Dois anos de turbulência, incertezas e reconstrução. Depois de mais de 720 dias longe da elite, o Coritiba está de volta à Série A do Campeonato Brasileiro. Neste sábado (15), no Couto Pereira, o empate com o Athletic-MG marca o fim de uma espera angustiante e o início simbólico de um recomeço na história do clube, agora SAF (Sociedade Anônima do Futebol)

Com uma campanha sólida na Segundona, após um início do ano com eliminações precoces na Copa do Brasil e no Campeonato Paranaense, o Coxa conquistou o acesso com uma rodada de antecipação, somando 67 pontos. Resultado de 19 vitórias, 10 empates e apenas 8 derrotas.

A seguir, o UmDois Esportes lista cinco pontos que explicam como o Coxa transformou uma temporada que começou caótica, com saída de CEO, polêmicas internas e até a dispensa do ídolo Rafinha, em uma correção de rota histórica, que recolocou o clube na primeira prateleira do futebol nacional.

Defesa sólida moldou o Coxa

Sem dúvidas, o maior pilar da equipe foi o sistema defensivo. Durante a Série B, o time chegou a ficar mais de um turno completo sem tomar gol, encerrando a competição como a melhor defesa do campeonato. O contraste com o desempenho do ano anterior foi expressivo já que em 2024, o Coritiba terminou somente 12 partidas sem ser vazado.

O bom desempenho defensivo evidênciou a marca registrada do técnico Mozart. Em 2024, ele já havia comandado o Mirassol ao acesso como a melhor defesa da Série B. Na zaga, a dupla formada pelo experiente Maicon e a surpresa Jacy, que jogava como volante e foi um trunfo encontrado pelo comandante.

Quem também se destacou foi o iluminado goleiro Pedro Morisco, de 21 anos, que está na sua segunda temporada profissional. Ele foi decisivo para o acesso, acumulando atuações memoráveis no período em que o time mais precisava se firmar na tabela de classificação. O camisa 1 também foi o arqueiro que menos sofreu gols na competição.

Foto: JP Pacheco/Coritiba

Continuidade e construção da identidade

Um dos pontos que marcou a campanha de 2025 foi a resiliência. O ano começou com resultados abaixo da expectativa, mas o técnico Mozart teve seu trabalho respaldado. Na partida anterior ao acesso, contra o Paysandu, o treinador fez questão de elogiar publicamente o head esportivo William Thomas.

“O William, depois da eliminação para o Ceilândia, me confirmou como treinador. A mensagem que ele transmitiu foi uma mensagem de bastante convicção, no que ele acreditava, no meu trabalho. Então, acredito que ali foi um divisor de águas para o nosso trabalho de um modo geral. E a partir daquele momento ali, nós tivemos um período de 15, 20 dias para realmente encontrar essa identidade e construir ela”.

A continuidade do trabalho fez com que o Coritiba ganhasse essa cara própria, mesmo diante das pressões externas. A sequência e o tempo dado ao treinador para ajustar o modelo de jogo refletiu na recuperação de atletas e na retomada do grupo alviverde rumo à elite.

Vestiário alviverde unido

Foto: IconSport

O Coxa não é formado apenas por jogadores – e em 2025 isso ficou evidente. Profissionais de várias areas, como comunicação, saúde, nutrição, análise de desempenho, scout e staff, fizeram parte ativa do processo de acesso. Juntos, todos criaram uma ligação muito forte.

Ao fim das vitórias do Coxa, era comum ver a integração de jogadores e funcionários comemorando juntos, caminhando até a arquibancada para saudar a torcida. Essa união também foi uma resposta à frustração interna de 2024.

Depois de uma temporada marcada por expectativas não cumpridas, o grupo transformou a decepção em combustível. E essa conexão não acontecia apenas no CT ou no vestiário.

Ainda no início da Série B, muitos atletas se reuniam na casa do zagueiro Maicon para encontros religiosos, momentos que acabaram fortalecendo laços para além do futebol, criando vínculos familiares e ampliando o senso de pertencimento dentro do elenco.

Durante as entrevistas coletivas ao longo da Série B, o discurso também se repetia. Jogadores e comissão destacavam a cobrança mútua, o ambiente leve – mas competitivo – e a clareza de um objetivo comum que foi cumprido.

Coxa é o melhor visitante da Série B

Em 2024, vencer fora de casa era um verdadeiro desafio para o Coritiba. O clube passou um turno inteiro sem ganhar como visitante e terminou a temporada com apenas quatro vitórias longe do Couto Pereira.

Mas a atual campanha virou essa chave de forma radical. Se em casa a cobrança por vezes pesou, foi longe de Curitiba que o time encontrou a leveza necessária para construir o caminho do acesso. O Coxa encerrou o campeonato como o melhor visitante da Série B, somando nove vitórias, três empates e seis derrotas, o que representa aproveitamento de 55%.

Foi fora de casa que o time cresceu quando mais precisava. Sempre que a tensão aumentava no Couto, as respostas vinham longe da sua torcida, como a vitória contra o Vila Nova, na 20ª rodada, e contra o Avaí, na 29ª, que garantiram tranquilidade ao time e marcou a melhora do ano anterior.

Convicção de Mozart

Não há como explicar o acesso do Coxa sem citar o nome do técnico Mozart. Identificado com o clube, o curitibano comprou brigas durante o ano, mas nunca deixou de acreditar em seu método de trabalho, que se provou chave para o sucesso alviverde na temporada.

O treinador conseguiu recuperar o time após um início de temporada desastroso, identificou potencial em diversos jogadores, como Jacy e Wallison, nunca abandonou seus atacantes diante da dificuldade em marcar gols e, quando necessário, disciplinou sua melhor peça ofensiva, como aconteceu no caso de Lucas Ronier.

Muito querido internamente, o comandante foi fiel às suas crenças e sabia, desde o início, onde queria chegar – e como faria essa caminhada. “Principalmente num campeonato de pontos corridos, que é uma maratona, você precisa ter uma defesa sólida”, explicou Mozart no podcast Carneiro & Mafuz, ainda em julho.

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