A realidade do FC Cascavel – adversário do Athletico na semifinais do Paranaense a partir desta quarta-feira (1), às 15h20, na Arena da Baixada – hoje é de Série D, a prateleira mais baixa do futebol brasileiro. O sonho, entretanto, é bem mais alto.

“Eu tenho esperança de jogar a Libertadores”, confessa Valdinei Silva, presidente da Serpente Aurinegra. “A gente acredita. A Chape jogou, por que não podemos jogar também?”, reforça o dirigente de 48 anos.

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O FC Cascavel é, desde 2017, a “pinga” de Valdinei. O empresário, fundador de uma holding com faturamento anual na casa do bilhão de reais, explica que decidiu entrar no futebol após cansar de ver a cidade “passando vergonha” em campo.

O modelo de investimento adotado foi a criação da empresa Podium Participações S.A., que faz aportes mensais para bancar o clube. Já são mais de 110 acionistas, quase todos da região (empresários, profissionais liberais e funcionários públicos).

“Todo mundo põe um pouquinho de dinheiro por mês, e isso ajuda a manter o clube. Nosso orçamento mensal hoje é de R$ 500 mil, sendo que R$ 150 mil vem da Podium. No começo 60% vinha dela, mas agora, com nossas receitas aumentando, a dependência é de menos de 30%”, detalhe Valdinei.

A grande diferença para outros fundos é que não há distribuição de dividendos antes do objetivo principal ser alcançado: chegar à Série A até 2027.

“O retorno dos investidores vai acontecer com o tempo. Eu mesmo botei R$ 300, R$ 400 mil no clube, mas não estou lá para pegar o dinheiro de volta. Quando chegar a hora, vou continuar reinvestindo. É uma empresa, você não pode parar de investir”.

Camisa rende 2,5 milhão por ano ao FC Cascavel
Camisa rende 2,5 milhão por ano ao FC Cascavel

Camisa valiosa

Na Série D 2021, o desempenho do FC Cascavel só causa orgulho. São sete vitórias, seis empates e a liderança do Grupo 8 faltando uma rodada para o fim da primeira fase.

E mesmo sem público no estádio, o uniforme amarelo e preto segue um case de sucesso. “Vamos vender 60 mil camisas neste ano”, promete Valdinei.

Segundo o clube, as vendas já superaram 170 mil unidades desde 2017. A mais barata custa R$ 29,90, estratégia  pensada para combater a pirataria.

Mas mesmo que o faturamento não seja tão alto, na casa de R$ 300 mil por ano, disseminação da marca é essencial para sustentar o projeto. “A cidade tem 330 mil habitantes. Estamos trabalhando para ser o segundo time de toda a região Oeste. Têm torcedores do Grêmio, do Internacional, do Flamengo, e queremos que todos eles sejam Cascavel também”, explica o presidente.

O uniforme, aliás, é parte importante da receita. Com mais de uma dúzia de anunciantes estampados na camisa, a equipe arrecada R$ 2,5 milhões por ano.

“Só a Havan, que é o patrocinador master, nos paga R$ 800 mil por ano. Tenho certeza que já fazemos mais que Londrina e Paraná”, contabiliza Valdinei, que comanda o FC Cascavel como uma empresa de marketing esportivo.

Tcheco comanda o FC Cascavel
Tcheco comanda o FC Cascavel

Bicho alto

Comandado pelo técnico Tcheco, o FC Cascavel tem uma linha bastante clara quanto à remuneração de seus funcionários: os salários variam de acordo com o cumprimento de metas ou não.

“Nosso lema é esporte coletivo; contratos individuais. O jogador acaba fazendo o salário dele”, frisa o presidente.

Há bônus, por exemplo, pela superação de objetivos nos campeonatos, porcentagem de jogos realizados pelos atletas e aproveitamento do time. O “bicho” também é um incentivo extra: R$ 1 mil para autor de gol ou assistência e ainda se o goleiro não for vazado na partida.

Coincidência ou não, a Serpente perdeu apenas uma vez na temporada depois de 28 partidas disputadas. Foi em 14 de abril, em Florianópolis, quando foi eliminado pelo Avaí na segunda da fase da Copa do Brasil, não antes de bater o Figueirense na estreia do torneio.

Valdinei Silva, presidente do FC Cascavel
Valdinei Silva, presidente do FC Cascavel

Arena da Serpente?

O sonho de chegar a elite é ambicioso, mas requer tempo. Serão mínimo três anos, contando com um eventual acesso à Série C nesta temporada.

Isso não impede, contudo, que a diretoria já planeje a construção de uma arena multiuso no local onde hoje está localizado o Estádio Olímpico Regional. A praça esportiva pertence à prefeitura, mas, segundo Valdinei Silva, há conversas para que o FC Cascavel assuma o local.

“Temos projeto para reformar e transformar o estádio em uma arena para 20 mil pessoas com uma concha acústica para mais 15 mil. Têm duas empresas interessas para bancar essa reforma para nós em troca dos naming rights”, revela.

“Estamos negociando, não será feito com recurso do clube. Se a prefeitura nos conceder o estádio, faremos”, garante o dirigente.

Campanha na Série D traz esperança de acesso
Campanha na Série D traz esperança de acesso

Evolução sólida

Para estruturar o clube, membros da diretoria já visitaram mais de 150 times pelo mundo. Da Grécia ao Paraguai, da Espanha à Argentina, a evolução do projeto pode ser medida com conquistas simples.

“Três anos atrás fomos fazer uma visita técnica no Avaí e no Figueirense. Nesse ano, jogamos contra eles na Copa do Brasil. Quer dizer, nós estamos melhorando, evoluindo”, aponta Valdinei.

Fundado em 2008 pela família do ex-jogador Juliano Belletti, o clube estava na terceira divisão estadual em 2011, quando o ex-jogador de Barcelona e Chelsea desistiu da Serpente.

Uma década depois, o time tem centro de treinamento próprio e já começa a colher resultados de investimento na base. “Hoje, temos mais de 20 jogadores que vendemos e mantivemos percentual para um lucro futuro. Precisamos encaixar uma grande venda”.

Formado no time do Oeste paranaense, meia João Paulo Bitello, por exemplo, foi para o Grêmio enquanto o atacante prata da casa Paulo Baya está no Ventforet Kofu, do Japão.

“Investimos quase nada, apenas R$ 6 milhões desde 2017 porque o clube sempre buscou ser superavitário. O objetivo agora é sair mais rápido possível da Série D para garantir calendário, mas estamos no organizando pra chegar na Série A e um dia na Libertadores”, planeja Valdinei.

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