O ano de 2005 ficou marcado na vida da torcedora do Paraná, Narayana Cardozo, 30 anos, mas não pela campanha de sétimo colocado do Tricolor no Brasileirão, nem pelos 19 gols do atacante Borges ou pelas defesas do goleiro Flávio Pantera.

Um fato trágico na saída do clássico contra o Athletico, no dia 30 de outubro, nos arredores da Arena da Baixada, fez a paranista, na época com 15 anos, perder a visão do olho esquerdo.

Na ocasião, ela e o ex-namorado Jefferson Roberto Padilha foram atingidos por balas de borracha durante um confronto entre torcedores paranistas e a Polícia Militar (PM) nos arredores do estádio rubro-negro. O tiro, disparado pelo cabo Cristiano Araújo Pedro, atingiu o olho de Narayana e a boca de Padilha. A torcedora tem vagas lembranças sobre o momento em que tudo aconteceu, mas imagens de reportagens fazem ela recordar o dia.

"O que eu lembro era de ter escutado um barulho e olhar para trás para saber o que estava acontecendo. Só lembro de ter sentido o asfalto no meu rosto. Lembro de ter caído e não saber o que estava acontecendo. Eu desacordei por alguns segundos", recorda Narayana.

"Lembro também de sentir alguém me levantando, provavelmente meu tio, que é médico, e aí todo mundo me cercando e falando o que tinha acontecido. Eu desesperada e ninguém me ajudando. Ninguém da polícia me ajudou, como em manifestações. Eu tinha só 15 anos e ninguém me ajudando. Foi absurdo", prossegue.

Narayana e Jefferson se separaram anos depois e não têm mais contato. Na época, eles se apoiaram bastante.
Narayana e Jefferson se separaram anos depois e não têm mais contato. Na época, eles se apoiaram bastante.| Foto: Arquivo/ Gazeta do Povo

O momento traz sequelas até hoje. Narayana precisa ir regularmente ao oftalmologista, usa uma lente para que o olho esquerdo fique da mesma cor que o outro e convive frequentemente com conjuntivites e ceratites. No ano passado, inclusive, desenvolveu uma herpes na córnea, que levou cinco meses para ser diagnosticada devido ao olho sensível.

Amor pelo Paraná e coletivo Gralhas da Vila ajudam na superação de trauma

O incidente não mudou o que Narayana sente ao acompanhar o Paraná. Claro que alguns traumas reacendem quando ela escuta barulhos diferentes vindos das arquibancadas ou de fora dos estádios, mas ao lado da mãe, do tio - que foi o primeiro a ajudá-la no dia do episódio - e das amigas do coletivo Gralhas da Vila, se sente segura novamente.

"Eu sou sócia até hoje e minha mãe também. Vamos com meu tio, que também estava no dia do acidente. Vamos em todos os jogos, assistimos todos. Já aconteceu de um jogo ou outro, eu escutar tiro da polícia e me dar um nervoso, um ataque de choro, mas eu gosto muito", afirma.

"Eu também faço parte do coletivo das Gralhas da Vila. A gente se apoia, contamos nossas dificuldades e a gente se ajuda quando precisa, quando tem algum problema. E, com toda dificuldade, mesmo se estivesse tendo jogo agora, eu estaria no jogo. Eu até tinha dito que não iria mais [depois do fato], mas durou dois jogos", completa.

A volta à Arena da Baixada

Na Arena da Baixada, Narayana voltou apenas uma vez: no duelo contra o Internacional, que o Paraná foi mandante. Com uma atmosfera única, o Tricolor levou 39.414 torcedores e venceu por 1 a 0, pela Série B. Naquele ano, a equipe paranista selaria o acesso à Série A ao final da competição.

Narayana no jogo entre Paraná x Internacional na Arena da Baixada
Narayana no jogo entre Paraná x Internacional na Arena da Baixada| Arquivo pessoal

Episódio de violência no clássico deixou sequelas e afetou familiares

Narayana já superou o fato, mas a realidade é que não voltará a enxergar do olho esquerdo. As semanas seguintes ao episódio foram as mais difíceis. A paranista precisou de uma cirurgia de emergência logo depois. Em novembro de 2005, realizou outra cirurgia por conta de um glaucoma. Já em 2017 e também no ano passado precisou fazer cirurgias na pálpebra, para que ela não ficasse caída. O olho esquerdo é considerado visão monocular.

"Eu ia duas, três vezes na semana no hospital porque a pressão no olho era tão alta, que tinha que enfiar uma agulha no meu olho para tirar o líquido que estava lá dentro. Eu sentia muita dor mesmo. Eu só ficava de cama, não frequentava a escola por conta da dor, mas como eu era boa aluna já estava passada de ano em outubro de 2005. Só no ano seguinte eu voltei", lembra.

Toda a situação causou muita preocupação em sua família. Todos tiveram que mudar rotinas para auxiliar a jovem nos tratamentos, cirurgias e no dia a dia. O apoio familiar foi muito importante para que ela pudesse seguir a vida.

"É difícil dizer como a minha vida seria sem isso e com isso acontecendo. Mas foi bem difícil. Atrapalhou o trabalho do meu pai, da minha mãe, eles tiveram que ficar muito tempo cuidando de mim, porque fiquei de cama. Tem várias reportagens da época mostrando como meu pai ficou. Foi bem difícil para ele. E agradeço que tive bastante estrutura para conseguir voltar a estudar. Dois anos depois, estava passando no vestibular", relembra Narayana, que hoje é engenheira civil concursada do estado.

Narayana com a família em jogo no Couto Pereira. Foto: Arquivo pessoal
Narayana com a família em jogo no Couto Pereira. Foto: Arquivo pessoal

O pai, Sérgio Cardozo, foi quem mais ficou abalado, como contou a torcedora. Nas reportagens da época, era ele quem sempre falava sobre o sofrimento enfrentado pela família. Cardozo chegou a escrever um depoimento publicado na Gazeta do Povo ainda em novembro daquele ano.

Para quem tinha um problema de miopia, mas jamais pensou que não viria a enxergar mais de um olho, Narayana viveu um drama e tem um novo olhar para realizar funções básicas. Dirigir, por exemplo, é uma atividade que ela evita fazer. O principal fator é pela falta de noção de profundidade.

"Eu tenho carteira de motorista, mas eu prefiro não dirigir, porque eu tenho muita dificuldade de profundidade. Algumas pessoas que enxergam só um olho tem dificuldades em tropeçar quando anda, esbarrar dos lados, colocar alguma bebida no copo. Cada pessoa tem uma dificuldade, mas eu tenho algumas dificuldades neste sentido. Não me adaptei com certas coisas. Tem dias mais fáceis e mais difíceis", explica.

Cabo foi absolvido do caso; Narayana e família ganharam processo

Após o incidente, o cabo Cristiano Araújo Pedro foi afastado das funções depois da abertura de um inquérito. Em 2007, a Justiça absolveu o policial militar, porque havia dúvida se ele foi realmente o autor dos disparos.

Narayana e sua família também entraram com um processo contra o Estado em 2007. Eles ganharam como danos morais, mas a ação está em fase de precatória e sem previsão para que eles recebam o pagamento devido.

Participe da conversa!
0