A Gazeta do Povo e a Tribuna do Paraná selecionaram jogos antigos, disponíveis na íntegra na internet, para serem vistos e revistos. Do ponto de vista técnico, tático ou, até mesmo, apenas pessoal, leia como foi a experiência, tanto tempo depois.

"Contra volantes e zagueiros, a vitória da paciência e da fé em Maradona", por Mauro Cezar Pereira

Foi traumática a derrota do Brasil para Maradona. Isso mesmo, uma derrota para o craque da então campeã mundial, como ficou marcado aquele 1 a 0 na tarde ensolarada do dia 24 de junho de 1990 em Turim. Mesmo sem jogar bem, o time comandado por Sebastião Lazaroni vencera seus três compromissos na fase de grupos, 2 a 1 na Suécia e 1 a 0 sobre Costa Rica e Escócia.

Os argentinos só avançaram àquela etapa do Mundial porque terceiros colocados também tinham chance de classificação. E foi essa a posição albiceleste após a derrota para Camarões (1 a 0) na abertura do certame, seguida de vitória sobre a União Soviética (2 a 0) e empate com a Romênia (1 a 1). Os jogadores de Carlos Bilardo chegaram desacreditados até ali.

Foi, sem dúvida, o melhor jogo brasileiro na Copa disputada em solo italiano, onde Maradona, ídolo do sul do país por tudo o que fez com a camisa do Napoli, eliminaria os anfitriões justamente no estádio onde tanto brilhou no calcio. A incrível história de El Diez naquele Mundial começou a ser escrita na série de dribles que destruiu o Brasil com seu par de volantes e trio de zagueiros.

Mas não foi exatamente um lance isolado. A jogada decisiva havia sido ensaiada três vezes nos 81 minutos anteriores ao gol. Maradona fazia o passe vertical buscando Caniggia. Deu certo na quarta tentativa, aos 36 do segundo tempo, depois que Diego arrancou desde o grande círculo, deixou para trás Alemão, Dunga e vazou o trio de zagueiros, marca registrada daquele time de Lazaroni.

Mauro Galvão, Ricardo Rocha e Ricardo Gomes não foram capazes de deter a trajetória da bola entre a mágica canhota do gênio e os pés do descabelado atacante, que passou por Taffarel e fez o único tento da peleja. Um roteiro surpreendente para a torcida brasileira, que não esperava aquilo após tantas chances desperdiçadas e amplo domínio da equipe canarinho.

Com menos de um minuto, arrancada de Careca parou em Goycoechea. Antes dos 6 o Brasil já finalizara três vezes e chegara em cruzamento perigoso. A Argentina mal passara do meio-campo. Aos 7 e meio, Maradona tem a bola pela primeira vez em condições de criar, abre para Basualdo e recebe de volta, mas Dunga o agarra pela camisa. Falta! Marcação forte no craque.

Aos 10 minutos, carrinho de frente de Mauro Galvão em Maradona. Infração do camisa 10 que veio por cima. Antes dos 12, escanteio batido por Dunga atravessou toda a pequena área da Argentina. Ninguém aproveitou. O Brasil jogava no campo adversário, que no máximo tentava manter a bola no ataque em triangulações pela direita com Burruchaga, Cannigia e Maradona.

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Aos 15 minutos, Valdo foi desarmado e a bola chegou a Maradona, que acionou Cannigia. Livre diante de Taffarel, ele mandou para as redes, mas estava impedido. O sinal foi dado. Era assim que os campeões mundiais pretendiam sair do Estádio Delle Alpi vivos na busca pelo terceiro título. Mas aos 18, Branco cruzou e Dunga cabeceou no poste direito. Faltou pouco.

Àquela altura, a Argentina seguia fechada, sequer pressionava a saída de jogo brasileira. Maradona era vaiado quando tocava na bola. O norte da Bota não curtia o ídolo napolitano, evidentemente. Aos 26, arrancada de Troglio e chute fraco. Finalmente os argentinos tentaram! O jogo passara da metade em sua primeira etapa e Taffarel não tinha com o que se preocupar até então.

Mas, aos poucos, o Brasil parou de criar e o time de Bilardo começava a controlar melhor a situação, à espera do espaço para atacar. Mesmo com Lazaroni escalando três zagueiros, Alemão e Dunga à frente deles. Aos 40, o primeiro escanteio argentino, o Brasil já acumulava cinco. No fim da etapa inicial se percebia certo equilíbrio nas ações, o jogo mudou antes do intervalo.

Veio o segundo tempo e aos 12, depois de a bola se chocar novamente com a trave argentina, mais um passe de Maradona buscando Cannigia, desta vez controlado pela defesa brasileira. Aos 16, Taffarel foi acionado no chute de Burruchaga no seu canto direito baixo. Susto. Aos 19, Careca reaparece e cabeceia com perigo sobre o travessão após cruzamento de Müller.

Aos 20 minutos Maradona sofria a quinta falta na partida. Aos 33 minutos, o Brasil tinha mais infrações, 19 a 18. Instantes antes do gol único do cotejo, Calderon foi desarmado por Ricardo Gomes quando a Argentina chegava perigosamente. O torcedor brasileiro, que nos primeiros minutos imaginava uma fácil vitória, já estava tenso e preocupado àquela altura.

E surgiu Maradona após um impedimento do ataque brasileiro. Ele arrancou com a bola para servir Caniggia destruindo todo o sistema defensivo do Brasil em sete segundos nos quais percorreu cerca de 30 metros sem ser desarmado. Gol de um time frio, que sabia ser inferior, mas também tinha a convicção de que o melhor dos 22 em campo estava ao seu lado.

Em seguida, aos 40, Basualdo arrancou para o gol e Ricardo Gomes parou com falta por trás. Expulso. Não fosse a ação desesperada do zagueiro, os argentinos provavelmente ampliariam. Naquele momento Renato Gaúcho e Silas entravam em campo, nos lugares de Mauro Galvão e Alemão. Desespero. Lazaroni começou a partida com três zagueiros e terminou com um.

Em cobrança de falta, o camisa 10 ainda fez Taffarel trabalhar, e aos 43, Müller, autor dos gols das vitórias sobre costa-riquenhos e escoceses, ainda perdeu enorme chance. Seria difícil uma prorrogação com dez homens e a zaga desmontada. A chance do Brasil fora o bom jogo de equipe visto no primeiro tempo. As da Argentina eram paciência e fé. Fé em Diego Armando Maradona.

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