Em 30 de janeiro, Palmeiras e Santos decidiram a Libertadores no Maracanã diante de aproximadamente 7 mil pessoas. Foi um absurdo, afinal, a vacinação contra o novo coronavírus havia começado apenas 13 dias antes e os contemplados eram equivalentes a apenas 0,9% da população brasileira, todos só com a primeira dose, naturalmente.

Em suma, provavelmente os torcedores que lá estiveram eram, todos, ou quase, não vacinados em tempos de Covid-19.

Já no dia 10 de julho, Argentina e Brasil disputaram o título da Copa América com aproximadamente 4 mil a 5 mil torcedores presentes ao mesmo estádio. Embora 40,4% da população tivesse sido vacinada até aquele momento, 14,2% com as duas doses; foi outro absurdo, afinal, a decisão de permitir público foi oficializada apenas na véspera. Faltou organização, com torcedores amontoados passando pelo portão, aglomeração descontrolada, uma bagunça.

Seis dias antes de Flamengo x Defensa y Justicia se enfrentarem, com público, em Brasília pela Copa Libertadores, o Brasil tem 43,2% da população vacinada, 15,3% com as duas doses. Ou seja, o cenário é muito diferente do registrado na data em que a edição passada do mesmo torneio foi decidida, poucos dias antes de as pessoas começarem a ser vacinadas contra a Covid-19.

Muitos acharam "lindo" o estádio em Budapeste cheio no começo da Eurocopa. Hungria e Portugal se enfrentaram no Ferenc Puskás em 15 de junho para 55.662 torcedores que praticamente o lotaram. Naquele momento 54,9% da população húngara havia sido vacinada, 43,7% com duas doses. Obviamente era razoável pensar em torcida naquela partida, mas não com casa cheia.

O modelo mais razoável foi observado no mesmo dia em Munique, onde apenas 13 mil pessoas viram a vitória da França sobre a Alemanha na Allianz Arena, que comporta 75 mil fãs. Na Hungria, a casa inadequadamente lotada servia de ferramenta para o primeiro-ministro Viktor Orbán, líder populista de extrema-direita que utiliza o futebol para obter ganhos políticos e mira as próximas eleições.

A partir das lições da Euro, pode-se chegar a formatos. Obviamente, para colocar torcedores em estádios é preciso fazer tudo direito, com respeito a protocolos de segurança e muitos cuidados, não da maneira que as pessoas foram empurradas para dentro do Maracanã na decisão da Copa América. Mas podemos, e devemos, tratar do assunto, apesar de o sábado passado ter mostrado como não fazer.

Quais os critérios para que as pessoas se qualifiquem e possam entrar no estádio? Como será feito o controle? Quais os procedimentos? Haverá pessoal capacitado para realizar a triagem/checagem de cada um que passar pelas catracas? Respeitarão o distanciamento? Como? Tudo isso deve ser discutido e apresentado à população, para que os interessados em irem aos jogos possam saber exatamente o que encontrarão.

Claro, podemos discutir se é esportivamente justo que alguns times joguem com torcedores a apoiá-los e outros não. E é necessário cobrar uma posição da CBF, já que a Conmebol apenas lavou as mãos, ou seja, autorizou jogos com torcida e deixou que cada participante de suas competições decida com as autoridades locais.

Evidentemente vários temas conectados à presença de público devem ser discutidos. Mas, atenção, esse é o ponto: o assunto tem que ser, sim, abordado. Não basta repetirem "não" como se fosse um tabu. Afinal de contas, um dia o público terá de reaparecer nos estádios.

Os cinemas estão funcionando, com restrições, mas recebendo as pessoas. Casas de espetáculos já reabriram, com limitação de público, mas novamente em operação. O mesmo ocorre com shoppings, restaurantes, etc. Por que o futebol não pode contar com alguns torcedores, elevando a quantidade pouco a pouco, de maneira criteriosa e organizada, como já ocorre em outros países? Afinal, a vacinação avança, embora não na velocidade que desejávamos.

Confira a classificação do Brasileirão

É curioso observar situações como, por exemplo, emissoras de televisão que mal utilizam seus estúdios por causa da pandemia, mas em jogos importantes ou nas Olimpíadas, que vêm aí, levam dezenas de profissionais para os locais dos eventos. Eles saem de suas residências, pegam avião, ficam em hotel, passam horas no estádio, isso durante dias...

Por que não fazer mais transmissões remotas, como acontece há quase um ano e meio? Claro, a relevância do evento cria a exceção e o #ficaemcasa vai para o ralo. É, o negócio fala mais alto. Então qual o motivo para dizer apenas "não" à volta do público sem qualquer reflexão?

Mas não é só na Hungria que a volta do torcedor à arquibancada tem um viés político. Estádios vazios ganharam um simbolismo e defender esse cenário se transformou questão de honra para uma ala, enquanto outra é capaz de forçar a barra para enchê-los, como fez Orban, tentando mostrar bizarra naturalidade em momento pandêmico. Radicalismos.

Apesar disso, apesar deles (todos), com critério e razoabilidade, o tema pode, e deve, ser, no mínimo, debatido.

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