Quem dispensou Eduardo Gabriel Aquino Cossa? Em circunstâncias distintas, a pergunta é basicamente a mesma para três clubes: Athletico, Coritiba e Internacional. Troque o nome de batismo do jogador de 24 anos pelo apelido de criança – Pepê – e veja o tamanho da oportunidade perdida: um negócio de 15 milhões de euros, cerca de R$ 98,1 milhões, sem contar os gols, assistências e jogadas do atacante.

Erros de avaliação em série deixaram nas mãos do Grêmio o título de protagonista da maior venda brasileira na última janela de transferências. O Tricolor, que contratou Pepê em 2016 por R$ 500 mil, já incluindo as luvas, negociou 70% dos direitos econômicos do atleta com o Porto, de Portugal.

Os outros 30% eram do modesto Foz do Iguaçu, time da cidade natal do jogador, que vai embolsar aproximadamente R$ 30 milhões com a negociação.

“Joguei cinco anos com o Paulo André [ex-diretor de futebol do Athletico] e ele me diz que o Petraglia pergunta até hoje quem dispensou o Eduardo Gabriel”, relata o representante de Pepê, Adriano Spadoto, citando o presidente do Furacão.

Nãos e sim para Pepê

Para entender melhor como vários “nãos” mudaram vida de uma família humilde do lado brasileiro da tríplice fronteira é preciso voltar no tempo. Nascido em 24 de fevereiro de 1997, filho da doméstica Zunilda Torres Aquino Cossa e do auxiliar de serviços gerais Radanés Donizete Cossa, Eduardo Gabriel sempre foi diferente com a bola nos pés.

Pepê com os pais, Radanés e Zunilda
Pepê com os pais, Radanés e Zunilda

Rápido e destemido desde que começou a frequentar escolinhas de futebol de Foz, o garoto parecia predestinado a se tornar um profissional.

"A gente sabia desde cedo que ele seria jogador. Só não seria se não quisesse. Era daqueles que pegava a bola e partia para cima, não dava chance para o defensor. O que ele faz hoje em campo já fazia conosco na base", fala o ex-jogador Vilmar Escouto, técnico e dono da escolinha que teve papel primordial no desenvolvimento de Pepê.

Sempre ostentando um moicano inspirado no ídolo Neymar, o garoto chegou ao time amador Scouto Esporte Clube em 2009, aos 12 anos de idade. Já conhecido entre os olheiros da cidade, ele trocou de escolinha após o projeto Genoma Colorado fechar as portas. Foram quase quatro anos no novo time, período em que pôde desenvolver os fundamentos da bola.

“Conseguimos dar um suporte para ele quando menor. O talento é dele. Nós, como base, ficamos mais na parte técnica”, conta o professor de educação física Marcelo Ojeda, auxiliar e preparador físico no Scouto.

“O Pepê era um menino muito humilde, não era de falar muito. Quando o pai dele não podia levá-lo para o treino, pois trabalhava à noite, ele ia comigo. Podia estar o maior calor, mas ele sempre usava uma blusa cacharrel”, acrescenta.

Pepê ficou mais de um ano no CT do Caju, mas foi dispensado.
Pepê ficou mais de um ano no CT do Caju, mas foi dispensado.| Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Habilidoso e já com uma frieza acima da média para marcar gols, Pepê foi para o Athletico em meados de 2012. Permaneceu cerca de um ano e meio no CT do Caju, atuando nas equipes sub-15 e sub-17, quando o clube abriu mão do jovem sem dar muita explicação.

“Eu não entendi muito essa dispensa. Falaram que era um bom jogador”, lamenta Zunilda. “Mas acharam que ele era igual aos outros jogadores que já estavam lá”, detalha Radanés.

Procurado pela reportagem, Mario Celso Petraglia disse não lembrar do caso, mas enfatizou: “Precisam levantar também os milhares que passaram e não vingaram. Trabalhar na exceção distorce a verdade dos fatos, riscos e custos”.

A chance do Coxa

Após deixar o Furacão, em 2013, Pepê voltou para casa, aprovado para integrar a base do Foz do Iguaçu. Aos poucos, começou a ganhar rodagem e destaque, a ponto de estrear pela equipe profissional em 2015, ao 18 anos. Os primeiros gols saíram logo no segundo jogo, quando anotou duas vezes contra a Lajeadense, pela Série D.

Em setembro, já com o Foz eliminado na Quarta Divisão, Pepê foi emprestado ao Coritiba por seis meses. Ele jogaria a Copa São Paulo e o Brasileirão sub-20 pelo clube da capital para estar na vitrine. Não havia cláusula de prioridade de compra.

Pepê jogou uma Copa SP pelo Coxa.
Pepê jogou uma Copa SP pelo Coxa.

O atacante foi bem, mas não permaneceu no Coxa. O motivo foi a oferta abaixo da expectativa, segundo Arif Osman, presidente do Foz do Iguaçu.

“Foi um proposta indecorosa. Queriam empréstimo de dois anos e de graça. E se o Pepê fosse vendido, o Coritiba ficaria com 60% na negociação”, justifica, enquanto menciona que o Alviverde ficará com menos de R$ 200 mil do mecanismo de solidariedade da Fifa.

O jovem, então, foi reintegrado ao time profissional do Foz para a disputa do Paranaense. Em sete jogos, marcou três gols. Dois deles no jogo de volta das quartas de final contra o Paraná.

Pepê marcou duas vezes contra o Paraná em 2016.
Pepê marcou duas vezes contra o Paraná em 2016.| Hugo Harada/Gazeta do Povo

Amor à segunda vista

Pepê no Grêmio foi amor à segunda vista. Antes de lucrar milhões com o jogador, o clube gaúcho também deu de ombros para o desconhecido Eduardo Gabriel.

“Aos 13 anos, ele fez teste no Grêmio e não passou. Anos depois o Grêmio acabou comprando o que poderia ter de graça”, ressalta Spadoto, que trabalha com o jogador há cinco anos.

Pepê tem 138 jogos pelo Tricolor, com 31 gols.
Pepê tem 138 jogos pelo Tricolor, com 31 gols.| ucas Uebel/Divulgação Grêmio

O responsável por fechar o negócio entre Grêmio e Foz, após o Paranaense 2016, chama-se Júnior Chávare. Então diretor das categorias de base do Imortal, ele já monitorava o jogador há algum tempo.

No segundo semestre de 2015, enviou um observador para Foz do Iguaçu com a missão de acompanhar a joia por dez dias, em treinamentos e jogos.

Dias depois, tinha a resposta que precisava. “O Grêmio estava em um momento de reestruturação financeira e o presidente Romildo estava na Argentina, para um jogo da Libertadores. Eu falei: não podemos perder essa oportunidade. Quando trouxemos o Everton [Cebolinha] eu falei que ele seria o substituto do Pedro Rocha. Então agora estou trazendo o substituto do Everton. Você precisa confiar em mim”, resgata Chávare.

Depois da insistência, o Grêmio fez o investimento. Para o Foz, o valor foi de R$ 250 mil por 70% dos direitos econômicos. Com luvas e comissão, a quantia não passou de meio milhão de reais – menos de 1% do total da venda da venda para o Porto, cinco anos depois.

Quase colorado?

A ligação entre Pepê e o Rio Grande do Sul por pouco não se consolidou em outra cor.

Além de ter dado os primeiros dribles e chutes em uma escolinha parceira do Inter em Foz do Iguaçu, o então aspirante a jogador chegou a vestir a camisa vermelha em um período de testes.

“Ele ficou um mês em Porto Alegre, mas acabou que não deu certo”, conta a mãe do camisa 25 gremista.

Tímido, mas com personalidade forte

Edu, como é chamado pelos familiares, sempre foi  um menino tímido, mas ao mesmo tempo nunca negou que tem personalidade forte.

Certa vez, foi cortado de uma partida do Foz sem explicação. Antes do jogo, no entanto, Pepê ouviu o presidente Arif Osman em entrevista a uma rádio. E se indignou quando o dirigente afirmou que ele não estava com a delegação por causa de um ato de indisciplina.

“Ele ficou doido e ligou na mesma rádio falando que não era aquilo, que tinha sido cortado porque queriam que ele assinasse um contrato que não estava previsto”, explica o pai.

Arif, contudo, nega os desentendimentos e enfatiza o papel do clube na formação do jogador. “No início de carreira, lá atrás, você como clube tinha que ser duro. E tomamos atitudes que moldaram o que ele é hoje. Isso ninguém pode tirar. Se olharem bem, sem o Foz, como ele teria este sucesso? Sou muito tranquilo e sei que fazemos parte do sucesso dele”, afirma.

Dentro de campo, o avante é altamente competitivo desde a base. O atacante Alisson Safira, que formou dupla com ele no Foz, lembra de uma passagem que mostra bem a vontade de balançar a rede.

“Ganhamos uma partida de 8 a 0, algo assim. E lembro que o Pepê não fez gol. Aí quando entrei no ônibus, ele estava lá quietinho, no fundo, chorando porque não tinha marcado nenhum”, conta o amigo, atualmente no Londrina.

Moicano inspirado em Neymar era o penteado do atacante.
Moicano inspirado em Neymar era o penteado do atacante.

“Até hoje, quando não vai bem em um jogo, ele dá uma sumida, precisa de um tempo para ele porque se cobra demais para jogar bem no próximo”, reforça Zunilda.

Mas o apelido de Menino Maluquinho, reforçado pelas comemorações girando a mãos, também tem fundamento. Quem o conhece, sabe.

“O Pepê é um cara muito brincalhão, um menino muito humilde e de coração bom. E em campos sempre foi diferenciado, rápido e inteligente”, opina Safira.

O atacante Matheus Cunha, do Hertha Berlin, também só guarda boas recordações da época em que jogaram juntos no Coritiba. Os dois, aliás, também atuaram juntos pela seleção sub-23, no Pré-Olímpico de 2020.

“Ele tem coração bom, aquele jeito muito tímido, mas quando você o conhece vê que é um cara de uma energia muito positiva. Fica jogando aqueles jogos de computador que só ele entende, mas dentro de campo se solta para fazer a correria que só ele sabe fazer”.

Pepê e Matheus Cunha em entrevista na seleção sub-23.
Pepê e Matheus Cunha em entrevista na seleção sub-23.
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