… Henrique Dias não faz aquele gol no Atletiba da Arena? Sei lá. Danilo esquece que é Danilo e chega arrepiando. Vinícius demonstra a segurança que muitos juravam que ele tinha e agarra a bola. Henrique Dias lembra que é Henrique Dias e erra o cabeceio. Enfim, algo acontece, a bola não entra. O Atlético faz mais um, nos 90, ou na prorrogação, e é campeão.

A hipótese foi levantada por um amigo, que ouviu de outro amigo e, confesso, tem martelado na minha cabeça neste momento em que o Coxa está lá em cima e o Atlético, lá embaixo.

O autor original da tese – atleticano, como logo vocês vão perceber – aposta que, se o Atlético fosse campeão, tudo hoje seria exatamente ao contrário. O Atlético sonharia com a Libertadores; o Coxa perderia o sono com o risco de rebaixamento.

Na teoria do gol não marcado, Dorival Júnior não suportaria a pressão por perder o único título acessível ao Coritiba em 2008. A série de contusões que remendou o time alviverde durante parte do primeiro turno seria o passo final para a desgraça completa do treinador.

Talvez nem mesmo a vitória da estréia sobre o Palmeiras existisse. A empolgação pela volta à elite seria ofuscada pela perda doméstica. Sem as condições únicas daquele Dia das Mães – time embalado, torcida empolgada, técnico confiante –, o Coxa possivelmente não seria páreo para um dos favoritos ao título. E ainda assim, perderia Keirrison.

Sem o K9, entraria em um ciclo terrível de tropeços e mau futebol que, claro, derrubariam Dorival Júnior. Talvez a diretoria o trocasse por um emergente mais enérgico, tipo Roberto Fernandes; depois por um alquimista, como Mário Sérgio; e por fim, já nas cordas, recorreria a alguém identificado ao clube, um René Simões, que logo perceberia a inutilidade das suas armas no cenário atual. E ainda haveria a janela de transferências, por onde Keirrison e Paraíba pulariam para algum time obscuro do cu do mundo.

E, acreditem, até haveria quem soltasse um Volta Gionédis no estádio. Ah, e o Moro, que colocou o Marcelo Ramos na final do Paranaense, teria sérios problemas para freqüentar o Couto.

Na Água Verde, por outro lado, o ano seria pródigo. Campeão estadual e com o recorde histórico de vitórias, o time se sentiria um autêntico furacão. Nem a arisca diretoria de um homem só ousaria contestar a eficiência de Ney Franco, que atravessaria todo o ano no comando do clube, dispensando propostas do Brasil e do exterior.

Sem troca de treinador ou preparador físico, não haveria a súbita “epidemia” de lesões musculares. Sólido, o trio defensivo Rhodolfo, Danilo e Antônio Carlos já ameaçaria as expressivas marcas dos campeões nacionais Nem, Gustavo e Rogério Correa.

Pedro Oldoni finalmente se revelaria um matador confiável – o maior do Brasil, brigando com os ex-ídolos Alex Mineiro e Kléber Pereira –, formando um dupla infernal com o trintão Marcelo Ramos, o herói do título estadual. Os pênaltis com paradona de Alan Bahia fechariam o Jornal Nacional. Ferreira voltaria e se encaixaria como uma luva em um time bem melhor que aquele que ele deixou em fevereiro. O mesmo aconteceria com o experiente Fernando, o abusado Márcio Azevedo, o ídolo Kelly.

Maculan seria incensado como o grande dirigente do futebol paranaense, o CT da Caju voltaria a ser referência na formação de atletas e Edinho não brigaria com os jogadores simplesmente porque não haveria a necessidade de existir um Edinho nesse Atlético.

Para os atleticanos, claro, seria justo se o descrito acima estivesse acontecendo. Para os coxas, mais lógico ainda, justa é a realidade. E é com os verdes que eu vou concordar.

Se Danilo e Vinícius falharam na final do Paranaense é porque havia alguém incapaz de enxergar a limitação da dupla, um belo exemplo da cegueira coletiva que tomou conta do Atlético neste ano.

Afetou até o sensato Ney Franco, que não conseguiu fazer seus jogadores perceberem que o Furacão de 49 entrou para a história por ser campeão com um futebol exuberante e um recorde de vitórias seguidas. Não apenas por um recorde construído contra sacos de pancada.

Afetou principalmente a diretoria, incompetente na sua principal finalidade: montar um bom time de futebol; ingênua ao ponto de cair na lábia de vários Edinhos, especialistas em criar confusão e indicar bondes; lenta na detecção e solução de problemas, como o arrombamento físico a que o elenco foi submetido; e insana ao achar que gente como Fernando, Joãozinho e Rafael Moura, desagregadores natos, poderiam ser solução para alguém. Enfim, alguma hora a granada sem pino em que se transformou o futebol atleticano ia explodir.

No Alto da Glória, a campanha atual é fruto de um trabalho bem feito e surpreendente. Eu não acreditava na capacidade do Cirino e sua trupe em conduzir o futebol do Coritiba. Apesar de a ambição ter sido pouca – um time pouca coisa melhor poderia ter vencido ao Copa do Brasil ou brigaria de fato pela vaga na Libertadores –, os erros são maiores que os acertos.

Dorival Júnior é um construtor de bons times. Teve tempo para colocar o Coritiba em pé e só ganhou o título paranaense (no pau da goiaba) por que mereceu. Manter Keirrison foi um acerto — já que não havia como concertar a má negociação dos direitos federativos dele, que pelo menos ele dê lucro com seus gols; as contratações foram bem feitas (vide Paraíba, Maurício, João Henrique e Ariel); e até no marketing, onde o Atlético costumava nadar sozinho, o Coxa já começa a por o rival no bolso.

Quanto ao Henrique Dias, o cara que perde gols em treinamento sem goleiro e aparece sempre na hora decisiva… Bem, esse é iluminado mesmo. Não há teoria que fique de pé com gente assim.

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