"A qualidade do conteúdo é mais importante do que o conteúdo", disse Mario Celso Petraglia em live no canal Hubstage do YouTube, comandada pelo advogado Marcos Motta. Difícil entender o que tentava dizer o presidente do Athetico, afinal, o bom conteúdo é o que proporciona a qualidade. Enfim...

Perguntado sobre o funcionamento da Furacão Play, o mandatário rubro-negro disse que, na negociação com a Turner, preservou para sua plataforma de streaming os jogos do time que não seriam exibidos pelos canais da multinacional americana. E daí vem a declaração que chama a atenção.

"Mas se eu não fosse campeão da Sul-americana em 2018 e da Copa do Brasil em 2019, qual é o estímulo, a motivação que o meu usuário vai ter? Se eu só for derrotado, se eu não tiver qualidade no meu conteúdo? E para ter qualidade no meu conteúdo eu preciso de receita. Por que a performance, está provado, é diretamente proporcional ao fluxo de caixa".

Faz sentido, mais dinheiro, melhores jogadores, maiores chances de vitórias. Contudo, o Athletico de Petragllia não segue tal modelo, muito longe disso. O clube costumeiramente revela talentos e busca jogadores em baixa, os recupera, utiliza e valoriza, revendendo-os com grande lucro, que não costuma ser reinvestido em "conteúdo", como entre 2019 e 2020.

E nem sempre tal receita funciona. Basta observar a distância entre o título brasileiro de 2001 e a conquista além fronteiras seguinte, a Copa Sul-americana, 17 anos depois. Campanhas fortes apenas em 2004 (2º) e 2013 (3º). Além disso, um ou outro quinto lugar e várias participações em meio de tabela na Série A.

Houve ainda o vice da Copa do Brasil 2013, mas, nota-se, o Athletico continuou arrecadando o bastante, mesmo sem tanta "qualidade no conteúdo". Tanto que nesse período desenvolveu seu excelente Centro de Treinamentos e reconstruiu, mais de uma vez, o ótimo estádio que possui, da última vez reforma em parceria com o poder público, mesmo sofrendo mais um rebaixamento, em 2011.

E a continuidade do clube, a geração de receitas se deve ao básico que alguns dirigentes que pensam no futebol apenas como um negócio jamais entenderão: o futebol é paixão. Não, o torcedor não é um mero consumidor, um usuário movido apenas por interesses momentâneos.

Não, o atleticano não virou coxa-branca em 1985. Naquele ano o Coritiba foi campeão brasileiro e os rubro-negros sequer disputaram o campeonato. Tampouco se transformou em corintiano porque o Corinthians ganhou mais uma vez o título nacional quando seu time caiu pela última vez.

No livro "Soccernomics", os autores Simon Kuper e Stefan Szymanski destacam a fidelidade do torcedor, ou de boa parte deles. Se referindo ao tradicional Leeds United em momento de crise e rebaixamento, eles destacam que o clube de Yorkshire reduziu custos sem perder competitividade quando se viu fora da Premier League, disputando um certame tecnicamente inferior.

"Imagine se outros negócios pudessem fazer o mesmo. Imagine se a Ford pudesse demitir trabalhadores especializados e contratar não especializados para produzir carros piores, se a American Airlines pudesse substituir todos os seus pilotos por pessoas não tão qualificadas para pilotar aviões (...) os consumidores não aceitariam produtos tão ruins. Diferentemente da maioria das empresas, os clubes de futebol sobrevivem a crises porque alguns de seus consumidores se mantém fiéis, sem se importar com a qualidade do produto".

Isso se deve à paixão. Se, digamos, um celular funcionar mal ou o preço não agradar, a tendência é que o consumidor, o usuário, troque por um concorrente. O torcedor jamais o fará, mesmo com seu time na segunda divisão, como o Athletico esteve pela última vez há nove anos.

É essa relação de amor que impedirá o desaparecimento do Cruzeiro, por exemplo. Em "Soccernomics", uma frase de Rogan Taylor, professor da Universidade de Liverpool e torcedor dos Reds, é definitiva: "O futebol é mais que apenas um negócio. Ninguém pede para ter suas cinzas espalhadas pelo corredor de um supermercado".

No Goodison Park não há mais espaço para as placas com nomes de torcedores.
No Goodison Park não há mais espaço para as placas com nomes de torcedores.

No Goodison Park, estádio do Everton, rival do time de Taylor, há anos não há mais espaço para as placas com nomes de torcedores que pediram para ter suas cinzas atiradas no gramado do clube de coração. E o time azul da cidade não ganha o título inglês há 33 anos.

O próprio Athletico tem seus exemplos. Em 1997, ao desmanchar seu estádio, o clube decidiu vender os "tijolinhos" da Baixada e os rubro-negros correram comprar. Mais tarde, torcedores pagaram por placas para eternizar seus nomes na nova Arena, memorial que foi, simplesmente, desmanchado depois.

Não, eles não são meros "usuários", querem vencer, mas antes de tudo, desejam pertencer a algo, a um clube, a uma torcida. Mesmo depois da morte.

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