Lembro bem: depois da prova em que César Cielo ficou com o bronze nos 50 metros nado livre em Londres, vi a enxurrada de críticas totalmente infundadas que usuários do Facebook foram fazer na página do nosso nadador, como se chegar em terceiro fosse demérito numa prova extremamente disputada. Acabei escrevendo para a antiga seção de Esportes da Gazeta do Povo um texto que ressuscito aqui na coluna com as devidas adaptações, aproveitando que amanhã temos a abertura e no sábado (sexta à noite no Brasil) as competições começam pra valer.

Ele passa três anos, 11 meses e duas semanas pensando só em futebol. Mas chegam os Jogos Olímpicos, dos quais praticamente não há como escapar, e ele fica sabendo não apenas que existem outros esportes, mas também que há brasileiros que são campeões mundiais, líderes dos rankings de sua modalidade ou, pelo menos, figuram entre os melhores. Então, ele passa a acreditar que é obrigação desses atletas trazer medalhas para casa – muitas medalhas. Quando falham, ele os rotula como fracassados. Ele é o corneta olímpico, aquela pessoa que, até o meio de julho, só sabia a escalação do seu time, mas de repente se concedeu o direito de pontificar sobre tiro com arco e escalada.

O problema do corneta é a crítica infundada, quase sempre com agressividade. Gente assim atrapalha o esporte olímpico brasileiro

Cornetas olímpicos são identificáveis por expressões como “o judoca amarelou”. Se não houvesse tantas restrições à mobilidade dos atletas por causa da pandemia, ainda estaríamos lendo coisas como “o nadador foi fazer turismo em Tóquio” (e não duvido que apareça gente dizendo isso mesmo assim). Não interessa, por exemplo, que o judô seja um esporte imprevisível em que um segundo de distração faça um favorito perder para um azarão, coisa que acontece com alguma frequência. Ou que o nadador tenha chegado em último não na eliminatória, mas na semifinal ou na final, ficando entre os oito (ou 16) melhores do mundo. Ou que o adversário tenha simplesmente sido melhor. A única informação que o corneta olímpico processa é “perdeu na decisão do bronze” ou “último lugar”. Quem acha que só deviam ir aos Jogos Olímpicos quem tivesse reais chances de medalha ignora o efeito que o simples fato de competir contra os melhores tem no atleta, especialmente o que está começando.

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O pior do corneta olímpico é que as mídias sociais lhe deram a possibilidade de cornetar o atleta sem intermediários. Em Atenas ou Pequim, quando a moda era o hoje finado Orkut, era difícil chegar diretamente ao competidor porque as críticas ocorriam mais nas comunidades. Mas, de Londres pra cá, o corneta acha as contas de Twitter ou Facebook (mais recentemente, do Instagram) dos atletas e vão lá chamá-los de “amarelões” – ou coisa pior, como os insultos racistas dirigidos à Rafaela Silva quando foi desclassificada em Londres por uma catada de perna que era legal até dois anos antes. Tenho certeza de que aquilo foi coisa de um corneta olímpico, e não duvido que, ao ver o ouro da Rafaela no Rio, o sujeito ainda deva ter soltado um “Rafaela Silva? Nunca critiquei”.

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Não quero dizer que atletas estão imunes a críticas. Todo mundo pode ter reservas ao desempenho desse ou daquele brasileiro em Tóquio. Assim como não é preciso ser especialista ou praticante da modalidade para dar palpite. E acontece, sim, de algum atleta sentir a pressão na hora decisiva, quando a chance de medalha fica real, mas chamar qualquer derrota de “amarelada” é injusto não apenas com o atleta brasileiro, mas com o vencedor também. O problema do corneta é a crítica infundada, quase sempre com agressividade. Gente assim atrapalha o esporte olímpico brasileiro. Ainda bem que no dia 9 de agosto o corneta olímpico desaparecerá; o problema é que em 2024 ele estará de volta.

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