LeBron James sabe de cor quanto tempo passou na bolha da NBA, em Orlando, no ano passado. “96 dias e 95 noites”, cravou o campeão com o Los Angeles Lakers e jogador mais valioso (MVP) das finais, em entrevista ao Uninterrupted.

O canal no Youtube, criado como uma “plataforma de empoderamento” para atletas se expressarem sem intermediários, tem um slogan sugestivo: More than an athlete (Mais que um atleta, na tradução do inglês).

O lema é seguido à risca pelo co-fundador da empresa, o próprio astro do basquete, que aos 36 anos de idade já venceu praticamente tudo que podia dentro de quadra. Mas a despeito de quatro anéis da NBA, duas medalhas de ouro olímpicas, e diversos recordes individuais, o filho de Akron, Ohio, não se limita à sua área de atuação. E por que deveria?

"Nunca me calarei sobre as coisas que estão erradas. Eu prego sobre meu povo e prego sobre igualdade, justiça social, racismo, repressão eleitoral. Vou usar minha plataforma para continuar a lançar luz sobre tudo o que está acontecendo neste país e ao redor do mundo", pontuou James, no fim de fevereiro.

O comentário foi uma resposta direta ao "fogo amigo" do atacante sueco Zlatan Ibrahimovic. Citando o americano, o jogador do Milan afirmou se incomodar quando pessoas com “status” falam sobre política.

Esse tipo de polêmica não é incomum na trajetória do líder do Lakers. Dois anos antes, em 2018, LeBron deixou uma apresentadora do canal Fox News revoltada. O motivo? Em um podcast da ESPN, ele expressou seu mais sincero descontentamento com o então presidente americano, Donald Trump.

“Pode haver uma lição cautelar do LeBron para as crianças. Isso é o que acontece quando você tenta deixar o ensino médio um ano mais cedo para entrar na NBA. E é sempre imprudente buscar conselhos políticos de alguém que recebe US$ 100 milhões por ano para bater bola”, atacou a jornalista Laura Ingraham.

“Calem a boca e driblem”, acrescentou a âncora em seu rompante, englobando na crítica outro astro, Kevin Durant, hoje no Brooklyn Nets.

Canhão LeBron James

Os exemplos acima mostram o tamanho do impacto que a voz de LeBron apresenta ao mundo. Seu ativismo vai muito além das fronteiras do basquete.

“A importância do Lebron é imensurável porque o esporte é uma seara democrática à qual todas as pontas da sociedade têm acesso. Então, é muito mais fácil uma pessoa ser instruída por uma coisa que o LeBron James fala, pelo que um Neymar fala, do que por livros, por política, que são conteúdos que não chegam a todo mundo, são restritos por conta da falta de acesso”, diz o jornalista Marcos Luca Valentim, um dos idealizadores do podcast Ubuntu Esporte Clube, realizado por jornalistas negros do Grupo Globo.

“Muito provavelmente ele é o atleta com maior alcance no planeta, por dois motivos: ainda é o melhor jogador do mundo, o cara mais relevante. Segundo, porque é muito ativo nas suas falas e nas atitudes – têm coisas muito legais que faz, como ajudar comunidades carentes, uma série de ações –, então esse mix faz com que todo mundo pare para ouvir o LeBron”, aponta o ex-jogador da seleção brasileira de basquete Guilherme Giovannoni, comentarista dos canais ESPN e Fox Sports.

Apenas nas três principais redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter), o camisa 23 soma 155 milhões de seguidores. Nomes importantes na mesma luta, como o piloto inglês Lewis Hamilton (33 mi de seguidores) e a tenista japonesa Naomi Osaka (3,7 mi) não têm nem de longe um alcance similar.

E como esporte é paixão, por mais que uma parcela do público possa discordar ou desconheça os pontos de vista de King James, a atenção ao discurso está garantida. É o primeiro passo.

“Ele é um canhão. Então, pessoas que nunca tiveram acesso a um conteúdo racial começam a olhar de maneira diferente porque o LeBron James falou: 'vou procurar a saber o que é. É o Lebron falando'. Pela democracia que o esporte proporciona, a fala dele ganha dimensões absurdas e fundamentais para o que se quer construir em termos de sociedade igualitária”, sintetiza Valentim.

James virou símbolo do Black Lives Matter.
James virou símbolo do Black Lives Matter.

Bolha e planos

Durante a longa estada na bolha da NBA, entre julho e outubro de 2020, LeBron James usou todo seu potencial como ativista para protestar e também conscientizar, tornando-se um dos rostos mais influentes do movimento Black Lives Matter – Vidas Negras Importam.

Durante o primeiro round dos playoffs, em agosto, o time do Milwaukee Bucks não entrou em quadra contra o Orlando Magic em protesto a mais um caso de violência policial nos Estados Unidos. A vítima foi o afro-americano Jacob Blake, que levou sete tiros nas costas em Kenosha, Winsonsin – mesmo estado da franquia liderada pelo grego Giannis Antetokounmpo.

O boicote, decidido apenas pelos jogadores do Bucks, pegou todos de surpresa. "Se somos um exército e vamos para a batalha em solidariedade, mas alguém no front decide ir antes de gritarmos 'atacar', todos somos pegos de guarda baixa. Isso aconteceu. Para ser honesto, eu estava pronto para ir embora [da bolha]. Liguei para minha esposa, minha mãe, e disse que estava provavelmente indo embora [da bolha] porque não havia um plano", contou LeBron.

A liga parou por alguns dias, mas retornou com a liderança de LeBron após jogadores e técnicos se reunirem por videoconferência com os 30 donos das franquias da NBA.

"Conversamos sobre mudanças e coisas que poderíamos fazer para ajudar a promover mudanças enquanto ainda estivéssemos jogando. Porque muitas pessoas disseram que quando voltássemos a jogar iríamos esquecer [dos problemas], e eu não queria que isso acontecesse", reforçou o astro.

Para Giovannoni, a situação é um exemplo claro de como usar os holofotes para atrair os olhares para as causas em pauta. "Aquilo foi uma forma de pressionar as autoridades a tomarem algum tipo de atitude. Se não estivessem acontecendo jogos, os jogadores não teriam essa oportunidade de protestar. Foi uma maneira de pressão também".

A construção de LeBron James, o ativista

Em 25 de maio, a menos dois meses do reinício da NBA após a paralisação devido à pandemia de Covid-19, outro caso brutal tomou conta do noticiário: o assassinato de George Floyd, estrangulado por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço durante uma abordagem em Mineápolis.

Seis anos antes, no entanto, LeBron já protestava abertamente por causa de um caso muito parecido. Eric Garner, negro assim como Floyd, foi morto por estrangulamento em abordagem da polícia de Nova Iorque. Ele repetiu 11 vezes "Eu não consigo respirar" antes de morrer.

"[O ativismo de LeBron] não começou em 2020, após o assassinato de George Floyd. Ele já tinha ações antes. Havia se posicionado em 2014, quando houve o 'I can't breathe', quando outro jovem negro foi assassinado asfixiado pela polícia dos EUA. Na época, o LeBron entrou com essa camisa em quadra como protesto", recorda Valentim, que vê o posicionamento do atleta como resultado de muitas lutas anteriores.

"Não consigo respirar", protesto de LeBron em 2014.
"Não consigo respirar", protesto de LeBron em 2014.

Um símbolo, em especial, é Bill Russell, pivô 11 vezes campeão da NBA com o Boston Celtics e primeiro negro protagonista da liga.

"Russell era amigo de Martin Luther King, de Malcom X, e o legado dele se expande até hoje. James é parte desse legado. Foi Russell quem abriu as portas para o debate dentro da NBA. LeBron é uma construção de várias pessoas que vieram antes dele e do entendimento do que ele é capaz de fazer, da força que o discurso dele tem", aponta o jornalista.

Mais que bandeiras

Uma das bandeiras de King James é que a lei seja aplicada igualmente. Que policiais culpados em casos de brutalidade sejam responsáveis por seus atos, como qualquer cidadão deve ser – mas nem sempre acontece.

Outra briga de um dos melhores jogadores de basquete de todos os tempos é tão importante quanto, pois é ferramenta para mudar a sociedade.

"Minha mãe tem 52 anos e votou pela primeira vez [em 2020] por que nunca acreditou que o voto dela importava", revelou James, ao falar de sua luta para conscientizar a população sobre o direito de votar – nos Estados Unidos o voto não é uma obrigação.

Entre as ações concretas do astro está a More than a vote ("Mais que um voto", na tradução), uma organização cujo objetivo é combater, em longo prazo, a repressão eleitoral. Na última eleição presidencial, por exemplo, 23 das 30 arenas de franquias da NBA foram utilizadas como locais de votação nos EUA.

"Não é político. Não chegamos e dizemos em quem você deve votar. Nós educamos as pessoas para que elas saibam que votar é direito delas", prega o jogador, que neste ano vai estrelar a sequência do filme live-action Space Jam.

"Vejo no LeBron uma intenção de ajudar a juventude, de poder proporcionar oportunidades para quem não tem condições. E ele tem demonstrado isso com iniciativas sociais, educacionais e um posicionamento importante", elogia o ex-companheiro no Cleveland Cavaliers, Anderson Varejão.

LeBron e Varejão atuaram juntos em Cleveland.
LeBron e Varejão atuaram juntos em Cleveland.

Fator Obama e a diferença para Jordan

Esconder a influência do ex-presidente Barack Obama sobre LeBron James é impossível. Ambos se tornaram grandes amigos, primeiramente unidos na paixão pelo basquete. Mas a relação foi muito além e, naturalmente, Obama – 23 anos mais velho – se tornou um mentor para o ala-armador de 2,06 m.

“Nós temos uma real e genuína relação. Temos tantas coisas em comum, podemos conversar não só sobre esporte, como serviço comunitário, sobre crescer em distritos pobres e descobrir maneiras de ajudar a juventude", resumiu James quando Obama deixava o cargo, em janeiro de 2017.

Durante o boicote na bolha da NBA, Obama foi procurado por LeBron e Chris Paul para aconselhá-los sobre como conduzir a situação. Depois do título, o ex-presidente participou do programa de entrevistas comandando por LeBron James na HBO.

"Orgulhoso do meu amigo por seu quarto título, quarto MVP de finais e por não somente manter o hype depois de 17 temporadas, mas por fazer mais, sendo um extraordinário líder na quadra e na arena pública, lutando por educação, justiça social e nossa democracia", parabenizou o político, em mensagem via rede social na ocasião da conquista do Lakers.

Se dentro de quadra Michael Jordan foi mais vitorioso do que James, ainda que exista quem coloque em dúvida o título de melhor de todos os tempos, do lado de fora a diferença de comportamento é clara.

Diferenças de atitude fora das quadras.
Diferenças de atitude fora das quadras.

Enquanto Jordan sempre evitou se posicionar politicamente no período como atleta, LeBron percorre caminho oposto desde 2003, em seu ano de novato na liga.

"As redes sociais começaram a crescer pouco depois da chegada dele – isso foi uma arma que soube usar. Ele pôde ser muito mais ativo com isso. O Jordan vivia em um tempo em que as pessoas que tentavam se expressar mais acabavam sendo um pouco limadas – e ele tinha essa preocupação. Mas hoje ele também entende essa necessidade e, mesmo mais reservado, faz muitas doações para causas importantes", pondera Giovannoni.

"Joguei com LeBron por muitos anos e ele sempre teve noção da força da sua voz. Acho que antes isso não apareceu tanto em razão do momento em que estamos vivendo, de tudo que tem acontecido nesses últimos anos, com uma discussão maior sobre temas sociais, raciais, e casos que tiveram exposição e repercussão. Essa voz dele foi amplificada. Não apenas dele, não apenas de atletas, mas de toda a sociedade", conclui Varejão.

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