Os números de Flamengo 2 x 0 Boavista pelo YouTube, Facebook e Twitter estabeleceram um novo recorde. Houve pico superior a 2,2 milhões de pessoas acompanhando simultaneamente a peleja pela internet. Precipitadamente, há quem imagine que houve pioneirismo. Não. Atlético e Coritiba mostraram um Atletiba em 2017 apenas pela web.

Aquele clássico foi exibido de tal forma em momento no qual os dois rivais estavam sem acordo de transmissão com a Globo ou qualquer outro grupo de comunicação. No YouTube, o Atlhetico alcançou 455 mil visualizações, o Coritiba, 224 mil, enquanto no Facebook os rivais atingiram, respectivamente, 1,2 milhão e 773 mil.

União de Atthletico e Coritiba marcou o Atletiba do Youtube
União de Atthletico e Coritiba marcou o Atletiba do Youtube| Arquivo/Gazeta do Povo

Criada nos anos 1990, a tecnologia de streaming ainda não é protagonista, embora cresça cada vez mais. Seu alcance ainda é muito inferior ao da televisão, tanto aberta quanto fechada, e é numerosa a parcela de torcedores sem acesso a uma conexão boa o bastante para acompanhar jogos inteiros em vídeo.

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A tecnologia é o presente, mas sua hegemonia, se acontecer, será no futuro. Hoje, utilizar tal meio para levar o esporte às pessoas faz todo sentido e já ocorre há tempos por intermédio de aplicativos e afins. Contudo, ainda não chegamos ao momento no qual a TV será deixada de lado. Trata-se de uma transição ainda longe de ser completada.

Fosse assim, os times mais ricos do mundo, que faturam rios de dinheiro vendendo direitos de transmissão, mostrariam suas partidas em seus canais do YouTube e pelo Facebook. Mas os jogos do Real Madrid, Manchester United, Bayern Munique, Juventus e outros gigantes europeus ainda são vendidos às TVs. Nenhum desses clubes os exibe em seus canais.

O entendimento sobre o momento que vivemos é fundamental para que não se embarque numa fantasia. É justo que clubes queiram mais dinheiro de quem lhes adquire os direitos, que busquem uma fatia maior do bolo, mas há um perigo, o de achar que já estamos vivendo algo que deverá vir adiante. Contudo, dirigentes parecem não terem entendido isso.

Depois de Flamengo x Boavista, conversei com o presidente de um importante clube da Série A, empolgado com os números da transmissão e imaginando o que poderia faturar seguindo o caminho dos flamenguistas. Ele claramente desconhecia que o YouTube, por exemplo, morde belíssima fatia do dinheiro ali arrecadado. É preciso conhecimento.

Além disso, os clubes têm que assumir o elevado custo de uma transmissão. Imagine os números de partidas de baixo apelo, cenário totalmente diferente do vivido pelo time carioca nesta quarta-feira, pois estava há 109 dias sem ter uma partida exibida por televisão, web, nada. Nem sempre haverá tamanha demanda reprimida.

É preciso analisar o cenário da maneira mais abrangente e enxergar estratégias factíveis para tornar o negócio mais favorável aos clubes. E para isso, profissionalismo e conhecimento do mercado é fundamental. E não são poucos os dirigentes que desconhecem isso tido. Em geral, pegam antecipação de receitas de transmissão, gastam além do que arrecadam e depois reclamam.

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Reunião de oito clubes com o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Divulgação, Palácio do Planalto
Reunião de oito clubes com o presidente Jair Bolsonaro. Foto: Divulgação, Palácio do Planalto

Depois dos presidentes de Flamengo e Vasco, foi a vez do grupo de oito clubes que assinaram contrato com a Turner irem, em bloco, encontrar o presidente da República em Brasília, entre eles Athletico e Coritiba. O objetivo: contar com apoio de Jair Bolsonaro para que a At&T, dona da empresa que comprou os direitos de transmissão, mude de ideia.

"Foi uma reunião bastante proveitosa. De forma conjunta e unânime, manifestamos total apoio à nova MP", disse à coluna Marcelo Paz, presidente do Fortaleza. Os cartolas querem que a companhia desista da rescisão contratual, já que o número de partidas que poderá, em tese, exibir após a assinatura da Medida Provisória 984 deve chegar a 152.

Pela legislação anterior, somente os 56 confrontos entre Athletico, Bahia, Ceará, Coritiba, Fortaleza, Internacional, Palmeiras e Santos poderiam ser exibidos pela Turner. Com a MP, os mandantes passam a ter 100% do poder de decisão de seus compromissos, ou seja, esses oito poderão mostrar todos os seus 19 compromissos em casa.

"Resolvemos nos organizar e nos mexer. A MP 984 muda muito o cenário, viemos a Brasília para iniciar conversas sobre isso, não apenas com o presidente", disse à coluna Guilherme Belintani, mandatário do Bahia. "Estamos dando corpo a um movimento que deve crescer. Clubes unidos para dialogar sobre contratos, regulações, projetos de lei etc".

"O motivo principal foi discutir e pedir apoio do governo na resolução do problema dos clubes com a Turner, especialmente pelo contexto da vinda e aumento de investimentos da AT&T para o Brasil", confirmou um dos presentes à coluna, pedindo para não ter o nome publicado.

"O presidente se colocou à disposição e a Secretaria Especial de Comunicação Social vai conversar diretamente com a AT&T para resolver. O cumprimento desse contrato é bastante importante para os oito clubes", acrescentou. O dirigente disse, ainda, que o grupo fez questão de fazer chegar à multinacional. "Ela quer investir no Brasil, ele (Jair Bolsonaro) pode passar a ter interesse em resolver", completou.

Apesar da ida do grupo ter diferenças à viagem inicialmente secreta dos presidentes de Vasco e Flamengo à Brasília, em 19 de maio, os cartolas não resistiram à tentação de bajular o presidente da República. Em reunião prévia, combinaram de não levar camisas para presenteá-lo, o que daria um tom mais formal, institucional ao encontro, com objetivos claros. Apenas Belintani e o presidente do Coritiba, Samir Namur, cumpriram o combinado.

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