O insubstituível sempre foi e continua sendo um tabu no Athletico. Estamos em 1970. Despedaçado, o Furacão é um incômodo.  Então, em segredo, o governador Paulo Pimentel convence o médico e coronel do exército, Rubens Passerino Moura, a assumir a presidência. Com Passerino, o Athletico é campeão estadual, joga o Robertão e paga as dívidas. 

Durante esse período, a turma da Boca Maldita, por “ter saudades dos tempos de Jofre”, só critica Passerino. Campeão, o Coronel desabafa: “No Atlético, o insubstituível nasceu morto”. Agora, 56 anos depois, estamos em 2026.

Na Baixada, o Athletico vai jogar contra o Bahia o seu jogo mais importante até aqui no Brasileirão. E, precisando vencer, joga contra o seu único “insubstituível”: o colombiano Kevin Viveros, artilheiro do campeonato com 18 gols, ídolo da torcida, atração exótica do futebol brasileiro. 

O substituto é Vargas, um Viveros ao avesso. Ao invés de corpulento e forte, tem um corpo fino, movimentos leves e tem a capacidade de correr em velocidade com a bola, raciocinar e olhar ao mesmo tempo. Um Rudolf Nureyev negro dançando na Baixada.

Em um Athletico de jogo precioso, eis Vargas, pela direita, recebendo de Mendoza, antevendo a chegada de Esquivel e lançando-o. Esquivel, um golaço, Athletico 1×0.

Vargas e Mendoza comemoram contra o Bahia. Foto: Jow Baker/Fotoarena/Sipa USA/IconSport

Ah! Se não fosse o jovem goleiro Mycael. Calculando mal o tempo de bola, largou-a nos pés de Erick Pulga. Bahia 1×1. Mas, daí, o Athletico mostrou que o insubstituível nesses tempos está fora de campo: o treinador Odair Hellmann. 

Consciente de que, por ser mortal é às vezes um errante, trocou as firulas de Leozinho pelo prático, objetivo e talentoso Dudu no meio-campo. E também com o colombiano Rivaldo no ataque. A consequência foi o segundo gol. Uma bola lançada para a esquerda foi ter com Vargas que, correndo com elegância, viu Rivaldo na área e cruzou. Athletico, 2×1, Rivaldo!

Mas nada na vida do Furacão é fácil, mesmo superando o “insubstituível”. Ah! Se não fosse o goleiro Mycael. No último minuto, defendeu a última bola, no pênalti cobrado por Everaldo. Final, Athletico 2 x 1 Bahia. Esse é o Furacão, em que o “insubstituível” é o treinador e, em uma única bola, faz do vilão, Mycael, um herói.

Augusto Mafuz – leia o perfil completo

Há mais de quatro décadas, o jornalista Augusto Mafuz interpreta como poucos a alma do povo atleticano em crônicas diárias movidas por loucura, conflito e emoção. A frase de um velho dito entre torcedores resume sua importância: quando estourava uma crise no Athletico, a saída era “ler o Mafuz para saber o que a gente está pensando sobre isso”.

Mafuz Antonio Abrão nasceu em Guarapuava, em 11 de maio de 1949, três dias antes da primeira das 11 vitórias consecutivas do Furacão. Chegou a Curitiba aos 17 anos e bateu à porta da Rádio Guairacá. Em 1968, iniciou como repórter de campo e, dois anos depois, escreveu textos históricos sobre o título do Athletico na Tribuna do Paraná, onde é colunista desde 1977.

Polêmico vocacional e bem-informado dos bastidores do futebol, Mafuz esconde, sob a pena perfurocortante, um homem doce e generoso. Amigo de infância de Carneiro Neto, segue em atividade no podcast Carneiro & Mafuz, provando que sua crônica continua em pé de guerra. Clique aqui e leia todas as colunas de Augusto Mafuz.

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