Tempos de crise costumam vir acompanhado por densas reflexões filosóficas, mas também por frases de autoajuda. Aparentemente mais afeitos às segundas, dirigentes do futebol brasileiro se lançaram em uma aventura de transformação de suas tradicionais estruturas, sob a crença de que a pandemia da Covid-19 é mais uma daquelas situações em que “crises geram oportunidades”.

Em um momento de instabilidade financeira sem precedente, é exatamente a receita mais segura, os “direitos de transmissão”, que está sendo manipulada em tubos de ensaio. Muito pelas mudanças tecnológicas e de padrão de consumo das novas gerações com o futebol na TV, é verdade, mas também a despeito dos riscos que o momento oferece. Uma briga de foice no escuro.

Analisaremos as investidas atuais do mercado de transmissão de eventos de futebol no Brasil, bem como os posicionamentos dos clubes dentro desse contexto. Para esse texto, contei com a generosa colaboração de Anderson Santos, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e autor do livro "Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol (Appris, 2020)", doutorando em Comunicação pela Universidade de Brasília, que participa do canal Na Bancada.

Novo paradigma em vista

Com ou sem pandemia, já era sabido que o ano de 2024 seria um ponto de virada nos direitos de transmissão do futebol brasileiro. O ano marcará o encerramento simultâneo entre os contratos vigentes da Rede Globo e da Turner com os clubes para os direitos de transmissão do Brasileirão, principal produto televisivo do futebol nacional.

A atual legislação brasileira, diferentemente de outros países, obriga que o direito de transmissão de uma partida pertença aos dois clubes. Com isso, nos últimos anos o Brasileirão presenciou os chamados “jogos fantasmas”, ocasiões em que as duas detentoras não teriam entrado em acordo sobre a cessão pontual dos direitos de imagem dos clubes sob seu controle, inviabilizando a transmissão do jogo.

A desorganização nesse tema, entretanto, não é nova. Em 2011, ocorre a dissolução do Clube dos 13, deixando um vácuo nos acordos de direito de transmissão, descentralizando a negociação – e com isso privilegiando alguns poucos clubes – sem dar a cada clube controle total sobre seus jogos. Esse problema se agrava em 2016, com a entrada da empresa estrangeira Turner no mercado de TV fechada, cujas ofertas mais valiosas são aceitas por oito clubes, garantindo sua participação nesse segmento.

Isso acaba criando dois blocos distintos: os clubes da Sportv (Grupo Globo) e os clubes do então canal Esporte Interativo. Ao mesmo tempo, os clubes seguiam vinculados ao Grupo Globo nas transmissões em TV aberta, bem como seguiam renovando seus contratos para a modalidade de pay-per-view do Premiere, propriedade do mesmo grupo.

A Medida Provisória 984, promulgada em junho de 2020, buscava atacar, dentre outros pontos, essa particularidade brasileira. Dando ao mandante da partida o direito total sobre o evento em questão, a medida foi feita sem debate, na canetada e guiada por interesses políticos alheios ao futebol. Ao invés de renovar o mercado nacional, a MP só gerou instabilidade jurídica e problemas entre os principais players do futebol nacional, vale dizer, em meio a uma pandemia que impede a presença de público nos estádios.

Apesar de ter caducado, a MP 984 acabou produzindo um eco político para além de si. Há uma série de projetos em discussão no momento, muitos dos quais bebem direto de sua proposta. Ainda que a ideia de “direito de mandante” realmente possa ajudar a resolver o atual problema da “questão televisiva” do futebol brasileiro, do jeito que está sendo feita acabará produzindo outro efeito nocivo: a chamada “negociação individual”, modelo que causou graves distorções e desigualdades financeiras onde foi adotado.

Os exemplos principais são Espanha e Portugal, países onde o Estado precisou intervir e exigir a negociação coletiva – em 2015 e 2021, respectivamente, através de uma liga de clubes –, com regras mais justas de divisão desses valores. Essas medidas drásticas se deram pela discrepância de quase 14 vezes entre os valores recebidos pelos clubes mais ricos e os clubes de menor expressão, o que levou ao colapso financeiro dos últimos e à queda da qualidade da competição em geral. Falo mais sobre isso nesse vídeo aqui.

Nesse momento, o Brasil se movimenta para rumar no sentido contrário ao que o futebol no mundo inteiro está seguindo. Como observa Anderson Santos, esse cenário deu aos clubes a sensação de urgência quanto a um reposicionamento dentro do mercado, que coincidentemente era inundado por novos atores de diferentes origens e propostas.

A "guerra dos streamings"  

Abriu-se uma corrida ao estilo “salve-se quem puder” pela busca das melhores alternativas à disposição, projetando o que poderá ser colocado na mesa quando o momento da renegociação, em 2024, chegar. Ainda que, de certa forma, ninguém saiba quais marcos legais que vão determinar como as coisas serão até lá.

O fato é que o momento atual está sendo marcado pela disputa ferrenha entre muitos serviços de streaming, que são lançados a todo instante. Produtoras de vídeo se tornaram agora vendedoras de assinaturas para seus produtos exclusivos, enquanto antigas empresas de telecomunicação dedicam cada vez mais recursos para a compra de produtos exclusivos e para garantir uma produção autônoma capaz de preencher seus catálogos.

Nesse cenário, o esporte desponta como um produto cobiçado. Sendo o futebol uma das suas principais vertentes, esse novo e complexo mercado do streaming aposta em eventos ao vivo como instrumentos de diferenciação e de criação de barreiras à concorrência. Por se tratar de um produto ao vivo, de grande complexidade logística, a transmissão do futebol por plataformas conectadas à internet tem se mostrado de altíssima exigência técnica.

Ao mesmo tempo em que excluía alguns concorrentes no caminho, essa característica particular destacava outras plataformas já consolidadas como ferramentas viáveis de experimentação na transmissão de jogos.

Dessa forma, surgem no cenário diferentes tipos de empresas: 1) aplicativos próprios de competições ou ligas, como fizeram NBA, Fórmula 1 e Conmebol; 2) Grandes empresas já posicionadas em serviços de streaming, como Amazon, DAZN, Disney (ESPN) ou a própria Globo e a Esporte Interativo, no caso das vinculadas a pacotes de TV por assinatura; 3) Redes sociais que se posicionam como players intermediários e plataformas de transmissão gratuita de eventos, como Facebook, Twitch (Amazon) e Tik Tok.

É evidente que o cenário é muito mais complexo do que o breve quadro aqui ilustrado, mas a partir desses exemplos já se pode compreender a proporção das mudanças em curso. Há um campo aberto a ser explorado tanto nos modelos de comercialização, quanto nos formatos e nas linguagens a serem explorados com esses novos públicos. Entretanto, ninguém sabe o quão fértil esse solo realmente é.

Assim como a entrada da televisão revolucionou o futebol – para o bem ou para o mal, dados os efeitos de desequilíbrio esportivo que provocou em todo o planeta –, cada nova etapa de inovação tecnológica cria seus novos limites. Assim foi com o satélite, com a TV a cabo e com os sistemas de pay-per-view tradicional, o streaming poderá intensificar as dinâmicas anteriores, ou apenas representar uma longa rodada de desperdícios de recursos e aventuras malsucedidas.

Intermediadores do futebol na TV e outros casos

O que vem se destacando no momento é a entrada de plataformas como o Facebook, gigante do segmento que há anos tenta emplacar o “Facebook Watch”; assim como o Twitch, pertencente à Amazon, muito utilizado como meio de streaming por gamers; e mais recentemente o Tik Tok, rede social de grande sucesso do momento.

As duas últimas estão sendo utilizada em jogos da Copa do Nordeste – que pertence à empresa LiveMode, propriedade dos criadores da antiga Esporte Interativo. Também controlam o site NordesteFC (antigo LiveFC), que também possui os direitos do Campeonato Cearense e dos jogos do EC Vitória no Campeonato Baiano (o EC Bahia usa plataforma própria para sócios, já que o torneio saiu da Globo para a TV pública baiana). Também é a LiveMode que explora as partidas do Athletico desde o imbróglio da MP 984.

As plataformas das redes sociais estão viabilizando modelos de negócio bem diferentes do tradicional: ao invés de comprarem os produtos para depois negociar espaços publicitários, propõem uma parceria, cedendo a estrutura que já possuem – estrutura de mercado segmentado, baseado em dados de profundidade, tecnologia de armazenamento e transmissão e poderosos servidores –, com uma proposta de exploração comercial muito mais flexível.

Essa flexibilidade, apesar de oferecer uma chance de gerar maiores receitas, também coloca os clubes e as competições em situações de maior risco no resultado final. A saída surpresa do Facebook dos acordos para transmitir a Champions League e a Libertadores para diferentes mercados, acendeu a luz amarela quanto ao modelo. As experimentações seguem, mas nada indica que é uma tendência a se confirmar.

Uma plataforma que merece atenção é o MyCujoo, uma espécie de YouTube de eventos esportivos alternativos e gratuitos. A empresa hoje já serve à CBF para a transmissão de jogos menos cobiçados da Copa do Brasil e transmitiu toda a Série D 2020. Apesar de não garantir transmissões de qualidade, pelos recursos limitados, essa plataforma tem quebrado o galho de muitos torcedores de clubes periféricos do país. Também serve de plataforma para muitos jogos de competições de base.

Na outra ponta da história, outros dois casos merecem atenção, pois tratam de produtos valiosos e disputados. A FIA, dona da Fórmula 1, agora busca conciliar a transmissão em TV aberta sem deixar de explorar um canal próprio de streaming, a “F1 TV Pro”, onde também hospeda conteúdos variados, cobrando assinatura. Foi o que fez a principal atração do automobilismo mundial deixar a Rede Globo após quatro décadas. A prova seguiu para a Band, que aceitou as condições não aceitas pela concorrente.

O mesmo ocorreu à Copa Libertadores da América, produto da Conmebol, que rompeu o contrato para TV aberta com a Globo (a fechada segue com a Fox Sports), e agora é transmitida pelo SBT. A confederação lançou o aplicativo Conmebol TV em paralelo a esse movimento, onde também cobra por assinaturas.

Vale considerar que muitos desses serviços de streaming também estão se aliando a TVs por assinatura como Claro/NET e Sky, buscando captar esses clientes através de ofertas promocionais de acesso aos jogos na modalidade pay-per-view, seja em pacotes agregados ou avulsos. Uma pulverização tão grande dos eventos esportivos, que o problema agora é outro.

Como fica o futebol na TV do lado de quem consome

O conceito de concorrência costuma ser mal compreendido quando o assunto é direito de transmissão de evento esportivo. Atualmente, isso tem sido percebido pelo torcedor em dois sentidos: 1) a dificuldade cada vez maior de saber onde acontecerá um jogo de futebol; 2) a inviabilidade de manter a assinatura de tantos variados serviços, sejam eles em streaming, em TV fechada, ou em pacote adicional PPV.

A concorrência pelos direitos de transmissão se ampliou em uma escala inédita, com muitas estratégias agressivas de experimentação apostando em caminhos diferentes. E para compensar os custos dessa corrida desenfreada pelos produtos, que tende a encarecer o contrato final, essa conta está indo para quem deseja assisti-los. Esse duplo efeito – “dispersão” e “alto custo” – precisa ser visto com maior cuidado.

Sem dúvidas é interesse apostar em plataformas utilizadas por jovens gamers, ou nos bancos de dados das populares redes sociais, ou mesmo investir em pacotes avulsos para assinantes de TV a cabo. O problema é que isso está sendo feito por todos, de forma caótica, sem relação direta com a capacidade financeira dos consumidores e correndo o sério risco de perda de visibilidade dos próprios produtos.

Hoje empresas concorrentes se negam a transmitir os melhores momentos dos jogos que não possuem e o torcedor sequer tem condição financeira de acompanha-los. Mais do que isso, muitas vezes os torcedores sequer sabem onde esse conteúdo será transmitido. A corrida pelo sonho da majoração da receita através da concentração de jogos em serviços pagos, cada vez mais numerosos e custosos, está tirando muitos torneios do próprio falatório cotidiano dos apaixonados por futebol. Um problema que já ocorre em certos países europeus, onde o acesso aos jogos é tão custoso, que torcedores só podem acessá-los através de serviços piratas ou em bares.

Há ainda o risco eminente de que os clubes comecem a sofisticar suas próprias plataformas ao ponto de resumirem seus jogos a elas. O que acontece hoje no Campeonato Carioca – onde cada clube está vendendo o seu pacote próprio de jogos –; pode enveredar em uma situação (caso a lei do mandante vingue, por exemplo) em que o torcedor terá que assinar a plataforma dos outros clubes para poder assistir aos jogos em que seu clube é visitante. Distópico, mas não impossível: foi o que o SL Benfica fez por alguns anos em Portugal. Os jogos do Athletico Paranaense seguem “fantasmas” para quem não assina a plataforma do Furacão.

O momento histórico, para piorar, é severamente delicado para tantas experimentações. A recém-criada TV WA precisou romper o acordo com o Campeonato Catarinense por não ter capacidade de manter os pagamentos prometidos no contrato de transmissão de jogos para a TV fechada, muito em decorrência da pandemia. A experiência do Campeonato Carioca em serviços de streaming dos clubes (ainda que esteja na Record, na TV aberta) tem sido muito criticada pela falta de estrutura e alto custo, considerando que já são jogos de pouca atratividade.

Ainda diante disso, estamos falando de uma crise pandêmica que levou o país a alcançar a marca de quase 15 milhões de desempregados, fora as outras muitas famílias que estão vendo suas rendas caírem drasticamente, com uma inflação galopante. A aposta nos serviços pagos está indo na contramão da própria capacidade financeira das pessoas em um momento dramático como o atual.

Não se trata sequer da comodidade de sentar no sofá, zapear o controle e encontrar um jogo qualquer para consumir despretensiosamente. Agora a dificuldade passa a ser o acesso ao pacote de jogos do seu próprio clube de coração, aquele produto futebolístico mínimo semanal.

Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada

O trecho da letra de “Natureza das Coisas”, de Accioly Neto, serve mais à filosofia do que à autoajuda. A música sugere ao interlocutor que não se “avexe”, porque a natureza não tem pressa e segue seu compasso. Cairia bem aos dirigentes do futebol brasileiro. No momento mais adverso do último século, os passos dados parecem ser maiores do que a perna. Por vezes, a procura da estabilidade não significa conservadorismo, mas cautela.

Muitos dirigentes apontam que esse é o “modelo” que tem dado certo no exterior, partindo de pressupostos para lá de contestáveis. Cabe lembrar: o Brasil não é o exterior, o futebol brasileiro não é o europeu e essa maldita pandemia não tem prazo de validade. Os clubes estão apostando em um modelo que demanda mais do pagador de assinaturas do que o esquema tradicional, mas nunca ultrapassado, modelo de publicidade massiva.

Como observa João Ricardo Pisani, outro membro do canal do Na Bancada, que é mestre em gestão esportiva pela Universidade de Georgetown, a pandemia vai cobrar muito caro dos clubes. Sem a receita dos estádios, os próximos anos serão inevitavelmente de perda precoce de atletas pela pura necessidade de fechar as contas. Como país periférico, espera-se para o Brasil uma inevitável queda de qualidade do produto e nova onda de perda de relevância frente às competições europeias. Definitivamente, esse era o momento de buscar modelos seguros, não “flexibilidade” banhada em risco e custos em atividades sem o devido know-how.

Há pouco tempo, parecia impensável assistir com facilidade a jogos da Série C, hoje a tecnologia proporciona facilidade de acesso a qualquer tipo de torneio que convenha. O problema já não está mais nas possibilidades, mas nas formas de torna-las viáveis. No afã da majoração da receita, o futebol brasileiro pode estar inviabilizando a própria capacidade de torcer. Enquanto Neymar será exibido em TV aberta à tarde; Athletico versus Cuiabá, apenas estará no serviço pago de R$ 30 por mês.

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