Pense rápido aí: quem, nos últimos anos, fez a contribuição mais decisiva para o esporte olímpico? Superastros como Usain Bolt, Michael Phelps ou Simone Biles? Cartolas como Thomas Bach, que estão liderando um movimento de renovação dos Jogos, com o acréscimo de novos esportes para conquistar o público jovem? Pois eu acho que a honra poderia muito bem ir para um consultor e professor de Direito em uma universidade do Canadá, Richard McLaren. Sério, deem um Nobel, um Oscar, um Pulitzer, um Grammy, uma medalha de ouro pra ele, transformem-no em herói da Marvel, porque ele merece.

Não sabe quem é? Foi McLaren quem elaborou o relatório que mostrou como o doping se tornou uma política de Estado russa após do fiasco nos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, em 2010. Os russos sediariam o evento quatro anos depois e não podiam fazer feio. McLaren mostrou como funcionou o esquema, que não se limitou aos esportes de inverno. Como resultado, já no Rio, em 2016, a Federação Internacional de Atletismo decidiu não permitir que russos competissem sob a bandeira de seu país. Por pouco a delegação russa inteira não foi banida naquele momento. Em Tóquio não houve escapatória, pois ficou comprovado que os russos continuaram aprontando mesmo depois da publicação do Relatório McLaren e de uma série de advertências. Oficialmente, não houve delegação da Federação Russa, mas houve aquela palhaçada de “Comitê Olímpico Russo”.

Pois McLaren repetiu a dose no fim de setembro passado. O lutador da foto que abre esta coluna foi protagonista de um absurdo ocorrido no peso galo masculino no Rio. O russo (neste caso, talvez seja mera coincidência) Vladimir Nikitin passou pelo vanuatuense Lionel Warawara na estreia e terminou meio castigado, como se vê na foto; nas oitavas-de-final, venceu o tailandês Chatchai Butdee em um resultado já considerado controverso. Mas nas quartas ele saiu vitorioso mesmo tendo apanhado tanto que nem teve condições de aparecer na semifinal. E quem bateu foi o irlandês Michael Conlan, à época campeão europeu e mundial, medalhista de bronze em Londres e favorito ao ouro no Rio. Logo após ver erguido o braço do rival, e não o seu, Conlan se revoltou, arrancou a camiseta ainda no ringue, mostrou o dedo do meio aos juízes, soltou os cachorros nas entrevistas. E qualquer um que entendesse alguma coisa de boxe lhe deu razão. Veja a íntegra da luta e confira com seus próprios olhos.

As investigações de McLaren e sua equipe concluíram que os resultados de pelo menos 11 lutas no Rio foram manipulados

Outro caso escandaloso já havia ocorrido no dia anterior ao do combate entre Conlan e Nikitin: o da final dos pesos pesados, em que o russo (eita!) Evgeny Tishchenko venceu o cazaque Vasily Levit por unanimidade. O público vaiou os juízes e Thomas Bach, que deveria ter entregue as medalhas, se recusou a participar da cerimônia, causando um enorme constrangimento ao taiwanês CK Wu, então presidente da Aiba, a federação internacional de boxe amador.

No ano seguinte, a Aiba admitiu problemas, removeu seus juízes “cinco estrelas” de competições internacionais, mas afirmou não ter encontrado “interferência ativa” em resultados. O COI suspendeu a entidade em 2019 – convenhamos: não ajudou muito que o presidente interino, substituto de CK Wu, fosse supostamente ligado ao crime organizado e estivesse sob sanções do Departamento do Tesouro dos EUA. Em 2020, a Aiba, já sob nova direção, resolveu chamar McLaren para procurar melhor por alguma “interferência ativa”. E ele achou.

As investigações de McLaren e sua equipe concluíram que os resultados de pelo menos 11 lutas no Rio – as duas que causaram revolta imediata e outras nove, incluindo a vitória de Nikitin sobre o tailandês Butdee – foram manipulados, algo sobre o qual já havia rumores antes mesmo de os Jogos de 2016 começarem. De acordo com o relatório, a ladroagem já havia começado em Londres-2012, e foi aperfeiçoada nos Jogos seguintes. Houve intimidação, expurgo de juízes íntegros, uma tentativa de propina que não deu certo, e instruções claras para que boxeadores de determinados países fossem prejudicados, enquanto outros deveriam ser beneficiados. Tudo com a participação da cúpula da Aiba. Códigos de sinais entre árbitros das lutas e juízes indicavam quem devia ser o vencedor.

Com a Aiba suspensa, o torneio de boxe em Tóquio foi organizado diretamente pelo COI. Mas o lugar do esporte, um dos mais tradicionais do programa olímpico, em Paris-2024 ainda é incógnita. Minha dúvida é se desta vez o movimento olímpico irá até as últimas consequências caso as reformas não sejam realmente drásticas. Com os russos e seu megaesquema de doping já vimos que não foi assim, pois em Tóquio eles ganharam privilégios que nenhuma outra nação suspensa tivera até então.

Há alguns esportes, como a ginástica e a patinação no gelo, em que o elemento subjetivo é ainda mais forte que no boxe. E ainda assim eles reformaram seus sistemas de pontuação para torná-lo mais justo (é verdade que, no caso da patinação, isso ocorreu em resposta a um escândalo envolvendo juízes em Salt Lake City-2002). O boxe olímpico já tentou um sistema baseado na simples contagem de socos que “entravam”, mas ainda havia um fator humano, já que um número mínimo de juízes tinha de apertar um botão dentro de um certo intervalo de tempo toda vez que viam um golpe bem dado. Não sou um grande entendedor de boxe, mas minha impressão ao ver lutas desse período era a de que os atletas preferiam golpear tudo o que vissem pela frente na esperança de encaixar um golpe de qualquer jeito e marcar um ponto, em vez de tentar acertar socos bem dados, que desnorteassem o adversário. Este sistema foi abandonado antes de Londres-2012, quando passou a valer a pontuação semelhante à do boxe profissional.

O problema, no fim das contas, e como em muitos outros assuntos, não é tanto o sistema, ou a subjetividade, mas as pessoas. Um método de pontuação subjetivo operado por gente honesta levará a resultados justos em quase todo o tempo – quase, até porque lutas parelhas, em que o vencedor se define nos detalhes, sempre seguirão existindo. Agora, com ladrões no comando, nem mesmo o método mais objetivo possível de determinar um vencedor vai acabar bem. Se a Aiba se preocupar mais com o sistema e menos com as pessoas, os escândalos não acabarão, e aí é melhor mesmo o COI rifar o boxe.

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