"Que decepção!”

A frase em tom de brincadeira, de mãe para filho, tinha uma dose de verdade. Jogadora de basquete, Nara tinha a esperança de ver o primogênito seguir o mesmo esporte. O porte físico impressionava: Rafael William sempre chamou a atenção pela altura, mas não levava jeito para a quadra. O destino estava traçado em outro piso: os gramados.

Os planos no basquete não deram certo, mas surgiu o futebol na vida da família Dias. Da escolinha em Itu, passando pelas categorias de base do Cruzeiro até chegar ao Coritiba, a trajetória do goleiro Rafael William, de 19 anos e 1,95m, foi cercada de apoio e orgulho. O menino que saiu cedo de casa para buscar um sonho hoje é um dos destaques da equipe sub-20 do Coxa, que se prepara para as finais da Copa do Brasil da categoria, contra o Botafogo.

O esporte sempre esteve presente no DNA. Os tios se aventuravam pelo basquete e uma das tias é atleta de vôlei.

“Somos em cinco irmãos. Tirando a do meio, todos são do basquete. Desde os tempos de escola esse esporte sempre foi forte na nossa família. Anos mais tarde, a mais nova entrou para o vôlei e hoje joga profissionalmente em Brasília. Eu jogava pela cidade (Salto, em São Paulo), viajava para outros lugares e me destacava muito. E encarava todo treino como se fosse um jogo”, conta Nara, que era pivô.

Certo dia, a mãe sugeriu mudar de atividade. A solução foi colocar Rafael em uma escolinha da cidade para ver se o filho pegava gosto pelo futebol. O padrasto foi um dos maiores incentivadores a gostar do esporte. Aos quatro anos, era com Ozias que o menino brincava de bola e dava os primeiros sinais de que poderia fazer dela a sua fiel companheira.

“Eu disse ‘Filho, basquete não é para você. Vamos para o futebol tentar outra coisa’.”

Aos 11, Rafael começou a jogar na linha, mas logo foi deslocado para o gol. Na época, um professor viu potencial no garoto, que impressionava pela altura, e indicou a mudança de posição. O problema era que em Salto não havia treinamento específico para goleiro. Foi aí que Nara passou a levar o filho todos os dias para uma escolinha em Itu, que ficava a 15 minutos de distância.

Após dois meses de treinos, Rafael fez um teste no São Paulo, em Cotia, mas não passou. O garoto não desistiu e continuou treinando forte. Aos 13, chegou ao Cruzeiro para uma nova seleção. O prazo de avaliação durava uma semana, mas no terceiro dia veio a aprovação. E foi por lá que o goleiro ficou por um ano e oito meses.

Goleiro Rafael William foi convocado em maio de 2019 para a seleção brasileira
Goleiro Rafael William foi convocado em maio de 2019 para a seleção brasileira| Arquivo Pessoal

Dinheiro de trufas e bolos para passagens de ônibus

Dispensado pela Raposa no final de 2016, Rafael voltou para casa. Decidiu, então, voltar a treinar em Itu e contou principalmente com o esforço da mãe, que passou a vender trufas e bolos para bancar as passagens de ônibus.

“O preço da passagem só subia e acabou pesando no nosso orçamento. Pensei comigo, ‘vou me virar nos 30’. Conversei com uma amiga que fazia trufas e bolos, e passei a revender no meu trabalho. Então, o dinheiro que eu conseguia era separado para o Rafael ir treinar todos os dias”.

Foi assim que Nara conseguiu custear as passagens do filho durante quatro meses. Mais tarde, Rafael ouviu um ‘não’ do Grêmio em outro teste, mas aí surgiu uma oportunidade de avaliação no Coritiba, que hoje é a sua casa.

“Tudo foi sempre no esforço e na humildade. Eu digo para ele nunca esquecer de onde veio. Ele é um filho muito carinhoso, manda mensagem todos os dias e sempre avisa para onde está indo. Ele é muito família. Nas férias, sempre vem para casa e quer estar junto com a gente”, se derrete Nara.

Rafael chegou a ser convocado pela seleção brasileira em maio de 2019. Ele, que mora no alojamento da base no Couto Pereira, já está há quase quatro anos no Alto da Glória. Com grandes defesas, ajudou o Coxa a chegar pela primeira vez na final da Copa do Brasil sub-20. No jogo de ida contra o Internacional, na semi, ele defendeu um pênalti no empate em 1 a 1.

“Ele é apaixonado pelo Coritiba e sempre fala que o sonho dele é ser ídolo da torcida. Ele fica muito feliz quando treina com o time profissional. Tenho muito orgulho de ver a sua evolução em campo. Gosto da vibração dele e quando chama a responsabilidade. Parece que não vou caber em mim de tanto orgulho. Sou a fã número 1 do meu filho”.

Rafael William com a família - o padrasto Ozias, a mãe Nara e o irmão Samuel
Rafael William com a família - o padrasto Ozias, a mãe Nara e o irmão Samuel| Arquivo Pessoal

Apelidos de Avatar e Ter Stegen

Quem conhece bem o goleiro é Thiago Mehl, ex-preparador de goleiros do Coritiba. O profissional conviveu diariamente com Rafael nas temporadas de 2019 e 2020.

“Ele não era titular, mas já tinha uma minutagem boa dentro do sub-20 e um histórico legal no clube. E pelo perfil e biotipo, ele sempre chamou a atenção de todos, muito alto e carismático. Em 2019, alguns atletas adotaram ele, como o Sabino e o Matheus Sales”, contou ao UmDois Esportes.

Thiago conta que o goleiro costumava ser chamado para completar treinos da equipe profissional e ganhou até um apelido curioso.

“Os caras pegavam no pé dele e chamavam de Avatar (em alusão ao filme), e ficavam perguntando quando o Rafa ia treinar com eles. Outra vez, em um treino onde o principal objetivo era o jogo com os pés e construção ofensiva, ele começou a brincar dizendo que era o Ter Stegen, e até os outros goleiros ficavam chamando-o assim”, ri.

Atual preparador de goleiros da seleção brasileira feminina, Thiago também fez uma análise do jogador.

“Um atleta bem técnico, que embora seja muito alto não é lento. Ele tem velocidade, agilidade e qualidade técnica. Tem personalidade para momentos difíceis, perfil frio e discreto no dia a dia”.

Novo Jairo?

Direto da Espanha, onde está com a seleção brasileira feminina, Thiago Mehl vibra com o atual momento de Rafael e relembra o goleiro Jairo, ídolo do Coritiba e quem mais vestiu a camisa do clube na história, com 410 partidas.

“Estou feliz por essa importância dele na campanha da Copa do Brasil sub-20. Acredito que ele tenha um futuro dentro do Coritiba. Na minha época, já se pensava em um tipo de projeto para ele. E uma opinião bem pessoal, eu visualizo o Rafael entrando no Couto Pereira cheio e a primeira imagem que me vem à cabeça é do Jairo, que foi um grande goleiro do Coritiba. Se ele tiver essa oportunidade, tenho certeza que muitos torcedores vão visualizar um novo Jairo”.

Atual preparador de goleiros da seleção brasileira feminina, Thiago Mehl com os goleiros do Coritiba, em junho de 2019
Atual preparador de goleiros da seleção brasileira feminina, Thiago Mehl com os goleiros do Coritiba, em junho de 2019| Arquivo Pessoal

Veja a campanha do Coritiba na Copa do Brasil sub-20:

Primeira fase

  • Coritiba 8 x 0 União Rondonópolis

Oitavas de final

  • Coritiba 1x0 Bahia
  • Bahia 2x2 Coritiba

Quartas de final

  • Coritiba 2x2 Atlético-MG
  • Atlético-MG 0x2 Coritiba

Semifinal

  • Internacional 1x1 Coritiba
  • Coritiba 3x2 Internacional

Final

  • 13/06 - Coritiba x Botafogo
  • 20/06 - Botafogo x Coritiba
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