Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, os atletas húngaros e italianos trouxeram pins das candidaturas de Budapeste e Roma aos Jogos de 2024 para trocar na Vila Olímpica. Meses depois, as duas cidades desistiram da disputa – a alemã Hamburgo já tinha saído em 2015. Sobraram apenas Los Angeles e Paris. A frustração do Comitê Olímpico Internacional foi tão grande que em setembro de 2017, quando chegou a hora da eleição, a entidade resolveu entregar 2024 para uma das metrópoles e já deixar 2028 com a outra, para não correr o risco de ver outra disputa esvaziada aos 45 do segundo tempo. E não ficou nisso: em 2019, o COI mudou completamente o sistema de escolha da sede – é esse novo modelo que deve consagrar Brisbane, na Austrália, para os Jogos de 2032, a não ser que ocorra uma catástrofe na sessão plenária do COI marcada para o mês que vem, antes do início dos Jogos de Tóquio.

O método antigo de escolha de sede parecia mesmo ter chegado ao limite. As candidaturas viraram aventuras caríssimas, e algumas cidades nem pareciam estar levando a coisa muito a sério – um chefão da candidatura de Budapeste chegou a dizer que entrou na disputa por 2024 só para treinar, porque o verdadeiro objetivo era 2028. Como resultado, o número de finalistas foi caindo: três para 2020 e apenas dois para 2024 e para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 e 2026. Além disso, o Brasil fez o favor de mostrar ao mundo que os esquemas de compra de votos, que se acreditavam extintos desde o escândalo de Salt Lake City-2002, continuavam ocorrendo. Alguma coisa tinha de mudar.

Mas nem por isso o novo processo é exatamente justo. Muito resumidamente, ele consiste em meio que ir conversando com potenciais interessados, selecionar um deles – e quem faz isso é um comitê de menos de dez pessoas – e seguir negociando. Se não der nada errado no meio do caminho, a cidade é sacramentada como sede. E, se antes a escolha ocorria sempre sete anos antes da competição, a nova regra não impõe nenhum cronograma fixo, o que permitiu a Brisbane ser escolhida com 11 anos de antecedência.

Os alemães, que também estavam interessados em 2032, mas foram preteridos no processo ao lado de indianos, indonésios, coreanos e catarianos, chamaram o novo sistema de “incompreensível”, “nada transparente” e sujeito a “decisões arbitrárias”. Choro de perdedor? Talvez, mas a reclamação não deixa de proceder, tanto que especialistas em candidaturas olímpicas tiveram a mesma opinião. A impressão inicial dessa primeira escolha pelo novo sistema é a de que vence quem chega primeiro, grita mais alto “nós queremos” ou tem os padrinhos certos (quem comandou o grupo que redesenhou a seleção de sedes olímpicas foi um australiano, o vice-presidente do COI John Coates, que já alimentava a ideia de levar os Jogos para Brisbane desde 2015); ainda que os outros interessados tenham propostas sólidas e apoio popular e governamental, eles só terão alguma chance se a candidata preferencial pisar muito na bola. Mas, para o COI, é tudo bastante conveniente, até porque se evitam os fiascos como a escolha de 2024 e as desistências de última hora que deixam muita gente questionando se ainda é um bom negócio receber a competição, já que tantos candidatos acabam pulando fora.

Nada contra a Austrália ou Brisbane. Sydney-2000 está certamente entre as edições mais bem organizadas (se não for a mais bem organizada) da história, e Gold Coast, a poucas dezenas de quilômetros de Brisbane, sediou os Jogos da Commonwealth em 2018. Mas o COI precisa incrementar o processo, ser mais transparente nos critérios e abrir o jogo com todas as cidades dispostas a sediar os Jogos Olímpicos – os “perdedores” de 2032 seguirão conversando com o COI e podem se tornar sedes em 2036 ou 2040, diz o presidente da entidade, Thomas Bach. Se ficar consolidada a impressão de que a disputa já começa com um vencedor definido, haverá cada vez menos interessados, até que se volte à situação que deu início a todo esse novo esquema de seleção.

Marcio Antonio Campos é editor de Opinião da Gazeta do Povo. Fã inveterado dos Jogos Olímpicos, participou como voluntário em duas edições (Turim-2006 e Rio-2016).

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