O Athletico vive clima de desconfiança de parte do elenco de atletas com o departamento médico do clube ao longo da temporada. A situação se intensificou nas últimas semanas e ganhou contornos de turbulência interna.

A mais recente lesão do lateral-esquerdo Lucas Esquivel trouxe à tona um novo episódio da relação dos jogadores – e até mesmo profissionais da saúde – dentro do Núcleo de Saúde e Performance. A situação não é de crise, mas o momento atual do setor causa bastante irritação nos bastidores do CT do Caju e, inclusive, motivo para tratamentos particulares fora do clube.

Esse desconforto, que contrasta com a ótima campanha do terceiro colocado do Brasileirão, vem sendo administrado pelo técnico Odair Hellmann, o auxiliar Fábio Moreno e o preparador físico Anderson Nicolau.

Lesão de Esquivel no Athletico

O episódio mais recente que ilustra o cenário problemático no setor envolve Esquivel, um dos principais jogadores do elenco, em recuperação de lesão no tornozelo esquerdo desde 25 de julho. Segundo informações obtidas pelo UmDois Esportes, um trauma leve foi diagnosticado inicialmente. Na sequência, entretanto, constatou-se que a contusão era mais grave.

Em meio a este contexto, o argentino de 24 anos buscou uma clínica particular em Belo Horizonte para se tratar. O caso não foi isolado. Outros jogadores do elenco principal também procuraram – por conta própria – clínicas e ex-funcionários do clube, como o zagueiro Carlos Terán e os volantes Alejandro García e Luiz Gustavo.

O cenário é retrato do que têm acontecido e irritado jogadores e a comissão técnica no CT do Caju: inconsistências nos diagnósticos. Erros nos apontamentos médicos atrapalham também o trabalho de outros profissionais da saúde, como fisioterapeutas, que ficam encarregados da recuperação dos atletas. Já o treinador é a ponta final prejudicada, pois perde opções no elenco no decorrer das partidas.

Procurado pela reportagem, o Athletico informou, por meio da assessoria de imprensa, que não vai se pronunciar sobre “especulações”.

CT do Caju, casa do Athletico. Foto: José Tramontin/Athletico

“Chefão do DM” foi escolha exclusiva de Petraglia e promoveu passaralho no Athletico

Neste panorama de desconfiança dentro do CT do Caju, o UmDois Esportes ouviu cinco ex-funcionários do clube, todos demitidos ao longo do primeiro semestre deste ano.

Ou seja, presenciaram e conviveram com o novo ambiente por alguns meses, até serem desligados. Todas as fontes ouvidas creditam essa turbulência a uma figura que foi responsável por mais de 20 demissões no setor e que, de acordo com os ex-profissionais, desmontou a metodologia construída no Athletico há anos.

Desde janeiro de 2026, o departamento médico é chefiado pelo médico Alexandre Cabral, que retornou para uma quarta passagem pelo Furacão. Ele ocupa a vaga deixada pelo fisiologista Felipe Wallbach, que deixou o núcleo de Saúde e Performance para assumir cargo na Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S Soccer). Em 2019, Cabral foi um dos seis profissionais demitidos no caso que envolveu o doping do zagueiro Thiago Heleno e o volante Camacho.

A recontratação foi decisão do presidente Mario Celso Petraglia. No início do ano, profissionais do Núcleo de Saúde e Performance alertaram a comissão técnica e também o então diretor de futebol Eduardo Freeland, desligado em março, sobre Cabral. Outros nomes foram indicados ao cargo, mas prevaleceu a palavra do presidente.

Outra figura procurada por profissionais no início do ano foi o diretor financeiro Marcio Lara, que assumiu o futebol no fim de março. Segundo os relatos ouvidos pela reportagem, Lara teria ciência do cenário complexo, mas estaria “de mãos atadas”. O assunto seria “caso encerrado” devido à ótima relação do chefe do setor com o presidente e sua filha, Ana Lucia Petraglia.

Petraglia, presidente do Athletico. (Foto: Geraldo Bubniak/AGB/Folhapress).

Desmantelamento do setor

Nesses oito meses à frente do departamento, a gestão de Cabral ficou marcada pela reformulação praticamente completa. Foram mais de 20 demissões, entre médico, fisioterapeutas, nutricionista e enfermeiros, ao longo do primeiro semestre. Em abril, o UmDois noticiou que eram 11 desligamentos, sendo que alguns nomes estavam há anos no clube.

Contudo, as fontes ouvidas apontam que profissionais contratados vieram de clubes sem tanta expressão. Ou seja, chegaram sem bagagem e/ou conhecimento técnico suficiente para usufruir da estrutura montada no CT do Caju. Além disso, um dos novos profissionais já foi demitido ao longo do período de experiência, enquanto outro, acabou sendo deslocado para a categoria de base.

Os relatos apontam que Cabral é de difícil trato no dia a dia, o que seria uma das maiores dificuldades na gestão do departamento. Também apontaram que algumas inconsistências teriam partido do sobrinho de Cabral, o médico Guilherme Leal, atualmente coordenador da área. Até abril, o posto era ocupado pelo médico Matheus Teixeira.

Odair Hellmann durante partida do Athletico no Campeonato Brasileiro
Odair Hellmann comanda o Athletico durante partida pelo Campeonato Brasileiro. Foto: Marco Buenavista/Sports Press Photo/IconSport.

Odair falou sobre o DM do Athletico na última coletiva

A reportagem também apurou que uma reunião entre a comissão técnica e membros do departamento médico aconteceu na última quarta-feira (12), com o objetivo de esclarecer o panorama atual de cada um dos atletas lesionados.

Após o empate contra o Bragantino, Odair foi questionado sobre o retorno de Esquivel e sobre os processos de identificação de lesões no departamento médico do clube. Ao invés de expor qualquer tipo de descontentamento, o comandante preferiu manter a discrição.

“Não pode esperar [o Esquivel para a próxima rodada]. O que é feito e observado em relação a exames e tudo que pode ser feito, a gente tem tudo à disposição e feito as melhores análises desses processos de lesões. Só para dar um exemplo específico, o Esquivel jogou duas partidas anteriores à que ele saiu e estava com dores no púbis”.

“Eu conversei com ele porque já estava estabelecido que não jogaria contra o Corinthians, mas no finalzinho do jogo ele tomou a pancada no tornozelo. A partir de então, vai fazer análise do tornozelo. Detectou-se, viu que há um tempo. Cada lesão tem seu tempo. Uma situação dessa do tornozelo tem situações que você têm que esperar a progressão dela, ou não”, declarou.

Apesar dos incômodos no CT do Caju, Odair tentou dar o assunto como encerrado e disse que o Athletico vai tendo azar. “As coisas estão sendo bem feitas e avaliadas. A gente está dando um pouquinho de azar nestas lesões porque é muito pouco muscular, mas parada no joelho, torção no tornozelo… Isso tem acontecido e faz parte do futebol. Mas, do restante, está tranquilo e estamos fazendo o que tem de ser feito”, completou o treinador.

Após dois dias de folga, o elenco do Athletico se reapresenta nesta terça-feira (18) no CT do Caju. A equipe tem uma semana cheia na preparação para o duelo contra o Botafogo. O jogo, válido pela 24ª rodada, acontece na segunda-feira (24), às 20h, no Engenhão, no Rio de Janeiro.

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