A Netflix estreou "Untold", série de documentários esportivos produzida pelo mesmo time responsável pela ótima "Wild Wild Country". Dividida em cinco filmes de cerca de 80 minutos cada, "Untold" foca em histórias sobre esportistas polêmicos ou com histórias pessoais marcantes.

Vi o primeiro episódio, "Briga na NBA", e gostei. O episódio conta a história de uma famosa briga entre os times de basquete do Detroit Pistons e do Indiana Pacers, ocorrida em novembro de 2004 em Detroit.

O episódio foca em três jogadores do Pacers que participaram do conflito: Ron Artest, Jermaine O’Neal e Stephen Jackson. Um quarto jogador, o craque Reggie Miller, é entrevistado longamente, mas estava contundido e só assistiu à briga do banco de reservas, embora tenha entrado na quadra, de terno, para tentar separar os jogadores.

Não vou contar muitos detalhes da história para não estragar a surpresa, mas fica evidente por esse primeiro episódio e pelos temas dos seguintes, que o foco da série são os demônios pessoais de atletas, seus medos, complexos e batalhas.

"Briga na NBA" sofre de uma característica um tanto irritante, mas que tem marcado boa parte dos documentários contemporâneos: uma obsessão em usar artifícios de ficção para tornar a série menos "jornalística" e mais parecida com um "reality show".  E tome cenários estilizados, fotografia e edição de comercial de TV, uso de câmera lenta e reencenações (quando alguém fala de sua infância pobre, a câmera passeia por um bairro decrépito ou por uma quadra de basquete suja e abandonada).

Outra marca dessas novas séries é o desleixo com a informação, ou mesmo a omissão de informações importantes para realçar o drama. Em "Briga na NBA", por exemplo, o jogo em que ocorre o conflito entre Pistons e Pacers aconteceu logo no início da temporada, não era uma partida decisiva de playoffs (os times haviam decidido a Conferência do Leste da NBA na temporada anterior), mas esse fato não é mencionado, o que dá a errônea impressão de tratar-se de um jogo muito importante. Tudo pelo drama.

Vendo a série, fiquei pensando em como um projeto desses dificilmente vingaria no Brasil, apesar da imensa quantidade de grandes histórias esportivas que temos no país. Imagine que legal seria um documentário sobre Almir “Pernambuquinho”, o explosivo e temperamental atacante de Vasco, Santos, Boca e Flamengo? Ou sobre João do Pulo? Maria Esther Bueno? Maguila?

Infelizmente, a chance de filmes como esses saírem é mínima, e por duas razões básicas: em primeiro lugar, pela dificuldade de conseguir material de arquivo, Em segundo lugar, pelas barreiras comumente impostas por familiares e herdeiros. Quem trabalha com documentários sabe que esses são os dois maiores empecilhos ao trabalho jornalístico.

Com isso, perdemos chances de conhecer mais sobre nossos ídolos e personalidades. É uma pena.

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