Presidente científico e do Conselho de Administração da Neodent, o paranaense Geninho Thomé, 69 anos, poderia ter acrescentado outro desafiador cargo de chefia ao seu currículo, caso quisesse. A posição em questão, aliás, tinha tudo para mexer com o coração coxa-branca do dentista que fez fortuna produzindo implantes.

Antes de formalizar sua candidatura à presidência do Coritiba, Renato Follador tentou convencer Thomé a assumir a cabeça de chapa do grupo que venceria a eleição de dezembro de 2020 com esmagadores 75,77% dos votos.

“Você vai ser presidente, eu vou ser vice”, convidou Follador, falecido em julho deste ano por complicações da Covid-19.

A resposta ao amigo foi enfaticamente negativa. “Eu falei: Renatinho, confio muito mais em você do que em mim para o cargo. Quero apoiar, ajudar, participo de algumas reuniões, mas sou torcedor”, recorda o fundador da terceira maior empresa de implantes dentários do mundo.

Apesar de declinar a oferta, indicando Osíris Klamas para sua vaga no G5, Geninho cumpriu a promessa de ajudar o Alviverde. No último 29 de julho, a Neodent foi anunciada como patrocinadora master da equipe, com contrato válido até 2022.

O inédito investimento em futebol, contudo, não parou por aí. No mesmo dia, o Paraná Clube também divulgou acordo com a empresa, cenário que se repetiu com o Athletico no sexto dia de agosto. Tudo estrategicamente planejado por um alemão.

“Desde o início estava claro para mim que se fizéssemos algo, teria de ser em Curitiba, no Paraná, e com os três clubes, porque sentimos orgulho de ser uma empresa curitibana”, justifica, em um fluente portunhol, o CEO da Neodent, Matthias Schupp, 57 anos.

As negociações com o Trio de Ferro partiram do executivo europeu, que comanda a firma desde 2015, quando o grupo suíço Straumann adquiriu a Neodent por R$ 1,2 bilhão. “Patrocinar só o Coritiba seria um tiro no pé”, admite Geninho.

Neodent patrocina o Trio de Ferro. Foto: Rodolfo Bührer/Neodent/Divulgação
Neodent patrocina o Trio de Ferro. Foto: Rodolfo Bührer/Neodent/Divulgação| RODOLFO BUHRER

Os valores são mantidos em sigilo. No caso do Coxa, Matthias garante que o acordo está fechado até a próxima temporada, independentemente do acesso à elite se confirmar ou não. Para o Athletico, com quem as conversas se desenrolaram há mais de dois anos, ele revela que não há bônus por performance para 2021, mas a situação pode mudar na próxima temporada.

Com ambos, o plano é formar parcerias duradouras. “Tem que ser a médio-longo prazo. Não queremos aproveitar uma oportunidade da pandemia e fazer algo por cinco, seis, sete jogos, ou até o fim do ano. Tem que ser uma parceria de continuidade”, ressalta Schupp, ao mesmo tempo em que seu trejeito tipicamente alemão deixa escapar certa preocupação com o Tricolor.

“Acho que o Paraná passa por um momento muito difícil, mas independente se está na Série A, B ou C, queremos ajudar. Agora, espero também que a nova direção que vai assumir tenha a mesma perspectiva porque a última coisa que queremos como empresa é fazer parte de um escândalo, tumulto ou qualquer situação assim”.

Matthias e Geninho, da Neodent. Foto: Neodent/Divulgação
Matthias e Geninho, da Neodent. Foto: Neodent/Divulgação

Quase empresário

Enquanto Geninho Thomé se considera um membro informal da diretoria coxa-branca, Matthias Schupp, por sua vez, já atuou extraoficialmente, digamos assim, no mundo da bola. E de maneira bastante inusitada.

A paixão do alemão pelo futebol começou logo na infância, quando viajava até Frankfurt para assistir, ao lado do pai e o avô, ao rubro-negro Eintracht Frankfurt jogar no Waldstadion. Mas foi na Suíça, já adulto, que o executivo observou o futebol por outra perspectiva.

Por acaso, o filho de Matthias se tornou amigo de dois jogadores do FC Basel, ambos sul-americanos, no início da década de 2010: o defensor chileno Marcelo Díaz, formado na Universidad de Chile, e o zagueiro argentino Gastón Sauro, cria Boca Juniors.

“Eu me tornei como um segundo pai para eles, especialmente para o Gastón”, conta.

Como os atletas chegaram ao novo clube sem falar uma palavra de alemão ou inglês, a amizade criada com a dupla levou o hoje CEO da Neodent a fazer as vezes de empresário.

“Eu vi de perto como funciona um clube profissional que jogava a Champions League, conversava com o treinador – nem o agente deles falava inglês. Eu ia aos jogos, treinos, coletivas de imprensa”, lembra o alemão, que até conduziu a negociação de Sauro para o Columbus Crew, dos Estados Unidos, em 2015.

“Não ganhei nada. A única coisa era a entrada VIP no estádio, mas já estava bom, não queria ganhar dinheiro com aquilo”, diz o executivo, que hoje nutre um carinho especial pelo Furacão.

Geninho é coxa-branca roxo. Foto: Rodolfo Bührer/Neodent/Divulgação| RODOLFO BUHRER
Geninho é coxa-branca roxo. Foto: Rodolfo Bührer/Neodent/Divulgação| RODOLFO BUHRER| RODOLFO BUHRER

Futebol até os dentes

Torcedor do Coxa desde 1970, Geninho Thomé também realizou um sonho da juventude na recente aproximação com o clube do coração. Antes mesmo do patrocínio da Neodent, ele fez um empréstimo de R$ 1 milhão ao clube – valor quitado em março sem cobrança de juros.

O suporte financeiro, que pode se repetir no futuro, é recompensado de forma simples. “A relação de ir ao vestiário, de sentir o cheiro do zigue, de ver a energia dos caras, a concentração… Essas coisas ali que me movem”, explica Thomé, que assiste aos jogos no Couto Pereira com a diretoria e não esconde a animação com liderança da Série B após o fim do primeiro turno.

“Jamais poderia imaginar que pudesse ajudar o Coritiba de uma forma diferente do que indo ao estádio e vestindo a camisa”, prossegue o dentista, ainda mais orgulho por outro motivo.

A Neodent também alinhou uma parceria para dar atendimento odontológico gratuito aos jogadores das categorias de base de Athletico, Coritiba e Paraná.

Acho bonito, acho que é de se aplaudir, ver o nome da Neodent nas camisetas dos times, mas por trás disso têm coisas muito mais sensíveis, como o cuidado que queremos ter com os meninos da base, dar um atendimento digno a eles.

Geninho Thomé
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