Quando Tom Brady entrar em campo domingo, 7 de fevereiro de 2021, 20h30, na final do Super Bowl 55, contra o atual campeão, o poderoso Kansas City Chiefs, veremos um momento histórico do esporte.

Não estranhe o superlativo. A crônica esportiva adora um exagero – tudo é "único", "legendário", "memorável" – mas, no caso de Brady, o termo "histórico" se justifica.

Será a décima aparição do atleta num Super Bowl, numa carreira profissional de 21 anos (lembrando que ele só virou titular em sua segunda temporada). E poderá dar a Brady o sétimo título da NFL. São marcas que só ele tem.

Além dos títulos e participações em finais, Brady, que é quarterback (passador e "cérebro" do time), detém inúmeros recordes de sua posição: maior número de jardas obtidas com passes; maior número de passes para touchdown (o "gol" do futebol americano) durante a temporada regular; maior número de touchdowns e, mais importante, maior número de vitórias.

Ah, tem mais uma coisa que não podemos esquecer: aos 43 anos, Tom Brady é o jogador mais velho em atividade na NFL.

Existe um fator que torna o jogo de domingo ainda mais importante: pela primeira vez, Brady não estará defendendo o New England Patriots, time em que chegou em 2000 e que ajudou a tornar uma dinastia do esporte. Dessa vez, ele comandará o modesto Tampa Bay Buccaneers.

E quão modesto é o Tampa Bay Buccaneers?

Vamos às estatísticas: o time não chegava num playoff (fase decisiva, mata-mata da NFL) desde 2007. E não vencia um jogo de playoff desde 2002, quando ganhou seu único título. Na temporada de 2019, o Buccaneers venceu 7 jogos e perdeu 9. Depois da chegada de Brady, foram 11 vitórias e 5 derrotas.

Ou seja: Tom Brady chegou a um time de segunda linha (desculpe, torcedores do Buccaneers, mas é verdade) e, em apenas um ano, levou-o a uma final. É um feito difícil de ser igualado.

Imagine que Pelé, depois de se aposentar do Santos, fosse para a Ferroviária de Araraquara e vencesse o Campeonato Brasileiro. Ou que Michael Jordan saísse do Chicago Bulls e ganhasse o título da NBA pelo Washington Wizards.

Nada disso aconteceu. Jordan jogou duas temporadas pelos Wizards, mas não conseguiu levar o time sequer aos “playoffs”.

Mas fica a pergunta: e PODERIA acontecer?

Se Pelé, aos 40 e poucos anos e longe da forma física ideal, fosse contratado pela Ferroviária, poderia ser campeão brasileiro? E Michael Jordan teria condições de levar o Wizards a um título inédito?

São perguntas sem resposta, porque partem de premissas imaginárias, comparam esportes diferentes, e não há dados estatísticos capazes de nos ajudar a respondê-las. Mas rendem uma ótima discussão: seria Tom Brady o atleta mais decisivo da história dos esportes coletivos?

Uma coisa é certa: comparado ao basquete e futebol – ou mesmo a outros esportes coletivos, como hóquei e vôlei – o futebol americano, pelo menos em teoria, é mais coletivo e menos propenso a ser decidido por talentos individuais.

É um esporte altamente especializado, com jogadores que cumprem funções distintas e muito específicas. As equipes têm elencos diferentes para ataque e defesa, e não há possibilidade de um jogador de determinada posição atuar em outra função. Nunca veremos, por exemplo, Tom Brady jogando na defesa.

No futebol é diferente: Pelé jogou por quatro vezes como goleiro no Santos. No basquete, não há distinção entre jogadores de ataque e de defesa. Todos cumprem as duas funções.

Isso faz do sucesso de Tom Brady no Tampa Bay Buccaneers um mistério ainda maior: para que o time passasse a vencer jogos, a simples presença dele na equipe teria de melhorar o desempenho de atletas com os quais ele nem divide o campo. Não adiantaria nada Brady passar para cinco touchdowns, se a defesa permitisse ao adversário marcar seis.

De qualquer forma, será emocionante ver Tom Brady frente a frente com o Kansas City Chiefs e seu fenomenal quarterback Patrick Mahomes, que tinha cinco anos de idade quando Brady chegou à Liga.

Preparem a pipoca...

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