Há rebaixamentos acidentais, se é que podem ser assim chamados. Clubes que nem chegam a ter administrações das piores, mas em determinado momento mergulham em crise técnica, acumulam derrotas, param na zona do rebaixamento e, como se estivessem na areia movediça, afundam e não conseguem escapar.

Há outros casos nos quais a queda é reflexo de algo que vem sendo desenvolvido pouco a pouco. É o caso do Cruzeiro, que estará, pela primeira vez em sua história, na segunda divisão do Campeonato Brasileiro em 2020.

As gestões que montaram elencos poderosos, bicampeões brasileiros em 2013/2014 e bi da Copa do Brasil 2017/2018, devastaram o clube financeiramente, com dívida que disparou e um sem número de equívocos administrativos.

A explosão veio em 2019, primeiro com as reportagens de Rodrigo Capelo e Gabriela Moreira, jornalistas que escancararam a podridão tomando conta da agremiação. Em campo, a decadência se acentuava com a tétrica reta final de Mano Menezes à frente do time, com uma vitória em seus 20 últimos jogos.

Piorou quando os cartolas, incapazes na gestão, e tão ruins quanto no comando do futebol, não deram respaldo ao treinador que foram buscar para arrumar a casa. Rogério Ceni perdeu a queda de braço travada com alguns jogadores quando começou o processo de renovação/transformação do time.

Saiu o ex-goleiro, para retomar o trabalho no Fortaleza, classificado para a Copa Sul-americana (será o primeiro torneio internacional do clube cearense) e chegou Abel Braga, que colecionou empates e não conseguiu tirar o time do atoleiro.

Quando Adílson Batista, vice-campeão da Libertadores pelo Cruzeiro dez anos antes, reapareceu na Toca da Raposa, o caos já estava instaurado e o rebaixamento foi consumado. Pior, em 2020 a queda de receita será drástica.

Na Série B, receberá muito menos dinheiro por direitos de transmissão de seus jogos pela televisão. Isso será somado ao caos administrativo, à enorme dívida, à elevada folha de pagamento, aos inúmeros e sérios problemas que se espalham pelo clube. O cenário é de terra arrasada e os dias que virão se anunciam tenebrosos.

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Foto: Celso Pupo/Estadão Conteúdo
Foto: Celso Pupo/Estadão Conteúdo| ESTADÃO CONTEÚDO

Enquanto cruzeirenses se desesperavam e protagonizavam cenas de violência no Mineirão, a torcida do Vasco enchia o Maracanã (67.395 torcedores lá estiveram) para um jogo que nada valia, contra a já rebaixada Chapecoense. Tudo pela oportunidade de demonstrar a sua força e o orgulho de ser vascaíno.

Três vezes rebaixado à segunda divisão, o clube tenta se reerguer a partir do apoio de sua gente. Uma bela festa depois de uma espetacular campanha para ampliar o número de sócios-torcedores, batendo a casa dos 170 mil.

O grande momento do Flamengo, campeão carioca, brasileiro e da Libertadores, estimula os vascaínos a reagir. E isso é ótimo. A fase brilhante de um time costuma servir de estímulo para rivais. É preciso fazer algo, e a torcida do Vasco vem fazendo.

Resta saber se os dirigentes terão capacidade para aproveitar tanto apoio incondicional. Os rubro-negros, por sinal, aparentemente com a cabeça no torneio Mundial de Clubes da Fifa, fizeram feio sendo goleados pelo Santos por 4 a 0. Relaxamento além do aceitável.

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O Corinthians fez quatro jogos contra o Fluminense em 2019: perdeu dois pelo Campeonato Brasileiro e empatou os dois cotejos válidos pela Copa Sul-Americana, quando se classificou pelo critério do gol marcado fora de casa.

A derrota em Itaquera na rodada derradeira do Brasileirão apenas confirmou a temporada errática do tricampeão paulista, que vai participar pelo menos da primeira fase da Libertadores no ano que vem, mas deixou muito a desejar depois de tantas contratações, mesmo com tantas dívidas, principalmente devido ao seu caro estádio.

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O Athletico poderia fechar o Brasileirão em quarto lugar, não fosse o derradeiro empate sem gols com o lanterna e, há tempos, rebaixado Avaí. Ficou um ponto apenas atrás do Grêmio, mesmo jogando várias rodadas já classificado para a Libertadores devido à conquista da Copa do Brasil, mesmo perdendo seu treinador na reta final da temporada.

Entre dezembro de 2018, quando ganhou a Copa Sul-americana, e essa rodada final da Série A, o Furacão viveu, certamente, os maiores momentos de toda a sua história.

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O Clube Atlético Mineiro será o único representante das Minas Gerais na Série A em 2020. Goiás, Paraná e Ceará, por exemplo, serão representados por dois clubes na primeira divisão no ano que vem.

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