Há dez dias, Nico Hernández saía do gramado do Estádio Centenário exibindo, orgulhoso, a bandeira da Colômbia. Emocionado, experimentava o sabor de ser campeão da Sul-Americana, pouco mais de três meses após ter sido anunciado pelo Athletico. No entardecer de Montevidéu, caminhava devagar, exalando alegria e gratidão pela conquista. Mas enquanto deixava as lágrimas rolarem, certamente o zagueiro carregava saudade em seu peito.

Saudades de Daniela, sua irmã mais velha que faleceu em um acidente de trânsito em 2014. Em 2019, o zagueiro foi emprestado pelo Atlético Nacional ao Santa Fe, clube do coração de Daniela. Certo dia, Nico havia feito uma promessa à irmã, que um dia jogaria no time de Bogotá. E cumpriu.

"Era uma promessa que eu tinha com ela. Minha irmã faleceu, e era torcedora do Santa Fe. Quando apareceu a oportunidade de vir jogar, era um sinal para não perder. E pude cumprir a promessa que fiz à minha irmã", disse em entrevista ao site Futebol Red, em 2019.

“Lembro dela grudada na televisão assistindo ao Santa Fe ganhar títulos. Eu comemorava junto com ela, como eu também fosse um torcedor", disse em entrevista ao jornal El Espectador, também em 2019.

Postagens antigas de Nico, sobre a irmã Daniela, que faleceu, e na saída do Santa Fe, citando a promessa cumprida
Postagens antigas de Nico, sobre a irmã Daniela, que faleceu, e na saída do Santa Fe, citando a promessa cumprida

Quando chegou a Santa Fe, em 2019, a equipe estava em uma crise esportiva e econômica, e era o último na classificação. Com Nico, o time se recuperou e o zagueiro teve boas atuações, apesar da pressão, como conta o jornalista Theo González Castaño, da ESPN da Colômbia, que acompanha todos os passos do jogador desde seu início da carreira

“Nico deixou boa impressão, com segurança no jogo aéreo, rapidez, ganhava nos duelos e muito bem taticamente”, disse ao UmDois Esportes.

A passagem de Nico durou somente uma temporada no Santa Fe, com 21 jogos disputados em 2019. Com o início da pandemia, retornou ao Atlético Nacional no ano seguinte e praticamente não jogou. Ainda assim, neste período, ele foi sondado pelo Vasco, em 2020.

Foi no segundo semestre de 2021 que o cenário começou a mudar. Apareceu uma proposta para defender o Al-Jazira, dos Emirados Árabes. Nico estava preparado para viajar quando surgiu o Athletico, por indicação de Paulo Autuori, com quem havia trabalhado no Atlético Nacional. Não pensou duas vezes. Priorizou o modelo de jogo competitivo do Brasil e chegou sem custos, anunciado pelo Furacão com contrato em definitivo até o dia 4 de agosto de 2022.

Nico Hernández em ação pelo Athletico, com a bandeira da Colômbia e o troféu de campeão da Sul-Americana
Nico Hernández em ação pelo Athletico, com a bandeira da Colômbia e o troféu de campeão da Sul-Americana| Divulgação/Athletico e Conmebol

Chegada ao Athletico

Nico se adaptou rápido ao time rubro-negro, e passou a ser titular no esquema com três zagueiros, ao lado de Thiago Heleno e Pedro Henrique. Canhoto, seguro e com saída de bola apurada, encontrou seu lugar no clube, ganhou espaço e foi conquistando a confiança dos torcedores.

Theo González Castaño diz que não se surpreende pelo bom encaixe no Athletico.

“Nicolás voltou ao nível que já exibia no Nacional e Santa Fe agora no Athletico, como um zagueiro rápido e confiante de duas temporadas atrás. Ele tinha perdido a confiança no Nacional logo depois que voltou do Santa Fe, e agora tem o apoio de Alberto Valentim e dos torcedores. É o tipo de jogador que responde em momentos decisivos. Que esse nível e regularidade se mantenham por muito tempo, porque ele tem condições”, avalia o jornalista.

Em especial, na semifinal contra o Flamengo, pela Copa do Brasil, Nico levou os atleticanos “ao delírio” quando fez valer o sangue latino e encarnou o “estilo catimbeiro”, anulando Gabigol e Bruno Henrique nos dois confrontos.

Para Sicupira, o respeito

O colombiano nascido em Villavicencio, a 89 quilômetros ao sul da capital Bogotá, ganhou de vez o prestígio dos atleticanos no início do mês. No dia 8, ele esteve presente no velório de Sicupira.

Mostrando respeito e solidariedade, Nico fez questão de comparecer no adeus ao maior ídolo da história do Furacão. Acompanhado pelo gestor Paulo Miranda, o zagueiro foi o único jogador do atual elenco que marcou presença na despedida ao Craque da 8.

“Sei o sentimento que as pessoas têm por ele e a história que ele fez. Creio que seria muito bom seguir um legado como ele deixou e poder fazer uma grande história aqui no clube”, disse na ocasião em entrevista à TV CAP.

O jornalista colombiano também falou mais sobre o lado pessoal do zagueiro.

“Ele é muito humano, e isso se viu no velório do Sicupira, uma lenda do clube. Nesses casos a gente vê que o futebol vai além do campo”

Theo González Castaño, jornalista da ESPN Colômbia

Nos próximos dias, Nico terá a chance de colocar mais uma medalha dourada no peito, na disputa do título da Copa do Brasil contra o Atlético-MG. Se mais uma taça estará em seu caminho, ainda não se sabe, mas certamente terá a torcida dos milhares de rubro-negros - e em memória de Daniela.

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