À beira do rebaixamento no Brasileirão, com dívidas próximas a R$ 300 milhões, o Coritiba finaliza nesta terça-feira (29) um longo e conturbado processo eleitoral. Em votação exclusivamente pela internet, das 10h às 16h, pouco mais de quatro mil sócios têm direito a escolher quem será o presidente do clube no triênio 2021-2023.

Estão na disputa o médico João Carlos Vialle (União Coxa) e o consultor em previdência Renato Follador (Coritiba Ideal), além do advogado Samir Namur (Coritiba Responsável), que comanda o clube desde dezembro de 2017.

Três chapas com propostas distintas e algumas diferenças gritantes, mas que ao mesmo tempo carregam fortes conexões entre elas – e também com figurões da política coxa-branca.

É como se o emaranhado de relacionamentos e as próprias regras estatutárias do clube sempre trabalhassem contra uma renovação interna. Em qualquer cenário, qualquer que seja o vencedor do pleito, as 160 vagas do Conselho Deliberativo seguirão, em sua maioria, com os mesmos nomes de sempre. O Conselho Administrativo (G5) pode até mudar a cada três anos, mas o poder permanece nas mãos dos mesmos grupos políticos.

| Osvalter Urbinati/Gazeta do Povo

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“É uma forma fechada de organização, um modelo que tem as mesmas pessoas. Há alguma renovação, mas ela é bem lenta e por isso as mesmas pessoas que estavam no clube há dez, vinte anos, são as mesmas que estão lá hoje. Elas meio que se alternam e se perpetuam”, explica Daniel Ferreira, doutor em História e pesquisador sobre a estrutura política de clubes.

Não é difícil estabelecer laços entre os três postulantes ao cargo de presidente. Follador, por exemplo, apoiou Vialle nas últimas eleições. Ele teria um cargo não remunerado no clube, na área financeira, em caso de vitória.

Posição muito similar àquela que o próprio Follador exerceu por um ano durante o mandato de Rogério Bacellar Portugal (2015-2017), gestão justamente pela qual Samir ingressou no clube. O atual presidente foi eleito suplente pela chapa Coxa Maior, no fim de 2014, e assumiu o posto de conselheiro no decorrer do ano seguinte.

“Você tem o Juarez [Moraes e Silva], vice da Coritiba Ideal, que se coloca como a verdadeira chapa de oposição. Mas ele entrou no clube pela Coxa Maior, que é justamente quem estão criticando. A chapa Coritiba do Futuro, que elegeu Samir, era basicamente uma continuação da Coxa Maior”, aponta Ferreira.

Na disputa atual, dentro da teia de conexões, há um caso claro de troca de lados. O ex-presidente Vilson Ribeiro de Andrade chegou a anunciar que seria candidato – e sua base seria o grupo da situação.

No entanto, após discordâncias na composição do G5 e sobre a condução do clube, ele rompeu com Samir, desistiu da candidatura e se aliou a Follador, anteriormente alvo de críticas. Anteriormente, houve tentativas frustradas da união de todos os grupos.

“O Vilson acabou voltando para o seu grupo político, organizado pelo Glenn Stenger [candidato a vice na Coritiba Ideal], que estava com ele desde a época do Jair Cirino. 25 pessoas atualmente na Coritiba Ideal estavam com ele na aclamação [em novembro de 2011]”, detalha o historiador.

O núcleo duro de Vialle, por outro lado, é formado pela chapa Sangue Verde (31,2%), derrotada três anos atrás. Mas o candidato de 77 anos também conta com a simpatia de dissidentes da Coritiba do Futuro (11,2%) e de apoiadores de Pedro de Castro (11,9%), que concorreu pela Novo Coritiba.

Adendo: Espeto também tem ligação com Vilson, de quem foi candidato a vice-presidente na eleição de 2014.
Adendo: Espeto também tem ligação com Vilson, de quem foi candidato a vice-presidente na eleição de 2014.

Grupo que hoje, aliás, forma a base de apoio a Follador (34,4%). “Percebe-se que essas alas vão meio que se desfazendo e refazendo. Mas se perpetuam no clube de alguma forma”, diz Ferreira.

O número de “novos” candidatos ao Deliberativo  na somatória das três chapas é de 239. Mas a sensação de renovação, na verdade, para por aí. As 160 vagas são preenchidas de forma proporcional ao número de votos conquistados por candidato, com prioridade para quem tem mais tempo de associação no clube.

“Até existem pessoas novas, que não participaram ainda do Conselho, mas o que acontece é que as pessoas mais antigas no clube acabam entrando. No fim das contas a formação pouco muda por causa desse critério. O clube é fechado e pouco respira a sociedade da qual faz parte", conclui Ferreira.

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