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Análise

Segue ou para o futebol? Temos que questionar a CBF, mas também clubes e jogadores

Segue ou para o futebol? Temos que questionar a CBF, mas também clubes e jogadores
| Foto: ESTADÃO CONTEÚDO
  • PorMauro Cezar Pereira
  • 12/08/2020 13:45

Os índices de contaminados pela COVID-19 no Brasil são alarmantes. Foram desperdiçados meses preciosos, que deveriam ser dedicados a uma autêntica quarentena para conter o avanço do vírus.

Governo federal, representado pelo presidente em pessoa, e parcela da população desafiaram o novo coronavírus. O futebol parou assim que a pandemia começou, como ocorreu com comércio, indústria e diversos segmentos da economia.

Quase cinco meses depois, manter as pessoas em casa tornou-se mais difícil complicado, inviável em alguns casos. É fácil insistir no "fica em casa" se você pode trabalhar remotamente, como este jornalista que vos escreve. Mas e quanto a tantos outros trabalhadores?

O que acontecerá com quem precisa, obrigatoriamente, sair para ganhar algum dinheiro? Vai comer, pagar as contas, sobreviver como? Se por algumas semanas ou meses essas pessoas suportariam essa asfixia financeira, depois de aproximadamente 150 dias elas não mais aguentam.

Não há dinheiro, e sem ele não se compra alimentos, não se paga aluguel, condomínio, conta de energia, nada. Como viver assim? O que você faria nessa situação, procuraria trabalhar para faturar algo ou seguiria trancado em casa?

Para quem encara tamanho drama, e não são poucos em tal situação, desafiar o vírus significa um risco. Não trabalhar é uma certeza. Certeza de fome, dívidas, prováveis doenças, uma possível depressão... E a possibilidade de ser despejado por falta de pagamento. E aí, faz o que, vira morador de rua?

O governo brasileiro jamais demonstrou o mínimo de capacidade para lidar com a situação. E ainda expôs muitos aos tumultos em agências da Caixa Econômica para receber os famosos R$ 600.

Como outras atividades, o futebol, que fez demissões no começo da pandemia, tenta voltar. Dele dependem muitos trabalhadores e a maioria não ganha salários milionários de astros da bola, que até sobreviveriam bem, mesmo sem receber por um tempo.

As falhas do protocolo da CBF aumentam a insegurança geral, há vários apelos pela interrupção do Campeonato Brasileiro. Mas pouco se questiona outros aspectos.

Será que entre esses atletas que têm seus testes com resultado positivo para COVID-19 todos estão seguindo à risca as recomendações? E os clubes, fazem tudo como manda o protocolo?

E estamos tratando de jogadores de Série A. Quem joga na primeira divisão faz parte de um grupo de privilegiados em nossa sociedade, como o jornalista que pode trabalhar em casa.

Esses atletas não precisam ir buscar os R$ 600 na Caixa. A maioria absoluta tem automóvel, não anda em transporte coletivo como boa parte das vítimas do vírus, como mostrou a Folha de S. Paulo.

Se quiserem seguir jogando, trabalhando e recebendo, todos terão que ser extremamente responsáveis. E vale frisar que há clubes nos quais os testes são, todos, ou quase, negativos. Por que tanta diferença?

Os procedimentos estabelecidos pela CBF são confusos, o que não surpreende. Até os adotados pela Federação do Rio de Janeiro agora parecem mais confiáveis. Mas é preciso consciência e rigor nos cuidados.

A manutenção dos índices de contaminados reflete, principalmente, a exposição de profissionais da área médica que estão na linha de frente nesta guerra, pessoas que integram os grupos de risco e os mais pobres.

Atletas saudáveis e que são frequentemente testados têm, sim, em maioria, condições de sair de casa somente para treinar e jogar. Podem conviver com poucas pessoas da família e mantê-las em quarentena.

Somente assim poderão continuar trabalhando e ganhando o que ganham, fazendo a economia do futebol girar e preservando seus empregos. E os de milhares que também dependem do esporte.

Os erros absurdos de Jair Bolsonaro na pandemia não justificam jogadores bem pagos, digamos, andando por aí de bicicleta, correndo, fazendo festas ou se reunindo com várias pessoas para cortar o cabelo.

Se os atletas não se sentirem seguros para seguir jogando, que se reúnam e manifestem uma posição. Ou sigam rigorosamente as recomendações. Cobrando dos próprios clubes, caso não façam sua parte.

O debate sobre a continuação, ou não, do futebol, não pode seguir, hoje, em agosto, a mesma pauta de março. O cenário mudou, ficou pior e o novo coronavírus não é a única ameaça à vida. Os efeitos colaterais estão aí, presentes.

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