Além das crônicas da Grécia Antiga, berço dos Jogos Olímpicos, também os Evangelhos registram uma corrida, com vencedor e tudo. São João conta que, após Maria Madalena avisar os apóstolos que o corpo de Cristo não estava mais na tumba, “saiu, então, Pedro com aquele outro discípulo [o próprio João], e foram ao sepulcro. Corriam juntos, mas aquele outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro”. “Corriam juntos” – simul currebant, em latim. Este é o lema do time esportivo do Vaticano, a Athletica Vaticana, criada em 2019 e que tem emblema próprio, fornecedor de uniforme (a italiana Erreà, que também veste, por exemplo, as seleções de vôlei de Itália e França) e já participa de competições internacionais.

E por que o Vaticano resolveu ter uma equipe de atletas? “Em maio, o papa Francisco disse que ‘a Igreja se preocupa com tudo o que diz respeito ao ser humano’, e o esporte fala uma língua universal, que todos entendem. O esporte – o verdadeiro esporte, praticado de forma autêntica – nos permite superar barreiras e preconceitos. Nosso objetivo é testemunhar a cultura do encontro e da fraternidade no esporte, com humildade e simplicidade”, disse ao Papo Olímpico, em entrevista por e-mail, Giampaolo Mattei, presidente da Athletica Vaticana e jornalista do L’Osservatore Romano. Não se trata, portanto, do esporte pelo esporte. “Se fosse só para nos exercitarmos, não era preciso montar uma equipe do Vaticano. Dentro das nossas limitações, queremos levar a todos os atletas a convocação do papa a sermos verdadeiramente irmãos e irmãs – fratelli tutti –, fazendo do esporte uma oportunidade de crescimento e não apenas algo para a própria satisfação. Sem falar dos valores morais envolvidos. Perder jogando limpo, por exemplo, é sempre melhor que uma vitória suja”, acrescenta Mattei. “O esporte está a serviço das pessoas, não o contrário. Mas só conseguiremos mostrar isso se nós também testemunharmos nossa fé em Jesus”, diz o presidente da Athletica Vaticana, lembrando que os membros escreveram a “oração do maratonista”, já traduzida para 37 idiomas.

“Obrigado, Senhor,
porque me fazes correr
e não me abandonas no quilômetro 35
da grande maratona da minha vida.”

Trecho da “oração do maratonista”, escrita por membros da Athletica Vaticana

Podem fazer parte da Athletica Vaticana cidadãos do Vaticano, funcionários dos órgãos da Santa Sé e seus familiares de primeiro grau. Hoje, a equipe tem cerca de 110 pessoas, com as mais diversas ocupações, incluindo dois bispos, uma freira e 15 padres. O mais jovem dos atletas é um membro da Guarda Suíça de 19 anos; o mais idoso, um funcionário da Biblioteca Vaticana de 65 anos. “O Vaticano é um Estado pequeno, não tem como sermos muitos”, diz Mattei. Por enquanto, todos os integrantes praticam atletismo – e há um pequeno, “mas aguerrido” time paralímpico –; a associação pretende incluir em breve ciclistas e praticantes de pádel. Há, ainda, alguns “membros honorários”, como Sara Vargetto, cadeirante de 13 anos que participa de corridas. “Dizem que ela é nossa mascote, mas na verdade ela é nosso ícone. É ela que nos empurra com o seu sorriso, não o contrário”, conta Mattei, que também cita Buba, um refugiado da Gâmbia, que chegou à Itália de barco depois de ter sido vendido como escravo três vezes. “Quando o cardeal Gianfranco Ravasi [presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, ao qual a Athletica Vaticana está subordinada] lhe deu a camiseta com o escudo papal, ele, que é muçulmano, caiu em lágrimas”, recorda Mattei.

A Athletica Vaticana é co-organizadora da meia-maratona de Roma “Via Pacis”, que começa e termina na Praça de São Pedro, e passa por locais importantes de culto de várias religiões. E o time vem participando de competições da Associação dos Pequenos Estados da Europa, que realiza até jogos próprios (a edição de 2021 foi cancelada; a de 2023 está prevista para ocorrer em Malta). “É uma experiência bela e interessante, essa de assumir nossa pequenez para emergir melhor da crise da pandemia, algo que só podemos conseguir juntos, e não isoladamente. Mas, fora isso, não temos calendário internacional nem objetivos em termos de competições. O que nos interessa é ser uma comunidade esportiva que constrói pontes de amizade e diálogo com todos, sem exceção”, diz o presidente da equipe.

O papa Francisco enviou um bastão de revezamento autografado a uma competição entre pequenos países europeus em junho de 2021, com a participação da equipe da Athletica Vaticana. Foto: Vatican Media
O papa Francisco enviou um bastão de revezamento autografado a uma competição entre pequenos países europeus em junho de 2021, com a participação da equipe da Athletica Vaticana. Foto: Vatican Media| Vatican Media

E podemos ver uma delegação do Vaticano nos Jogos Olímpicos em breve? Teoricamente, isso é possível. Até 1996, o Comitê Olímpico Internacional aceitava também comitês nacionais de territórios, colônias ou dependências, como Aruba, Porto Rico, Hong Kong, Ilhas Virgens Britânicas, Bermuda, Guam ou Ilhas Virgens Americanas. Mas, naquele ano, houve uma mudança na Carta Olímpica e só passaram a ser aceitos novos comitês nacionais de nações independentes com reconhecimento de ao menos parte da comunidade internacional. Quem já tinha conseguido o direito de participar dos Jogos o manteve, mas isso ficou impossível, por exemplo, para Ilhas Faroe, Gibraltar ou Groenlândia – a não ser que se tornem independentes. Como resultado da mudança, hoje existem apenas duas nações soberanas e que ainda não fazem parte do COI: Niue, uma ilha no Pacífico; e o Vaticano.

No entanto, a maior competição esportiva do mundo não está nos planos da Athletica Vaticana, ao menos por enquanto. “Mas compartilhamos plenamente os valores do olimpismo, de amizade entre povos e culturas, e estamos muito felizes de o COI estar considerando acrescentar uma quarta palavra – communiter, ‘juntos’ – ao lema olímpico ‘Citius! Altius! Fortius!’ [‘mais rápido, mais alto, mais forte’], que aliás foi criado por um frade dominicano, Henri Didon”, diz Mattei. “Juntos”, como no lema da Athletica Vaticana, cujo presidente ainda lembra que é importante ter em mente como termina o episódio daquela corrida pascal: “João chega primeiro, ele é mais jovem e mais veloz, mas para e espera Pedro, que é mais velho, e o deixa entrar primeiro na tumba. Como diz o papa, saber ir ‘no ritmo dos mais lentos’ é algo que precisamos aplicar em todos os aspectos da vida”.

Participe da conversa!
0