O Boca Juniors que esteve na noite de terça-feira na Arena da Baixada é um time em bom momento. Ou pelo menos era, até ser atropelado (3 a 0, gols de Marco Ruben) pelo Athletico, encerrando uma sequência invicta de sete partidas dos xeneizes, que vinham de seis vitórias e um empate sem gols com o Jorge Wilstermann, também pela Copa Libertadores.

Foi apenas a segunda derrota do time argentino em 2019 e a primeira por três gols de diferença desde que o Barcelona impôs o mesmo placar em amistoso disputado no mês de agosto do ano passado. Em partidas oficiais, o Boca não engolia um revés dessa magnitude há 1.513 dias. Em 10 de fevereiro de 2016 o San Lorenzo aplicou um 4 a 0 em plena Bombonera.

Naquela temporada, o Ciclón foi um dos melhores times da Argentina, vice-campeão ao perder a decisão para o Lanús, enquanto o Boca, em décimo lugar no seu grupo, não passava de um coadjuvante. Os papéis hoje estão invertidos, o San Lorenzo é o 22º colocado entre os 26 participantes da Superliga, a primeira divisão, vivendo péssima fase há tempos.

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Mesmo assim, fez jogo equilibradíssimo contra o campeão brasileiro. A vitória sobre o Palmeiras (1 a 0) foi apenas a terceira do time de Jorge Almirón em 20 jogos. Impressionante como a equipe paulista não soube se impor ante um adversário frágil tecnicamente, mesmo com todo seu poderio e fartura técnica de quem possui o melhor elenco do Brasil.

Foto: ALEJANDRO PAGNI / AFP

A rodada dupla de Libertadores envolvendo times do Brasil na noite de terça-feira foi elucidativa. Mostrou os dois times do país que ganharam títulos no final da temporada passada, deixando ainda mais clara a diferença entre Athletico de Tiago Nunes e Palmeiras de Luiz Felipe Scolari nos caminhos que traçam em busca dos resultados. O rubro-negro é conjunto, os palmeirenses, defesa e individualidades.

Felipão no jogo na Argentina. Foto: ALEJANDRO PAGNI / AFP

Mesmo com elenco avaliado em cifras mais de três vezes inferiores às referentes ao valor de mercado do grupo de atletas do Palmeiras, o Athletico consegue ser competitivo e mostrar mais futebol. E isso chama a atenção. Nos duelos contra os times de Buenos Aires, o comportamento burocrático e pobre do conjunto paulista chocou na comparação com a intensidade paranaense.

Claro, falta ao Athletico eficiência fora de casa. No Brasileiro do ano passado, venceu apenas duas das 19 partidas que fez fora da Arena, com 10 derrotas. Já na atual Libertadores, perdeu quando saiu de Curitiba, para o Deportes Tolima da Colômbia. Em contrapartida, foi o terceiro que mais pontuou em seus domínios na Série A 2018, mesmo com um primeiro turno muito ruim.

No par de jogos vencidos pelos atleticanos em 2018 na primeira divisão, os 2 a 1 no Maracanã lotado por torcedores do Flamengo na última rodada. Foi 11 dias antes de a equipe conquistar a Copa Sul-americana, da qual o rubro-negro carioca foi finalista em 2017, e perdeu. Na comparação com outro clube que tem investimentos muito maiores no futebol, melhor para o Furacão.

Matheus Rossetto comemora o gol contra o Flamengo em 2018. Foto: Celso Pulpo/Agência Estado

Quando o momento é bom, não são raros os que procuram explicações para o sucesso e, em alguns casos, distorcem os fatos. Nos programas de TV posteriores aos 3 a 0 sobre o Boca, houve quem dissesse que o Athletico consegue resultados porque o trabalho é de longo prazo e os treinadores não perdem o emprego à toa. Não é bem assim, os fatos deixam claro.

Foram 22 técnicos nos últimas sete anos, o que resulta em média acima de três por temporada. Entre eles, três estrangeiros, o uruguaio Juan Ramón Carrasco e os portugueses Miguel Ángel Portugal e Sérgio Vieira. Mas existe um mérito: há algum tempo o clube busca desenvolver uma identidade, uma forma de jogar, e vinha tentando com diferentes profissionais.

Parece ter achado o homem certo ao efetivar Tiago Nunes durante a Copa do Mundo da Rússia, quando Fernando Diniz deixou a função. O trabalho do Furacão é sólido e suporta baixas graves, como as saídas de Raphael Veiga, que voltou ao Palmeiras após empréstimo, e Pablo, muito bem vendido ao São Paulo. O time mantém a força ofensiva, velocidade e capacidade de reter a bola.

Técnico Tiago Nunes no jogo contra o Boca. Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo

Nos 3 a 0 sobre o Boca Juniors, os três tentos de Marco Ruben podem ter marcado a redenção de um artilheiro que o Athletico foi buscar em baixa. Ele não marcou na atual temporada argentina e na anterior fez apenas três gols, o que conseguiu de uma só vez na terça-feira. E contra um dos maiores times de seu país. Na Argentina a muitos se surpreenderam com ressurreição do goleador que por anos defendeu o Rosario Central.

A meta do clube é essa: surpreender e entrar na lista dos mais importantes do continente. Já não tem mais o efeito do inesperado, pois todos conhecem o campeão da Sul-americana e quem não sabia bem de que time se tratava obviamente se ligou depois que o Boca saiu da Arena batido como raramente se vê. Flamengo e Palmeiras têm o dinheiro. Sem tantos recursos, o Athletico desenvolveu uma receita. Só não pode errar na mão.

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