Eram 24 minutos de partida quando o Flamengo passou a ter mais posse de bola. A primeira metade da etapa inicial não era mais controlada pelo Liverpool, como nos minutos iniciais. Aos 35 o percentual saltava de 51% para 54% e os atletas foram para o intervalo com o time brasileiro registrando a pelota nos pés por 59% do tempo.

Não, posse de bola não altera o placar, mas chama a atenção ver uma equipe brasileira com tal marca diante do campeão europeu. Um time que, por acaso, além de detentor do título da Champions League, é o “do momento” no futebol internacional. Raramente os comandados de Jürgen Klopp passam por isso contra adversários que não integram a “casta” dos times mais pesados da Europa.

Faltaram ao Flamengo alguns predicados para que pudesse derrotar o Liverpool. Primeiro, capacidade de decisão. O poderio ofensivo visto no âmbito doméstico mostrou não ser o bastante em confronto dessa magnitude. Ainda assim os rubro-negros criaram e o goleiro Alisson foi acionado. “Ah, mas Diego Alves trabalhou mais”, dirão alguns. E qual a surpresa nisso? Achavam mesmo que o Liverpool de Salah, Firmino e Mané não ameaçaria?

O time inglês tem o comando de Klopp desse 2015. E não pense que o começo foi fácil. O alemão conduziu sua equipe a duas finais já em 2016. Perdeu a decisão da Copa da Liga para o Manchester City pré-Guardiola (Manuel Pellegrini era o treinador) em fevereiro. Três meses depois, deixou escapar o troféu da Europa League para o Sevilla de Unai Emery, aquele mesmo que recentemente foi demitido pelo Arsenal.

Assim, os Reds perderem a chance de levantar uma taça menos de um ano após Klopp desembarcar na terra dos Beatles. Já 2017 foi o campeonato da classificação para a Liga dos Campeões, com o quarto lugar na Premier League, um ponto à frente do Arsenal na disputa por uma vaga. Em 2018, o passo à frente foi dado, com a volta à maior final do continente após 11 anos. Mas as falhas clamorosas de Karina, goleiro que o técnico escolheu, fez o título europeu escapar.

O Real Madrid soube aproveitar os vacilos inacreditáveis do arqueiro germânico e chegou ao tri da Champions League, forçando Klopp a buscar Alisson na Roma. O negócio de 66,8 milhões de euros (mais de R$ 360 milhões) fez do brasileiro, por algum tempo, o mais caro goleiro da história. Fato é que resultados assim forjaram o atual time, aprimorado com chegadas de novos jogadores e amadurecimento do jogo que Klopp se propõe a apresentar.

As taças que voltaram a se encaminhar para Anfield no ano que está se encerrando são resultado dessa paciente sequência de trabalho. Klopp caminha para cinco anos de Liverpool. Jorge Jesus tem cinco meses de Flamengo, e dentro da realidade brasileira, já conseguiu bem mais do que o alemão em seu começo na Inglaterra, um título nacional e outro continental.

Mas essa transformação promovida pelo português em meses é somente o começo. Ele deve seguir no Brasil e as perspectivas são de um Flamengo mais forte, com boas contratações. Duas delas já acertadas para 2020: o atacante Pedro Rocha, emprestado pelo Spartak Moscou, e o zagueiro Gustavo Henrique, cujo contrato com o Santos se encerra em janeiro - ele assinará com os rubro-negros.

Foto: Alexandre Vidal/Flamengo
Foto: Alexandre Vidal/Flamengo

Agora vamos imaginar o novo ano. O Flamengo fechou a temporada dominando e ganhou, quase que simultaneamente, os dois títulos mais importantes. Deve seguir com seu técnico e já está qualificando ainda mais o elenco. Entrará em 2020 com uma maneira de jogar definida e a priori deve deixar o Estadual em último plano. A ideia é priorizar a preparação do time para Libertadores, Copa do Brasil e campeonato brasileiro.

Ora, salvo uma surpreendente reação de rivais, a tendência é vermos o atual campeão seguindo à frente. E o jogo em Doha mostrou que essa equipe consegue, após 150 dias de treino com o português, equilibrar o cotejo com o campeão europeu em longos momentos. O que fará se continuar evoluindo e abrindo vantagem sobre demais?

Portanto, aquele que hoje comemora o fracasso do Flamengo deve fazê-lo enquanto é possível, já que a tendência é clara. Nesse ritmo o time rubro-negro deverá evoluir, subir de produção, melhorar mais e acompanhá-lo deverá se tornar tarefa muito mais difícil. Ainda mais com as opções de treinadores feitas por tradicionais adversários. Dos sem dinheiro, como o Vasco, no âmbito carioca, aos “bem de vida”, caso do Palmeiras, na visão mais abrangente, nacional e continental.

O jogo de Doha ofereceu um placar que deixou quem não é rubro-negro feliz. Mas aqueles que tiveram capacidade para enxergar o que aconteceu em campo certamente ficaram mesmo é preocupados. Motivos para isso não faltam, aliás, eles somente aumentam, crescem. Uma hegemonia pode estar a caminho e, no momento, somente trapalhadas de dirigentes, brigas de egos e afins podem ameaçar o campeão brasileiro e da América.

* Contra o Liverpool o Flamengo teve 52% de posse de bola ao final dos 120 minutos de futebol. O índice beirou os 60% e caiu quando a equipe, cansada, cedeu terreno e domínio ao oponente inglês. Mas os índices registrados no Khalifa Stadium, em Doha, foram impressionantes se confrontados com os outros sul-americanos que duelaram nos últimos anos com europeus nessa mesma competição. Confira:

2005 São Paulo 43% x 57% Liverpool
2006 Internacional 42% x 58% Barcelona
2012 Corinthians 46% x 54% Chelsea
2014 San Loreno 37% x 63% Real Madrid
2015 River Plate 36% x 64% Real Madrid
2017 Grêmio 38% x 62% Real Madrid

| Divulgação/Fifa

* A grande diferença entre os grandes times europeus e os sul-americanos não diminuiu. O Flamengo é exceção. Se fosse qualquer outro time brasileiro, seria goleado pelo Liverpool”, Tostão, em sua coluna na Folha de S. Paulo.

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