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André Pugliesi
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Análise

Por que Petraglia desmancha os times campeões do Athletico

Por
André Pugliesi
27/01/2020 17:05 - Atualizado: 29/09/2023 23:15
Por que Petraglia desmancha os times campeões do Athletico
| Foto: Arquivo/Gazeta do Povo

Janeiro de 2002. Campeão brasileiro pela primeira vez em 77 anos de história, o Athletico, então Atlético, encarava, também como um novato, a "parte ruim" de ter subido ao pódio como melhor time do Brasil no ano anterior.

De volta das férias, os jogadores – menos Kléber, que voltaria mais tarde por causa de alguma intercorrência familiar –, todos valorizados pelo caneco, vieram ávidos por aumentos vultosos de salário e/ou assediados pelo mercado.

E aí, uma guerra derreteu os bastidores da Baixada. Conflito que provocaria marcas inextinguíveis na trajetória do Furacão. De um lado, pares da diretoria rubro-negra na ocasião. Do outro, Mario Celso Petraglia.

Uma corrente avaliava como razoáveis os pedidos dos atletas e agia para atender aos desejos por mais dinheiro. Petraglia, no entanto, via com desconfiança a escalada dos vencimentos dos atletas.

Um defensor daquela equipe estrelada, aliás, recebeu proposta curiosa do dirigente. Ansioso por um salário de medalhão, ouviu oferta para ganhar menos numa eventual renovação. O argumento: já havia atingido o auge da carreira e, dali em diante, era ladeira abaixo.

O fato é que a valorização veio, os principais valores ficaram, assim como o técnico Geninho. E 2002 foi um fracasso absoluto para o Athletico, eliminado na primeira fase da Libertadores, com direito a papelão na Bolívia, num empate por 5 a 5 quando vencia por 5 a 1.

E a discórdia financeira acabou como pivô da saída posterior de Petraglia do Furacão.

Mais tarde, não muito mais, Petraglia articulou campanha para retornar ao poder, com o "Volta, Petraglia", e, desde então, três pessoas mandam no Rubro-Negro, para o bem e para o mal: o Mario, o Celso e o Petraglia.

A breve, talvez nem tanto, introdução histórica, mostra os motivos para que, sempre que um conjunto atleticano vinga – ou até "bate campeão", no linguajar da boleirada – o desmanche vem como epílogo fatal. Foi assim em 2004 e 2013. Está sendo em 2020.

Petraglia entende que todo time vencedor alcançou o limite. E, inevitavelmente, vai "virar o fio", para usar novamente o jargão do futebol. Para aquele grupo, não há mais o que conquistar, seja qual for a competição. Manter um time sai caro e sem garantia de repetição do sucesso.

Há, entretanto, outra justificativa, igualmente poderosa. Com as faixas e medalhas no peito, os atletas atingem cotação máxima no mercado. Alguns jamais vão experimentar tamanha valorização outra vez. Logo, é hora de faturar alto, para o delírio de clubes e empresários parceiros.

É o perfil do Furacão, delineado por décadas de Petraglismo: um clube vitrine, ou de engorda, como queiram. Que forma, mas, especialmente, lapida e revende joias em potencial. Renan Lodi, desmamado no Trieste, e Bruno Guimarães, cria do Audax, são só os últimos exemplos.

É a lógica principal que move a máquina atleticana. Mais do que títulos, que dependem de uma ótima "safra", combinada com jogadores malacos e, como para qualquer clube, um empurrão do destino, o Rubro-Negro se notabiliza por ser uma poderosa estrutura de fabricar dinheiro. Não é pouco.

Diferentemente do Grêmio, por exemplo, batido inapelavelmente pelo Athletico na Copa do Brasil. Clube consolidado, o Tricolor gaúcho administra o caixa para enfileirar taças. É o que move os gremistas e se o zagueirão erguer a Libertadores vertendo sangue pela testa, melhor.

Assim, o Grêmio barrou excelentes e diversas propostas por Luan, artífice da tomada da América em 2017. E viu o atacante perder mercado e se mandar para um rival local, o Corinthians, por 5 milhões de euros. Um prejuízo que o clube sofre e lamenta, evidentemente. Mas absorve.

O Athletico, repito, opera em outra frequência. E dobra a aposta quando emplaca uma mega negociação como a de Bruno Guimarães com o Lyon, que pode superar os R$ 100 milhões, mesmo as divisões eventuais entre parceiros do negócio.

Com o cofre cheio, a ideia não muda, não aponta para gastar mais e fortalecer a equipe. Ao contrário. O sucesso de uma transação corrobora a regra e o desafio passa a ser, então, faturar ainda mais, gastando ainda menos. E impulsionar a roda da "saúde financeira" e lucratividade.

Está no DNA de Petraglia como negociador e empresário. E no projeto do cartola para o clube, ainda periférico no cenário nacional. Como já declarou uma série de vezes, o dirigente quer que o Furacão seja a "noiva", palavras dele, mais bonita, para conquistar um "príncipe".

É a sina do atual campeão da Copa do Brasil, já sem seus principais nomes da recente conquista – tais como Marco Ruben, Bruno Guimarães, Rony etc. À espera de um investidor estrangeiro, com a abertura para a transformação dos clubes em S/A no Brasil.

Títulos? Podem vir, como já vieram, com 17 anos de distância. Já uma mudança, definitiva, de patamar, vai depender. De certo, que o Furacão seguirá, firme, como uma bem azeitada engrenagem de montar e desmontar times e, cada vez mais, turbinar balanços com vendas de atletas.

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