Reprodução/ Orkut
João Henrique voltava do Couto para a Arena quando foi atropelado na esquina da Westphalen com a Engenheiros Rebouças.

Já tenho quase dez anos de trabalho jornalístico ininterrupto. Não é muita coisa, mas dá para chamar de carreira. Cobri muita coisa nesse período, como repórter ou editor. Quase sempre no esporte. Título brasileiro, título estadual, rebaixamento, fracasso e sucesso em Libertadores, medalhas e decepções olímpicas, dia a dia massacrante, matérias palpitantes de última hora. Notícias boas, notícias ruins. Mas nada que supere o que aconteceu hoje.

Certamente este 26 de outubro de 2009 foi o dia mais triste dessa carreira. O dia em que tive de adequar uma edição já pesada, voltada para distúrbios pós-Atletiba, à cobertura da morte de um torcedor. Algo que, por mais que os fatos indicassem a probabilidade crescente, nunca acreditei que fosse acontecer.

Não conhecia o João Henrique Vianna. O que soube dele foi em decorrência da tragédia. Universitário, jovem, classe média, gostava de futebol, sempre estava no estádio acompanhando seu time de coração, era sócio-torcedor. Retrato bem acabado do torcedor-comum, que a gente tanto cita como alguém que estava sendo afastado dos estádios pela imbecilidade que tomou conta do futebol.

Foi essa imbecilidade que matou João Henrique. Todo esse clima de violência, de achar que rival é inimigo, que é moral dizer que pega, bate e arrebenta o torcedor adversário. Aí está o resultado desta cretinice, algo que está acima de preferência clubística e que não se justifica por qualquer provocação ou atitude que tenha ocorrido ali, no cruzamento da Westphalen com a Engenheiros Rebouças.

Agora, todo mundo vai olhar com atenção para um problema a que muita gente tem chamado a atenção há muito tempo. Será preciso essa morte para que torcedores pensem na sua atitude e as autoridades tomem alguma providência.

A saída, claro, será a mais cômoda e populista possível. Já se fala em clássico de torcida única no ano que vem, clubes e organizadas posicionam-se a favor. Como se isso fosse impedir os torcedores de se reunir em bares para ver o jogo ou garantir que as gangues disfarçadas de comando não vão para o terminal fazer tocaia para o adversário. A coisa só vai mudar se os torcedores voltarem a ver o futebol como o que ele é, um simples jogo, e se as autoridades passarem a tratar a questão de torcida (organizada ou não) como o que ela se tornou, um grave problema de segurança pública, que precisa de repressão e punição exemplares.

Mas não, vão botar uma torcida só no Atletiba. Vira capa de jornal, notícia nacional, dá ibope. Vão terminar de matar o pouco que sobrou de graça no nosso judiado futebol. A médio prazo, o encanto por um Coritiba x Corinthians ou um Atlético x Flamengo será maior do que por um Atletiba, que se tornará algo tão ordinário quando um jogo contra time pequeno do interior.

A dor da família do João Henrique é irreparável e inconsolável. Mas para quem está de fora, além da solidariedade com a dor alheia, fica a certeza de que o nosso futebol também morreu um pouco ali na esquina da Westphalen com a Rebouças.

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E como fica nessa história o prefeito Beto Richa, que outro dia posou para foto fazendo gesto de torcida organizada? Um torcedor morreu, 28 ônibus foram depredados, gente ficou ferida, a população está assustada. Definitivamente, queimou o filme – ou, para se adequar à tecnologia vigente, formatou o cartão.

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