Segundo atleta mais jovem a estrear no time principal do Coritiba, apelidado de “Pogba brasileiro” e alvo de proposta milionária do Flamengo. As informações envolvendo o jovem volante Khensane, de 17 anos, geraram de imediato grande expectativa na torcida alviverde.

Diretoria e comissão técnica do Coxa, por outro lado, adotam cautela no importante momento vivido pela promessa do CT da Graciosa: a transição para o time principal.

Até o momento, Khensane ainda não ganhou oportunidades na equipe de Fernando Seabra em 2026. Ele chegou a ser relacionado pela primeira vez para uma partida de Brasileirão e viajou com a delegação para enfrentar o Botafogo, pela 11ª rodada, no dia 12 de março. Mas não entrou em campo.

Apesar disso, a experiência faz parte de um planejamento cuidadoso do Coritiba, que busca proporcionar aos jogadores considerados promissores e que vêm tendo bom rendimento nos treinos a vivência de vestiário e da rotina do futebol profissional.

Mesmo já conhecido por parte da torcida e cercado de esperanças, a utilização do jogador no time principal segue critérios internos de desempenho e evolução dentro de cada categoria.

Flamengo monitora joia da base do Coxa. Foto: Montagem com Divulgação

Com contrato até o fim de 2028 e convocação para treinos com a seleção sub-17 em 2025, Khensane é visto como um ativo de grande potencial de valorização do Coritiba, tanto esportiva, como financeiramente. Internamente, no entanto, a filosofia do clube em relação ao volante é uma só: não queimar etapas.

Coritiba foca em transição planejada e formação além do campo

No futebol moderno, a transição das categorias de base para o profissional é um processo que vai além das questões técnicas e táticas. Envolve também aspectos físicos, emocionais e psicológicos, fundamentais para a consolidação de um atleta ainda muito jovem no exigente universo do alto rendimento.

Para o psicólogo esportivo Allan Assaf, esse processo precisa respeitar o tempo de desenvolvimento de cada jogador. “A base tem suma importância para construir essas habilidades psicológicas de um atleta, principalmente no futebol, onde a gente tem muita intensidade, tem muita exposição midiática”, analisa.

“Então se faz de suma importância você construir essa base para o atleta. Quando não se respeita esse processo e etapas são puladas, seja por pressão externa ou da mídia, isso pode prejudicar o desenvolvimento”, reforça Assaf.


Na última temporada, Khensane somou 34 partidas, distribuídas entre as equipes sub-17, sub-20 e também na Taça FPF. Já em 2026, iniciou o ano treinando com o elenco principal durante o Campeonato Paranaense, embora não tenha sido utilizado em jogos.

Na sequência, voltou a atuar nas categorias de base, participando do mata-mata da Copa do Brasil Sub-17. Depois, cumpriu o período obrigatório de férias previsto pela legislação.

Exemplo no Coxa, Keirrison avalia caminho de jovens da base

Um dos grandes exemplos de transição bem-sucedida no Coritiba, o ex-atacante Keirrison relembrou o início da carreira e comparou o cenário da época com o modelo atual adotado pelos clubes.

Revelado pelo Coxa, Keirrison teve uma ascensão meteórica. Após disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2006, o atacante foi rapidamente integrado ao elenco principal e, nos anos seguintes, se consolidou como um dos principais goleadores do país, sendo artilheiro das Séries B e A em temporadas consecutivas.

Ao analisar o processo de transição da base para o profissional, o ex-jogador destacou que, atualmente, há uma preparação mais estruturada para os jovens e isso pode ajudar o Coritiba no aproveitamento de Khensane.

“A transição é um processo. Hoje existe um trabalho mais desenvolvido para essa adaptação, o atleta sai de uma categoria em que joga com jogadores da mesma idade e passa a enfrentar atletas já formados, mais experientes. É natural que existam desafios nesse caminho”, afirma.

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Keirrison em ação com a camisa coxa-branca. Foto: IconSport

O ex-atacante de Palmeiras, Benfica, Fiorentina, Santos e Cruzeiro também ressaltou que, diferentemente de sua época, os clubes passaram a estudar de forma mais individualizada cada jogador antes de promovê-lo ao time principal.

“Hoje essa transição é mais estudada, os clubes procuram entender como foi a formação de cada atleta para fazer esse processo da melhor forma. Cada clube tem sua metodologia, e isso influencia muito”, explica o K9.


Ao relembrar a própria trajetória, o ex-atacante destacou que precisou se adaptar já dentro do ambiente profissional, sem um planejamento específico. “No meu período, de 2006, não existia muito essa esse estudo de transição. Se via muito a questão como o atleta estava fazendo na sua categoria”, relembra.

“Eu subo quando ainda estava com 17 anos. No sub-20, somente participei de uma Taça São Paulo. Mas fui chamado para estar na equipe profissional. Então, não tive muita transição. Posso dizer, a minha preparação foi durante a caminhada”, completa.

Pressão da torcida e peso de apelido podem atrapalhar?

Nascido em Minas Gerais, Khensane Mpusane Eustáquio Machel é brasileiro, mas tem ascendência de Moçambique, já que o pai nasceu no país do sudeste africano.

Dentro de campo, o estilo de jogo e a aparência renderam ao jovem o apelido de “Pogba brasileiro” nas redes sociais, comparação que chama atenção, mas também acende um sinal de alerta. Internamente, o Coritiba conta com acompanhamento psicológico para lidar com essa exposição e alinhar as expectativas em torno do atleta.

“Existe muito isso no futebol, querer lançar um ‘novo Messi’, um ‘novo Neymar’. Quando você cria esse tipo de comparação com um jogador já consolidado, acaba desalinhando a expectativa com o estágio de desenvolvimento do atleta”, reforça o psicólogo esportivo, Allan Assaf.

Khensane foi logo comparado à estrela francesa Pogba. Foto: IconSport

Além da evolução técnica e psicológica, o jogador também vem apresentando evolução física, com ganho de força, aspecto considerado importante para o futebol profissional.

Internamente, o Coritiba adota um modelo de transição baseado em meritocracia, não apenas com Khensane, mas com outros destaques da base. Um exemplo recente é o atacante David, que também passou a integrar viagens com o elenco principal.

Atualmente, Khensane divide sua rotina entre treinos com a equipe sub-20 e atividades periódicas com o elenco profissional. Inscrito no Campeonato Brasileiro, ele pode ser utilizado ao longo da competição, conforme a evolução dentro do planejamento estabelecido pelo clube.

Pressão precoce e impactos no desempenho

Esse tipo de pressão excessiva e comparação a astros consagrados pode interferir diretamente no desempenho e na evolução do jogador. Entre os principais pontos de atenção estão a pressão por resultados, a cobrança por regularidade e até a exposição às críticas externas, fatores que nem sempre são compatíveis com a realidade de jovens em formação.

“Quando você acelera esse processo, o atleta da base passa a lidar com demandas emocionais e cognitivas que ainda não são do momento dele. São exigências de um jogador já formado, profissional”, explica Assaf.

“Você começa a exigir constância, lidar com crítica de torcedor, pressão por desempenho. Mas um atleta da base ainda não tem todos os pilares consolidados para sustentar isso. São raros os casos de jogadores que conseguem manter esse nível desde cedo, os chamados ‘fenômenos’, destacou.


Entre expectativa e realidade, Khensane segue dando os primeiros passos no Coritiba. Ainda em formação, o volante vai acumulando experiência nos bastidores enquanto busca seu espaço dentro de campo, em um processo que, como mostram os exemplos e os alertas internos, depende menos da pressa e mais do timing certo para acontecer.

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