“Quero agradecer a todos que me ajudaram a chegar até aqui e acreditaram em mim. Me desculpa, eu sei que eu tinha que ter brigado e acho que dei tudo ali em cima, mas não deu mais uma vez.” De cortar o coração a entrevista de Maria Portela após uma das maiores injustiças da história do judô olímpico, uma derrota em que a arbitragem ignorou um golpe no golden score e impôs punições mal aplicadas – eu ainda acho que a segunda foi mais tosca que a terceira, mas eu sou apenas um torcedor que conseguiu uma faixa amarela quase 30 anos atrás e parou ali. Meu lado maldoso diria para alguém forjar um teste de Covid positivo para esse árbitro mexicano não chegar perto de mais nenhum brasileiro até o fim dos Jogos.

“Me desculpa.” Não foi a primeira vez que um atleta brasileiro disse isso em Tóquio, e nem será a última. Atletas claramente injustiçados, como Portela, mas também atletas que de fato não tiveram o desempenho esperado, que falharam quando não podiam, que nadaram mal, que correram mal, enfim, essas coisas que são do esporte e que calharam de ocorrer justo agora. Pois é para todos eles que eu digo que não precisam se desculpar por nada. Vocês não nos devem coisa alguma para ter de pedir desculpas.

A maioria de nós só lembra que existem Portelas, Anas Sátilas, Felipes, Ygors, Nathalies, Rebecas e Thiagos por duas semanas a cada quatro anos; de resto, não nos interessamos em saber como eles estão

Faz muito tempo eu li algum desses atletas de ponta, acho que um tenista, dizendo que Jogos Olímpicos eram especiais porque na maior parte do tempo você está jogando apenas por si mesmo, mas que ali você está defendendo a bandeira do país, há um senso de equipe e apoio entre compatriotas de diversas modalidades, coisa e tal. Eu não sei, é chute mesmo, mas talvez o atleta brasileiro sinta isso como um peso. A Maria Portela (e o Medina, a Fadinha, o Bruno Fratus, o Marcus D’Almeida, o Robert Scheidt, e todos os outros) evidentemente representa o Brasil em toda competição que disputa, mas aqui é diferente. O país está vendo e está torcendo como não costuma ver e torcer. E, quando vem a derrota, ou a medalha vai embora, o sentimento é o de ter desapontado um país inteiro. De ter ofendido um país inteiro.

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Mas a verdade é que somos um país esportivamente monotemático, com alguns espasmos de entusiasmo por outras modalidades, normalmente quando surge um atleta ou time vencedor. Investimos pouco. A maioria de nós só lembra que existem Portelas, Anas Sátilas, Felipes, Ygors, Nathalies, Rebecas e Thiagos por duas semanas a cada quatro anos; de resto, não nos interessamos em saber como eles estão – eu mesmo, que me digo fã de esporte olímpico, certamente os acompanho menos que deveria. Criamos expectativas infundadas: se Fulano foi medalhista no Rio, então automaticamente concluímos que deve ser favoritaço em Tóquio sem saber nada sobre como foi o ciclo olímpico. E, quando as coisas não saem como queremos – porque Jogos Olímpicos são assim mesmo –, nos deleitamos na cornetagem. Nenhum atleta olímpico deve absolutamente nada a um país e a torcedores que os tratam assim.

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Então, caros atletas, sigam em frente. Reconheçam quando não foram bem, aprendam com as derrotas, aceitem a crítica quando ela tiver fundamento, treinem duro e continuem querendo nos dar a alegria de comemorar suas vitórias ou medalhas, mas, quando a vitória ou a medalha não vier, não precisam se desculpar como se tivessem alguma dívida com o torcedor brasileiro que só pode ser paga com metais preciosos em formato circular. Porque, pela forma como o Brasil trata seu esporte olímpico, não estamos em posição de exigir nada de vocês.

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