A história já escrita, por mais bela que seja, não perdoa erros presentes. No futebol, é a lei. Embora tenha às vezes o poder de apagar o passado, não deixa de ser lei. Na selva, não existe nada igual.

O ex-craque argentino Jorge Valdano escreveu certa vez, no El País, que “o contrato de um jogador de futebol tem duas assinaturas: uma no papel, paga com dinheiro; a outra com torcedores, paga com o sentimento de pertencimento. A primeira permite negociações e cláusulas; a segunda é atividade pela lealdade e pelas emoções”. 

Deveria ser cláusula pétrea nos estatutos do Athletico de que não houve e jamais haverá na história um goleiro Caju. Tendo o infinito como distância, poderia vir o saudoso Flávio “Pantera”, e Santos.  

As defesas de Flávio contra o São Paulo, Fluminense e São Caetano, na Baixada, foram tão importantes como os 8 gols de Alex Mineiro nas finais do Brasileirão de 2001, na conquista do maior título da história do Athletico, o Brasileiro.

Santos, apesar de mortal, fez milagres para o Furacão ganhar os títulos da Sul Americana, em 2018, e da Copa do Brasil, em 2019.  Sem as suas defesas, não haveria nenhum desses títulos.

Em 2022, Santos foi embora para o Flamengo para ele e o Athletico ganharem dinheiro. Nada mais justo. Desprezado na Gávea, foi para o Fortaleza, onde foi ignorado.  

Santos falhou mais uma vez no Furacão, desta vez contra o Flu. Foto: Heuler Andrey/DiaEsportivo/Alamy Live News/IconSport

Foi no Furacão que procurou um refúgio para receber consolo, retardar o final e encerrar a sua carreira no clube de coração. Santos não deveria ter voltado.

Mas, o Athletico deu-lhe o refúgio. Nem tanto por associação ao passado, mas por não confiar mais no jovem Mycael, em razão de que as suas falhas foram um dos motivos que resultam no rebaixamento em 2024. Quem não lembra do seu erro na saída da meta que implicou no segundo gol do Bragantino na derrota (2×1) que na prática rebaixou o clube? 

O Athletico não deveria ter Santos de volta. Como não deveria ter recorrido a Kleberson, Alex Mineiro, Jadson e Fernandinho. Essa história de acolher ex-ídolos para o final de carreira nunca deu certo na Baixada. 

Agora os atleticanos jogam pedras em Santos. Pelas falhas que eliminaram o Furacão da Copa do Brasil, com a goleada para o Vitória, por 4 a 1; e pelas duas falhas, contra o Fluminense, nesse domingo na Baixada, no empate por 3 a 3

No gol de falta de Hulk, porque foi com a “mão mole” para a bola; no gol de Canobbio, porque postou-se como um amador, sem saber o que fazer diante do atacante e da bola. Acabou jogando-a contra a sua própria meta.

As falhas nesse jogo foram mais relevantes, porque os 32 mil atleticanos, na Baixada, estavam orgulhosos pelo jogo que o Furacão fazia, submetendo o Fluminense ao seu domínio. Não há nada mais dolorido do que o orgulho ferido para o atleticano.

E, agora, responda duas perguntas: onde fica Santos na história do Athletico? E o que o Furacão fará com Santos? Amanhã respondo a segunda.

Augusto Mafuz – leia o perfil completo

Há mais de quatro décadas, o jornalista Augusto Mafuz interpreta como poucos a alma do povo atleticano em crônicas diárias movidas por loucura, conflito e emoção. A frase de um velho dito entre torcedores resume sua importância: quando estourava uma crise no Athletico, a saída era “ler o Mafuz para saber o que a gente está pensando sobre isso”.

Mafuz Antonio Abrão nasceu em Guarapuava, em 11 de maio de 1949, três dias antes da primeira das 11 vitórias consecutivas do Furacão. Chegou a Curitiba aos 17 anos e bateu à porta da Rádio Guairacá. Em 1968, iniciou como repórter de campo e, dois anos depois, escreveu textos históricos sobre o título do Athletico na Tribuna do Paraná, onde é colunista desde 1977.

Polêmico vocacional e bem-informado dos bastidores do futebol, Mafuz esconde, sob a pena perfurocortante, um homem doce e generoso. Amigo de infância de Carneiro Neto, segue em atividade no podcast Carneiro & Mafuz, provando que sua crônica continua em pé de guerra. Clique aqui e leia todas as colunas de Augusto Mafuz.

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