Nas torcidas organizadas não há anjos. O mais puro, mais cedo ou mais tarde, terá relevado todos os seus instintos. Então, ele próprio vai concluindo que torcer pelo clube de coração é apenas um disfarce.

Mas, na polícia não há santos ou santas. O policial, desde o dia que chega ao quartel, tem as suas virtudes neutralizadas por lições tribais. E, daí, dentro dessa escola fundamentalista que ignora o respeito humano, sente-se autorizado a bater, ferir e matar sob o pretexto de dar segurança à sociedade.

Quando há um choque entre esses dois segmentos, os efeitos são explosivos. A morte, que deveria ser uma exceção, se não é regra, não está campo do improvável.

Em 15 de abril de 1989, no jogo entre Liverpool e Nottingham Forrest, pela Copa da Inglaterra, morreram 96 torcedores. No jogo de culpa pela tragédia, ficou célebre a conclusão imediata da imortal Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra:

“Não precisa investigar. Os bandidos foram os policiais e não os torcedores”

Margaret Thatcher

Trinta anos depois, a polícia reconheceu a sua culpa.

O caso da morte de Mauro Urbim, o Maurinho, presidente da organizada “Fúria Independente”, é um exemplo de que a sociedade já não pode contar com o Estado como um agente de sua proteção.

Se houve algum movimento excessivo de torcedores, o que não ocorreu, é irrelevante. Se ocorreu, ainda assim o policial tinha obrigação de intervir com o mínimo de prudência.

Ao projetar o seu cavalo sobre o torcedor caído, o policial assumiu todo o risco de causar a morte. Pela lição que recebe nos quarteis de agir independente das consequências, é possível afirmar que existia o mínimo de consciência do que poderia vir dessa ação homicida.

Ocorre que o policial estava a serviço. E, nesse caso, a competência para julgá-lo é da Justiça Militar. Com um “código próprio”, em razão da interpretação corporativista que dá às leis, é possível que os julgadores militares acabem denunciando e condenando o cavalo como o assassino de Maurinho.

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