.

As duas anunciaram suas despedidas nos últimos dias: Duda não jogará mais pela seleção, e Isadora deve encerrar a carreira de patinadora no fim deste ano ou, no máximo, após o campeonato mundial no início do ano que vem.

Os fãs do esporte olímpico sentirão falta. É triste que Duda deixe a seleção sem uma medalha olímpica, com duas derrotas doídas em quartas-de-final quando o Brasil estava no auge (volta, Morten!). E queria muito ter visto Isadora patinando em Pequim. Mesmo quem não acompanha patinação artística é capaz de comprovar o quanto ela evoluiu entre 2014 e 2018. Quem sabe aonde ela poderia ir em 2022? Mas sejamos gratos pelo que elas construíram. Que muitas meninas se inspirem nelas e queiram chegar ainda mais longe.

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