Talvez seja um exagero, talvez não, mas há quem creia que os Jogos Olímpicos estejam em uma esquina parecida com aquela em que estiveram no fim dos anos 70 do século passado, e que Michael Payne descreveu no seu excelente A Virada Olímpica. Os desafios são um pouco diferentes: naquela época o COI passava por enormes dificuldades financeiras, o que não acontece hoje. Os problemas atuais são de outra ordem: como manter a competição relevante para o público jovem sem abandonar a tradição? Como realizar um evento desse porte diante de uma série de novas realidades, das ambientais às ideológicas, passando pelas tecnológicas?

Recebi um relatório bem bacana chamado Soluções inovadoras para problemas reais em modalidades olímpicas e paralímpicas, montado por quatro instituições: Brazil Sports Tech, Cadeira Central, Sportheca e Sports Network. Ele faz um resumo interessante de uma série de inovações tecnológicas que vêm acompanhando os Jogos Olímpicos desde a sua criação, todas as novidades que foram previstas para Tóquio-2020, como os locais de competição foram estruturados para aproveitar o legado dos Jogos de 1964. Para quem se interessa por esse aspecto do esporte como fomentador de novas soluções tecnológicas, tem muita informação ali.

Como os Jogos Olímpicos podem conquistar novos públicos sem perder os atuais fãs, e enfrentar esses tempos de wokeness sem se deixar levar pela lacração?

O meu maior interesse foi a última seção, chamada “Tendências futuristas”, e que enumera uma série de desafios para o COI, os atletas, os patrocinadores, a mídia e as cidades-sede. Por exemplo, em A Virada Olímpica Payne conta como o COI passou a renegociar os contratos de transmissão televisiva dos Jogos de forma a transformá-los em uma mina de ouro para o COI, na prática salvando a entidade financeiramente. Mas e agora, com streaming, canais infinitos e a possibilidade de ver as competições pelo celular ou pelo tablet, como os direitos serão negociados quando os atuais contratos expirarem? As novas tecnologias vão trazer mais ou menos dinheiro ao detentor dos direitos? Como o COI pode explorar melhor seu acervo para os fãs dos Jogos? Uma sacada incrível foi a criação do Olympic Channel, lançado no encerramento da Rio-2016, com documentários e séries. E, quando a pandemia atacou e fez todo mundo ficar em casa, o Olympic Channel passou a mostrar, em um looping infinito, por meses a fio, as cerimônias de abertura e encerramento de todas as edições, de PyeongChang-2018 a Calgary-1988.

Em alguns casos, no entanto, achei que o relatório acabou ignorando algumas questões, como quando fala da interação entre atletas e público nas mídias sociais. “Não acredito que em 7 anos (visando Los Angeles 2028), os atletas continuarão com a postura que alguns ainda têm, de viver em uma redoma. Eles terão que ser mais abertos e interagir muito mais com quem faz com que eles sejam ídolos e inspirem novas gerações”, diz, a certa altura, Rodrigo Garcia. Curiosamente, tivemos dois casos na delegação brasileira que apontam para o contrário, ao menos no que diz respeito ao período dos Jogos e os dias imediatamente anteriores: o do ginasta Arthur Nory, vítima de um linchamento virtual, e o da nadadora Ana Marcela Cunha, que disse no Ohayo Tóquio ter desligado completamente as mídias sociais nos dias anteriores à sua competição para se concentrar – e o resultado nós vimos bem. Durante o ciclo olímpico tudo bem, é bom ter engajamento e interação, mas perto dos Jogos e durante a competição parece que a melhor receita é desligar pra não perder o foco.

Outro tema que é mais complexo do que parece é o da sustentabilidade. O relatório cita o objetivo de fazer de Paris-2024 os primeiros Jogos Olímpicos neutros em emissão de carbono, mas por outro lado a mudança no processo de seleção das sedes também passou a permitir candidaturas regionais, em vez de concentradas em uma única cidade. Há o ponto positivo de “espalhar” a carga sobre mais cidades e evitar a necessidade de construir novas estruturas. Eu, particularmente, não gosto da ideia de subsedes muito espalhadas, porque as distâncias vão atrapalhar a experiência olímpica tanto dos espectadores quanto dos atletas – você vai precisar de mais Vilas Olímpicas, e aí mata um pouco a própria ideia da convivência entre gente do mundo inteiro, que também está na essência do espírito olímpico. E também há um problema ambiental: espalhar demais as competições exigirá mais deslocamentos, dos atletas, da torcida, da imprensa, de todo mundo, e isso também deixa uma pegada ambiental.

Como é natural, até pelo perfil das quatro empresas/consultorias envolvidas, o relatório prioriza as inovações tecnológicas, e nisso ele entrega o que promete. Mas acho que os principais desafios de inovação para o movimento olímpico são de outra natureza: conquistar novos públicos sem perder os atuais fãs, e enfrentar esses tempos de wokeness sem se deixar levar pela lacração.

O relatório até menciona brevemente algumas medidas, como a entrada de novos esportes (aqui eu sou mais tradicionalista, por mim não haveria nem escalada, quanto mais breakdancing...) e as mudanças na Regra 50 da Carta Olímpica, sobre protestos políticos/ideológicos. Felizmente, como já observei, Tóquio não foi a farra que a militância queria (a investigação do “X” da Raven Saunders foi suspensa temporariamente por causa do falecimento da mãe da atleta), mas é bem possível que as pressões continuem até 2024. Ainda temos o problema não resolvido dos atletas transgênero nos esportes femininos, a discussão sobre direitos dos animais após a agressão da treinadora alemã contra um cavalo no pentatlo moderno, continuamos tendo o boicote anti-Israel da parte de alguns países e atletas... Talvez estes sejam alguns dos principais desafios do COI, além de refinar o novo processo de escolha de sedes para não voltarmos ao cenário de décadas atrás, quando sediar os Jogos parecia algo que ninguém mais queria. Que os Jogos precisam de reinvenção constante parece claro. O que eu gostaria de ver é um processo cauteloso, “conservador”, de absorver mudanças mantendo o que funciona, sem precisar ser “revolucionário”, derrubando todo o prédio para reerguê-lo do zero. Só não sei se é isso que está na cabeça do povo em Lausanne.

E se os fãs e as crianças pudessem conhecer e conversar com um medalhista olímpico?

Neste fim de semana, uma amiga brasileira que mora em Londres participou de um evento chamado I am Team GB, no Parque Olímpico da cidade. A principal atração foi a possibilidade de conhecer, conversar, tietar, fazer selfies etc. com os atletas britânicos que estiveram em Tóquio, medalhistas e não medalhistas. E fiquei imaginando como seria ter algo assim no Brasil, deixar os fãs e especialmente as crianças conhecerem e conversarem com o Isaquias, a Mayra, a Ana Marcela, a Fadinha, o Darlan, a Rebeca, o Marcus D’Almeida, o Hugo Calderano e tantos outros, tirarem foto, pegar a medalha, enfim... sim, o Brasil é enorme e seria injusto fazer um evento só em alguma capital do Sudeste; precisaria ser uma turnê, alternando nomes, e por aí vai. Sei que os atletas precisam treinar e têm vários outros compromissos, mas participar de algo assim seria um sacrifício que vale a pena se queremos estimular mais pessoas a torcer pelos nossos atletas e praticar esporte olímpico. Está dada a dica para o COB!

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