Colecionismo

Mercado de camisas antigas de futebol vira oportunidade e dispara na pandemia

Mercado de camisas antigas de futebol vira oportunidade e dispara na pandemia
| Foto: Arquivo/Gazeta do Povo
    • Estadão Conteúdo e UmDois Esportes
    • 21/02/2021 10:42

    Carlos Caloghero ainda era um estudante do curso de relações públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2002, quando a necessidade de arrumar verba para a cerveja do fim de semana o levou a empreender. Ao identificar em sites de comércio de camisas antigas de futebol uma oportunidade, resolveu se aventurar - seu primeiro negócio foi a venda de uma camisa da seleção italiana para um rapaz de São Caetano do Sul, por R$ 80. Hoje, Carlinhos, como é conhecido, é dono de um império que embasbaca muitos marmanjos. A marca "Brechó do Futebol" compreende um acervo de 13 mil camisas e de dois bares com temática futebolística (estes em sociedade com amigos) em Porto Alegre.

    Ganhar a vida com o comércio de camisas antigas de futebol é uma sacada que ocorreu a empresários de várias localidades do País: do Amapá a Florianópolis, passando por Londrina, Belo Horizonte, Palmas...

    Em São Paulo, um dos empreendimentos mais conhecidos é a Atrox Casual Club, que tem loja física na Galeria Ouro Velho, na Rua Augusta. Vinícius Pinheiro Martins, que toca o negócio, é filho de Renato de Oliveira Martins Filho, produtor musical e empresário de bandas de punk rock. Frequentador assíduo do "Rebellion Festival", importante evento do gênero, Renato costumava voltar do Reino Unido com camisas de clubes como West Ham, Aston Villa, Crystal Palace e Millwall na bagagem. Em junho de 2014, colocou 60 peças num showroom de roupas alternativas que tinha na Galeria do Rock. Com a boa aceitação das camisas, nasceu a ideia de abrir uma loja exclusiva para itens ligados ao futebol.

    Até hoje, a Atrox é um ponto de encontro de punks e de apaixonados pelo futebol. "Quando passam jogos do West Ham na TV, a gente para de trabalhar", diz Vinícius, que simpatiza também com o Wolverhampton.

    A loja se tornou uma curtição séria e tem frequentadores conhecidos, como os comentaristas de futebol Mauro Beting e Mauro Cezar Pereira, o guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, e o locutor de rádio Tatola. Boa parte deles dá depoimentos em um documentário sobre a Atrox, que está para ser lançado. A loja já recebeu também a visita de nomes importantes do futebol, como Biro Biro, Capitão e Ademir da Guia, que autografou uma camisa do Palmeiras de 1975, um ano depois do fim da Segunda Academia. "É uma peça que não tem preço para nós, palmeirenses", diz o empresário.

    Embora muitos dos empreendimentos funcionem apenas - e bem - na base do e-commerce, razoável parcela desses comerciantes não abre mão de uma loja física. É o caso de Rodrigo Cavalcanti, da Chanti Sports, de Florianópolis. "Muita gente gosta de ir pessoalmente à loja, para manusear as camisas, ver como está o estado de conservação. Um ponto físico alça a loja a outro patamar de credibilidade".

    Cavalcanti, assim como outros comerciantes do ramo, acha que a venda de camisas colecionáveis de futebol é um dos poucos negócios que ganharam impulso com o coronavírus. "O negócio já estava crescendo antes, mas, com a pandemia, parece que explodiu Tem muita gente desempregada que abre o armário e percebe que dispõe de um ativo em forma de camisas. Na outra ponta, as pessoas estão saindo menos, gastando menos, e ficam mais tempo na internet. Muitos acabam caindo em sites que vendem camisas de futebol".

    Como era de se imaginar, os valores das peças variam bastante. Alguns itens são considerados clássicos, como as camisas do Flamengo do início dos anos 1980. As famosas "furadinhas", assim chamadas devido à trama do tecido, fabricadas pela adidas, alcançam valores de R$ 1,5 mil. Caso tenham sido camisas de jogo, envergadas por craques, obviamente o preço para venda se multiplica. Cavalcanti chegou a vender uma camisa de Ademir da Guia, de 1973, por R$ 4 mil.

    Baiano radicado em Florianópolis, Cavalcanti só não quer saber de vender uma camisa de 1972 do seu time de coração, o Vitória. "Foi um ano icônico do Vitória, que tinha um time com Mário Sérgio, André Catimba e Osni", diz o empresário.

    Naquele ano, o de estreia do clube no Campeonato Brasileiro, o rubro-negro de Salvador recebeu o Santos de Pelé na Fonte Nova - e venceu por 1 a 0, gol de Almiro. Se fosse vender a peça, Cavalcanti não pediria menos do que R$ 5 mil. Mas essa é apenas uma hipótese.

    A demanda por camisas de clubes estrangeiros é grande. Se, nos últimos anos, a procura por camisas de clubes da Inglaterra cresceu, devido à escalada do prestígio da Premier League, no ramo de camisas antigas do futebol italiano ainda reina. "Há um interesse por camisas do Liverpool, que eram fabricadas por marcas que não vinham para cá. Mas existe todo um saudosismo em torno do futebol italiano, que tinha muita projeção aqui nos anos 80, 90 e parte dos anos 2000", diz Vinícius, da Atrox.

    Já Carlinhos, do Brechó do Futebol, vê em Porto Alegre outros motivos que puxam a venda de camisas de clubes estrangeiros. "Aqui no Sul temos muitos descendentes de alemães e de italianos Aí tem gente que quer iniciar uma coleção de camisas de um desses países".

    Quanto aos clubes brasileiros, existe tanto o interesse por peças dos gigantes do futebol nacional como também buscas de nicho. "Notamos aqui o que chamamos de colecionismo raiz: torcedores que têm uma memória afetiva de momentos importantes do seu clube do coração. Procuram-se muito camisas do Corinthians daquela época em que o patrocínio era da Kalunga. Consigo vender uma peça dessas, em bom estado, por uns R$ 700", cita Cavalcanti.

    Mas camisas de times de remotos pontos do interior do Brasil, de clubes que já faliram ou daqueles que viveram seus dias de glória há vários anos também têm legiões de apreciadores. "Existe muito interesse pela camisa do Bragantino de 90/91 (da marca Dellerba e patrocínio da Vasp), do Guarani de 1995, do Bangu de 1985", diz Carlinhos.

    Cientes de que estão mergulhados numa paixão que transforma adultos em crianças grandes, os comerciantes de camisas antigas trabalham sem ver o tempo passar. "Troco, vendo, bato papo, anuncio, fotografo, faço pacotes e contabilidade aqui na Atrox. Trabalho demais, mas sinto um prazer nessa atividade que poucos encontram em suas profissões", conta Vinícius.

    Paixão por camisas antigas de Atlético, Coritiba e Paraná une colecionadores

    Texto publicado em 2016

    Arquivo/Gazeta do Povo
    Arquivo/Gazeta do Povo| Gazeta do Povo

    Uma mistura de paixão e obsessão faz três colecionadores reunirem mais de mil camisas de Athletico, Coritiba e Paraná. Acervo que preserva e conta a história do futebol paranaense, provoca orgulho aos donos e pavor nas esposas.

    “Um dos segredos para manter a coleção viva é não revelar para a mulher quanto custou cada camisa”, brinca o empresário Fernando Cabral, proprietário de cerca de 900 mantos do Coxa.

    Algumas peças superam, facilmente, a faixa dos R$ 1 mil. Especificar os valores, entretanto, é um tabu entre os adeptos do colecionismo. O segredo é trunfo no momento de barganhar nas negociações.

    “Há pessoas que chutam alto os preços para tentar levar vantagem. Outras querem se aproveitar da ignorância de alguns. Mas hoje em dia, com tanta informação, é difícil achar uma camisa rara dando sopa”, comenta o atleticano Pedro Neto, colecionador que tem mais de 300 rubro-negras.

    “A procura por camisas antigas sempre existiu e continua igual. As camisas novas desvalorizam muito rápido, não vale a pena comprar logo que são lançadas. Vão ganhar interesse daqui a 10, 15 anos”, comenta Neto.

    William Bohlen, torcedor do Paraná e personal trainer, é o maior colecionador de camisas do clube. Possui mais de 400, considerando itens de Pinheiros e Colorado, os antecessores do Tricolor.

    “Comecei porque achava que tinha pouca camisa para ir aos jogos, repetia demais. Aos poucos foi crescendo e hoje é quase uma obsessão, algo importante na minha rotina”, diz o torcedor, que é filho do ex-presidente do Paraná, Rubens Bohlen.

    O objetivo de William é reunir todas as camisas do Tricolor. E cada mudança, por menor que seja, como um patrocínio, representa um modelo diferente. Quando conseguir, o paranista pretende publicar um livro com o histórico.

    A utilidade das camisas, aliás, é outro ponto importante. Os três gostariam de contribuir com os times do coração na montagem de um museu, memorial, algo que sirva para tirar o acervo do armário.

    “Já vivi essa experiência na criação do Memorial do Coritiba, no Couto Pereira. É gratificante saber que a coleção provoca tanta curiosidade e emociona os torcedores”, comenta o coxa-branca Fernando Cabral.

    5 dicas para bombar sua coleção de camisas antigas de futebol

    DICA 1
    No começo, encontre um foco. Só camisas do clube do coração, por exemplo. Ou só rubro-negras, apenas alviverdes, somente tricolores.

    DICA 2
    Conheça a história do seu clube. Saber o real valor de cada camisa é fundamental para negociar e evitar falsificações. E jamais caia nos preços iniciais.

    DICA 3
    Esteja sempre preparado (com dinheiro ou uma camisa nova do seu clube) para arrematar uma peça. Pode ser na rua, no estádio, em qualquer lugar.

    DICA 4
    Exiba o acervo na internet. É o chamariz para trocas e ofertas de novos colecionadores. Relacionamento é fundamental para crescer.

    DICA 5
    Cuide da sua coleção. Guarde em cabides e lave a seco. Camisa nova se ficar dobrada o patrocínio gruda.

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