“Galvão, não precisa nem parar o carro. Só diminui um pouquinho que vou descer”, pedia, assustado, o passageiro sentado atrás do banco do motorista.

A resposta veio, enfática, enquanto Galvão Bueno conduzia o veículo alugado em alta velocidade pelas ruas da Cidade do México, em um racha de carro com ninguém menos do que Ayrton Senna.

“Fica aí garoto, fica quieto. Não vai acontecer nada”, dizia o narrador da TV Globo, depois de um jantar entre jornalistas e o piloto logo após a antepenúltima corrida da temporada de 1987 da Fórmula 1.

O "garoto" em questão era o narrador paranaense Linhares Júnior, então com 25 anos de idade. Cinco anos antes, ele ainda cursava arquitetura na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, e jamais imaginava transmitir uma prova de F-1.

Muito menos, então, que descreveria aos ouvintes da Rádio Cidade todos os lances da grande final da Copa do Mundo de 1986, entre Argentina e Alemanha Ocidental, direto do Estádio Azteca.

O jovem Ogamar Linhares Júnior chegou intacto na carona até o hotel – os carros nem tanto, com um para-choque ficando pelo caminho. Mas a memória daquela noite se tornou inesquecível para o quase arquiteto que, felizmente, decidiu apostar no sonho de criança. Muitas outras lembranças, aliás, vieram graças ao esporte.

Vidrado em rádio desde pequeno, daqueles que narrava os próprios jogos de futebol de botão, Linhares frequentava os estádios de Curitiba com um gravador de bate-pronto. Comprava ingresso para um jogo qualquer, seja na Baixada, Couto Pereira ou Vila Capanema, e fazia sua própria transmissão do duelo na arquibancada ou em alguma cabine de imprensa vazia.

Com as fitas em mãos, em 1983, bateu à porta da Rádio Paraná. Entregou-as, em uma quarta-feira, para o radialista Sidnei Campos (que depois confessou que nunca as ouviu) e já no sábado estreava fazendo posto em um Atletiba de juniores, pela Copa Tribuna. O jogo acabou não acontecendo por causa de uma chuvarada, mas o caminho no rádio era sem volta.

A faculdade, naturalmente, deixou de ser prioridade para o garoto nascido em Engenheiro Beltrão. “Eu matava muita aula porque comecei a viajar bastante, então meio que larguei, ficava reprovando por falta. Foram dez anos de arquitetura e não me formei”, conta o arrependido Linhares, que em setembro completa 60 anos de idade.

A última narração? Tempo demais para quem faz isso há quase quatro décadas. Foi um Remo x Londrina, pela Série B, no início de novembro de 2021. Sua passagem pela Globo se encerrou após 13 anos, em novembro de 2021.

No início do ano, Linhares havia acertado tudo para narrar o Paulistão na Record. Em cima da hora, contudo, mudaram de ideia e voltaram atrás, diz.

“Dá uma depressão, né? A gente se sente triste. Fiz isso minha vida inteira, faz 38 anos. Está na sua rotina e de repente não tem mais. Minha família é que tem me aguentado”, afirma.

“Sinto muita falta de narrar jogos. O sentimento é da convicção que posso oferecer muito profissionalmente ainda, narrar em alto nível por mais alguns anos. Mas hoje não consigo nem olhar pra TV, apesar de ter muitos amigos lá. Parei de ver para não lembrar”.

Histórias da carreira

A passagem envolvendo Galvão e Ayrton é apenas uma das inúmeras histórias que Linhares guarda de seus quase 40 anos de carreira, que começou como plantão e repórter no rádio esportivo.

A função de narrador, efetivamente, só começou em 1985, quando Capitão Hidalgo o chamou para trabalhar na Rádio Cidade. “O Hidalgo gostava muito de viajar, fazer jogos da seleção nas Eliminatórias, amistosos. Na Copa de 1986, narrei a abertura e a final no México. Imagina, menos de dois anos narrando e já fazendo final de Copa?”, recorda.

Com o rádio em alta nos anos 80 e início dos anos 90, não foram poucas coberturas internacionais. Em 1987, por exemplo, transmitiu os jogos do Brasil pela Copa Stanley Rous, um triangular que também contava com os rivais britânicos Escócia e Inglaterra.

Porém, também existiam perrengues. Sem dinheiro para bancar a cota de 2 mil libras para transmitir direto do Estádio Wembley, o jeito foi fazer um off-tube do hotel onde estavam hospedados, no centro de Londres.

“O Hidalgo pegou uma suíte com TV, pegamos o telefone, ligamos para a rádio e começamos a narrar o jogo, mas toda a hora a telefonista entrava na linha, achando que tinha algum problema por causa da ligação tão longa. E a gente não falava inglês”, diverte-se.

Em Glasgow, no segundo jogo do torneio – que acabaria vencido pela seleção brasileira –, a jornada foi feita direto do Estádio Hampten Park. Desta vez, sem pagar pela linha de transmissão.

“A gente achou um telefone e não sabe até hoje de quem era. Metemos um adesivinho ‘O Estado do Paraná’. O dono do telefone chegava, olhava, e nós ali. Chegamos uns três dias antes para fazer os treinos, a linha estava ligada, então estávamos usando o telefone para fazer boletins e tudo mais”, conta, às gargalhadas. “Era aventura pura. Tudo experiência".

| Arquivo Pessoal

Rádio e TV

Apesar de ter participado do histórico programa de TV "Viva a Bola", na TV Iguaçu, nos anos 80, trazendo as notícias do Colorado, o narrador "descobriu" a televisão apenas em 1995.

Foi nesse ano que comandou as transmissões da Série B pela extinta TVA, em um pay-per-view exclusivo para Curitiba e região. A competição marcou o acesso de Athletico e Coritiba à elite.

“Nunca sonhei narrar em TV”, revela Linhares, que também fez partidas do Paranaense pela ESPN Brasil.

“Era uma coisa mais esporádica, sem esse negócio de direitos de transmissão, os times faziam acordos e liberavam para transmitir”, conta ele, que antes de ser contratado pelo SporTV, em 2009, já narrava duelos do Paranaense e Gaúcho no canal Premiere.

O rádio, sem dúvida, deixa saudades. Linhares fez parte de várias equipes – Clube, Independência, Cidade – e chegou a montar a própria, na Eldorado, no início dos anos 90.

Na CBN, onde permaneceu entre 2000 e 2008, orgulha-se da cobertura do "Caso Bruxo", maior escândalo de arbitragem da história do futebol paranaense. O narrador, que formou-se em jornalismo em 2001, também foi colunista da Gazeta do Povo e assessor de imprensa do piloto Maurício Gugelmin por quase uma década.

“O rádio tinha mais relevância porque não tinha tanta presença da TV. Para saber de um jogo tinha que ouvir no rádio. A gente viajava muito, considero que foi a fase de ouro. Vejo os caras começando hoje e nem sonham com tudo isso. O rádio perdeu a magia que sempre teve. Fico feliz por ter vivido uma época boa”.

Prêmio maior e futuro

"Pô, você me fez chorar com sua narração".

A frase acima foi dita por Rubens Barrichelo, pai do piloto homônimo, na festa de comemoração do primeiro título do filho na Stock Car, em 2014. A chegada de Rubinho, com a emocionante descrição de Linhares no SporTV, foi mostrada no telão e provocou tal reação.

Palavras que nunca saíram da cabeça do jornalista, acompanhado da esposa e dos filhos na ocasião. "Dá muito orgulho ouvir essas coisas. São prêmios que a gente ganha na carreira que não tem preço", define.

Independentemente se retornar ou não ao que mais gosta, ele se prepara para o próximos passos da carreira. Iniciou pós-graduação em marketing digital e, depois de concluir o curso, imagina-se como professor de jornalismo.

"Acho que tenho alguma coisa para passar e ensinar", pondera, enquanto aguarda mais uma nova oportunidade do mercado, com uma única certeza. "Tenho muita lenha pra queimar ainda".

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