Depoimento de Ágatha Bednarczuk Rippel a Fernando Rudnick*

Você acredita que nunca assisti à final da Olimpíada do Rio em 2016? Nós ficamos com a medalha de prata – e a minha felicidade com o segundo lugar foi absolutamente genuína –, mas nunca vi aquele jogo inteiro. Perdemos para a dupla alemã, 2 sets a 0, e é o que eu tenho para falar sobre aquele dia.

Não sei, tenho a mania de sempre olhar pra frente. Passou. Claro que é importante aprender com os erros, só que nesse caso foi algo automático, sabe?

Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo
Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

Três dias depois da decisão em Copacabana, a Bárbara, minha parceira, me ligou. Fui à casa dela e ouvi que ela abriria a dupla. Ou seja, estava acabando com o time. Fui pega de surpresa.

A ruptura foi muito difícil. Gostava muito dela, éramos amigas. Eu super entendia que ela tinha direito de tentar fazer um time melhor com outra pessoa. Mas, pela forma como tudo aconteceu, doeu. Acho que merecíamos pelo menos fechar 2016. Afinal, passamos cinco anos juntas e faltavam só mais alguns meses. Enfim, não foi assim que as coisas aconteceram.

Aos 33 anos, seria mais um recomeço na minha trajetória. O lado bom é que eu já tinha formado uma couraça forte. Sempre precisei me reinventar. É até engraçado, mas a vida fez com que a água batesse na minha bunda inúmeras vezes. Se quisesse alguma coisa, tinha que correr atrás, desde o início.

O vôlei apareceu quando eu tinha dez anos de idade, ao bater os olhos no panfleto de uma escolinha. Dentro de casa, em Paranaguá, já era muito ativa e adorava brincar de bola com minha irmã, Pollyana. Era alta, magrela, e acabei ficando na equipe. Ia de ônibus treinar e minha mãe, Maria José, ficava morrendo de medo. Comecei a me destacar até que o time do Banestado me chamou. Aos 15 anos, fui morar em Curitiba, onde nasci.

Arquivo/Gazeta do Povo
Arquivo/Gazeta do Povo

Isso mudou quando completei 17. Já tinha na cabeça que queria ser atleta. Era meu objetivo de vida. Jogar na seleção brasileira, participar de uma Olimpíada. A seleção que foi bronze em Barcelona-1992 – com Virna, Leila, Ana Moser, Ana Paula – era minha inspiração.

Decidi ir pra São Paulo fazer testes. E o que aconteceu? Não, não, não! Tomei muitos nãos. Na minha cabeça, estava ficando baixa pra jogar na quadra. Então, pensei que seria uma boa ideia me apresentar como levantadora, mesmo sendo atacante.

Mas dar errado nunca passou pela minha cabeça. Eu sabia que me tornaria uma atleta, só não sabia como. Até que fiz um teste no Paulistano. Era março e a temporada já tinha começado. Passei, mas teria que arcar com tudo. Meus pais bancaram meu sonho.

Fui morar numa república estudantil onde já ficavam outras meninas do time. Estava amando a oportunidade. Foi quando aconteceu algo que me abalou: fui expulsa do clube. Injustamente, é preciso ressaltar.

A gente sempre andava com uns meninos do basquete. E certo dia tínhamos combinado de ir ao Parque Ibirapuera dar uma corrida. Eles subiram na república, deixaram as mochilas lá no quarto e desceram. Mas tinha uma regra de que homem não poderia entrar.

Alguém viu, avisou e por isso fui mandada embora, junto com uma amiga. Fiquei mega chateada. Poxa, não fizemos nada de errado. Não me deixaram nem entrar no clube depois pra conversar com o técnico e tentar entender melhor a situação. Me senti tão injustiçada, sabe?

Voltei pra Paranaguá em outubro. Estava com 18 anos, uma idade muito crítica. O que faria agora? Tive sorte. Minha família era meu porto seguro e nunca me pressionou. Me deixaram escolher tentar ser atleta.

Ainda tinha mais um ano de juvenil e não desistiria do vôlei, mas precisava fazer um cursinho. Nesse meio tempo, uma amiga, a Shirley, soube que eu estava na cidade e me chamou pra bater uma bolinha, “sem compromisso, na areia!

Eu fui, joguei e achei muito estranho. Areia, suor, sol, ui! Não estava acostumada, não tinha nada a ver com vôlei de quadra. Ela insistiu (obrigado, Shirley) e fomos jogar uns torneios pelo Paraná. Foz do Iguaçu, Caiobá… E não é que começamos a ganhar? Me animei, aquilo era tudo o que queria. Não tinha reserva, ia jogar pra caramba, pegar na bola toda hora – sou muito fominha! Mas sabia que precisava treinar.

Quando apareci no cenário, uma técnica carioca que morava em Curitiba, a Valéria, me chamou pra treinar na capital com outra atleta dela, a Sueli. Eu topei e comecei a correr atrás do meu primeiro patrocínio. Consegui o apoio da empresa RodoSafra, que foi importantíssimo pra mim. Era uns R$ 1.500 por mês, mas eles ajudavam pagar algumas viagens também.

Em Curitiba, eu me dividia em três. Trabalhava como secretária de manhã, treinava à tarde e fazia cursinho à noite. Foram seis meses nessa rotina cansativa.

No fim do ano, a Sueli decidiu se aposentar. Fui buscar a Cinthia, que tinha jogado comigo no Banestado. Mas logo percebi que se ficasse em Curitiba não iria evoluir. Tinha que procurar um lugar com mais estrutura pro vôlei de praia. Naquela época não existiam quadras fechadas, por exemplo.

O local mais próximo era Itapema, em Santa Catarina. Me mandei pra lá. O técnico era o Danilo Passos, que me abraçou de verdade. A família dele tinha um hotel com vários chalés. Eu morava num deles com outras aspirantes a atletas. Para ser minha parceira chamei a Bruna, que veio da Paraíba treinar comigo.

Em 2003, jogamos o circuito, mas não passávamos do qualifying. Continuamos treinando firme. No ano seguinte, os resultados começaram a aparecer. Senti o gostinho do que era ser jogadora.

Arquivo/Gazeta do Povo
Arquivo/Gazeta do Povo

No meio do ano, percebi que poderia ir além. A Andreia Teixeira, que jogava na quadra, estava morando em Santa Catarina. Formamos dupla e conquistamos nosso primeiro pódio no circuito brasileiro, em Ipatinga, Minas Gerais. Terceiro lugar!

Na virada pra 2005, a Andreia me disse que se mudaria para a Espanha com o marido. Foi aí que decidi ousar. Me candidatei para jogar com a campeã olímpica Sandra Pires. Aquela danada me cozinhou por um mês. No fim, gostou da minha atitude e aceitou. Aos 21 anos, estava me mudando para o Rio de Janeiro.

Não peguei sotaque carioca – carrego com orgulho meu jeito bem paranaense – mas foi no Rio que me tornei profissional. Entendi o que era ter uma equipe, a mídia me conheceu. Joguei o circuito mundial pela primeira vez. Imagina, minha primeira viagem foi justamente pra China, horas e horas de voo!

As coisas caminhavam bem, mas aí a Virna resolveu vir jogar na praia e convidou quem? A Sandra. Mas elas não me deixaram na mão e resolveram fazer um time B. Chamei a Shaylyn, irmã mais nova da Shelda. Jogamos por três anos, até 2008.

A sequência seria complicada. Joguei com meninas mais novas, não tive resultado e tentei virar defensora. Depois, fiz algumas etapas internacionais com a Raquel Peluci, que foi atleta de quadra, mas a nossa dupla acabou no fim de 2010, quando minha vida desmoronou.

Aliás, nessa época eu já estava namorando à distância com o Renan Rippel, que também é de Paranaguá. A gente decidiu ficar junto e ele viria pro Rio no início de 2011.

Só que o patrocínio do BB Seguro Vida Mulher acabou nessa mesma época. A Raquel decidiu jogar com outra pessoa e eu não tinha mais lugar pra treinar, nem equipe, ou parceira. E pra piorar, o dono do apartamento onde morava de aluguel, na Gávea, pediu o imóvel. E o Renan vindo!

É sobre isso que falo que criei uma couraça. Absorvi o golpe e corri atrás. Aluguei um apartamento baratinho para começarmos nossa vida. Comecei a ligar pra um monte de gente em busca de uma parceira. Sem brincadeira, ouvi mais de dez recusas. Minha pontuação tinha caído e ninguém queria jogar comigo. Quem aceitou foi a Luiza Amélia, que era de Fortaleza, mas como ela ficou por lá e treinávamos separadas, não funcionou.

Em maio de 2011, a Bárbara me convidou para formar dupla e aí começamos nossa história, que terminou cinco anos depois com a prata nos Jogos do Rio. Nada vai apagar isso.

Foi um início duro, de muito trabalho, mas cheio de conquistas. Entre elas, o bicampeonato brasileiro (2013 e 2014), Circuito Mundial e Copa do Mundo (2015). No meio do caminho ainda tivemos que nos separar por causa da criação da seleção brasileira. A Bárbara jogou com a Lili e eu com a Maria.

Após a Olimpíada, mais uma vez, estava recomeçando praticamente do zero. Além do Renan, que é meu preparador físico, só a médica da equipe ficou comigo. Mas antes de pensar no futuro, me permiti viver a medalha.

 Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo
Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

Fui no Domingão do Faustão, no Altas Horas, no programa da Fátima Bernardes. Curti mesmo. Foram uns 15 dias de entrevistas, palestras. Visitei colégios, levei a medalha pra criançada ver. Andei no carro de bombeiros em Paranaguá, recebi homenagens. Enfim, aproveitei. E vi que a comunicação é algo que pode ser meu caminho depois do esporte.

Mas a vida segue e dessa vez estava valorizada, né? Analisei o mercado e chamei a Duda pra fechar dupla. Engraçado, ela era tão novinha, tinha só 18 anos, que nem falei com ela pra acertar todos os detalhes. Conversei com a mãe dela, a Cida!

Só que como a Duda fecharia o ano com a parceira dela, chamei a Carol pra jogar o restinho de ano. Dois meses depois de ter filho, lá estava ela jogando comigo. E fizemos um pódio histórico em Curitiba, um terceiro lugar muito especial, sentindo o carinho da torcida.

Aqui, preciso abrir um parêntese. Em cada momento da carreira, você faz um sacrifício diferente. Primeiro, era estar longe de casa, com saudades da família. Depois, me tornar uma profissional de verdade, fazer dieta, administrar vontade de estar com os amigos, festar.

O sacrifício que faço agora é o de não ser mãe. Todo mundo que me conhece sabe o quanto quero realizar esse sonho. Porém, não seria capaz de interromper a carreira, engravidar e depois voltar. Não conseguiria fazer as duas coisas 100%, dividir meu amor pelo vôlei. Por isso, simplesmente não penso no assunto. Espero que Deus me dê esse dom no futuro. Por enquanto, é mais uma situação que fica na minha couraça.

Bom, em 2017, comecei de vez a dupla com a Duda. Um novo capítulo. Temos 15 anos de diferença, mas uma jornada em comum. Ela saiu do interior do Sergipe para morar no Rio, vindo jogar com uma medalhista olímpica, tendo que aprender a se tornar profissional. Qualquer semelhança não é mera coincidência. Eu realmente me via na Duda em várias situações.

Traçamos a meta de conquistar a vaga pra Tóquio em 4 de janeiro. Objetivo cumprido, mas adiado em um ano por causa da pandemia. E o Renan sempre do meu lado. A gente compartilha e vive esse sonho juntos.

Como nunca me vi parando de jogar em 2021, o adiamento não foi um baque tão grande. Se os Jogos fossem cancelados, aí sim ficaria arrasada. Então, virei a chave rapidamente, tentando ver o copo meio cheio dessa história.

Ter um preparador físico 24 horas por dias me ajudou demais a manter meu condicionamento. Como sou terceiro-sargento da Marinha, consegui liberação para treinar na Urca.

Quando as competições voltaram, em setembro de 2020, ganhamos logo de cara o primeiro torneio, na Holanda. Também ganhamos o circuito brasileiro por antecipação, já em 2021, e etapas do circuito mundial.

Divulgação
Divulgação

Chegamos ao Japão numa fase ótima. Eu, aos 38 anos, sinto que não estou estagnada. Consigo ver minha performance melhorar a cada treino. Claro que preciso cuidar muito mais da parte de recuperação, mas me beneficio do quão regrada sou.

Isso me deixa muito animada pra Olimpíada. Nosso time está entre os favoritos, sim, mas temos os pés no chão. Vamos precisar jogar muita bola, ralar bastante pra voltar com uma medalha. Tem cobrança pra isso? Dentro da minha cabeça não há obrigação nenhuma. Não existe o ter de ganhar.

Faltando poucos dias, o sentimento é de que os Jogos também marcarão um recomeço. Espero que representem um momento de alegria, um contraste com todas as mortes e tristezas que vivemos por causa da Covid-19.

Aquela menina que se encantou com o vôlei aos dez anos de idade está aqui, pronta pra mais um desafio. Cheia alegria e orgulho por representar o Brasil. E se precisar recomeçar, já sabe: a couraça está pra vida!

Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo
Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

O Paraná não poderia ter melhor representante em Tóquio do que Ágatha Bednarczuk, 38 anos, nascida na capital do estado, mas forjada no esporte em Paranaguá, o primeiro município da terra que ela carrega com orgulho como origem. Dupla de Duda, a jogadora de vôlei de praia, prata nos Jogos do Rio-2016, estreia na Olimpíada nesta sexta-feira, 23, às 23h. Antes de rumar para o Japão, pedimos um depoimento à atleta, que abriu o jogo ao repórter Fernando Rudnick.

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