Rebaixado à Série B logo na temporada de retorno à elite, o Coritiba retorna oficialmente à difícil realidade do segundo escalão do futebol nacional a partir desde sábado (13), ao apito final da partida contra o Santos, na Vila Belmiro.

Estrangulado financeiramente, o Coxa terá de lidar com uma perda gigantesca de receitas ao mesmo tempo em que a diretoria eleita no fim de dezembro altera drasticamente as estruturas internas do clube.

O UmDois Esportes ouviu jornalistas sobre o cenário que o Alviverde vai encontrar, dois anos depois, na Segunda Divisão, e qual a estratégia para o time voltar com solidez ao Brasileirão.

Sem margem para ‘tentativa e erro’

Na opinião de Mauro Cezar Pereira, colunista do UmDois Esportes, o Coritiba deve definir um “plano de voo” para evitar o sobe e desce de divisão. E o planejamento não pode ser baseado apenas no panorama da Série B.

“Vai ter que se estruturar em 2021 já projetando o que fazer se conseguir o acesso. Ou seja, que tipo de time o clube quer ter, que tipo de jogador pode contratar, qual a proposta de jogo...”, aponta o jornalista, que criticou a falta de coerência na escolha dos treinadores na temporada.

Eduardo Barroca começou 2020, perdeu o Paranaense e foi substituído, no início do Brasileiro, por Jorginho, que havia conquistado a vaga no ano anterior.

Depois chegou Rodrigo Santana, demitido três semanas antes da nova diretoria anunciar o paraguaio Gustavo Morínigo para o comando. “É muito 'tentativa e erro'. Tem que haver o mínimo de convicção”, afirma Mauro Cezar.

A opinião é compartilhada por Ubiratan Leal, comentarista dos canais Fox Sports e ESPN. Na visão dele, essa rotina se aplica também ao processo de contratação de atletas. Pelo caixa restrito, o clube não pode se dar ao luxo de errar. Mas não tem sido essa a cultura interna.

“Qual a estratégia do Coritiba? Simplesmente vai ajeitando com o que dá. Vai pegando jogadores que passaram por grandes clubes, mas estão meio encostados. Depois, pega alguns garotos da base que às vezes surgem, mas não tem uma política consistente”, explica.

“Se você não tem um sistema claro, você fica na tentativa e erro ano após ano. E o Coritiba faz isso. No fim das contas, se posicionou como um time que fica entre as Séries A e B”, completa Ubiratan.

Risco do apequenamento

Para o jornalista especializado em negócios do esporte Rodrigo Capelo, do SporTV e ge.globo, o clube realmente entrou em uma espécie de limbo entre a elite e o segundo nível do futebol.

“O Coritiba está numa faixa muito ingrata, que é frequentada por América-MG, Avaí, Goiás, Atletico-GO. É aquela faixa de clubes que não estão tão consolidados para ficar na Primeira Divisão – a ponto de ficar consistentemente e não cair –, nem conformados com a Segunda. Ficam subindo e caindo”, afirma.

Essa situação, aliás, traz dois riscos diretos, alerta Capelo. O primeiro é que o aumento de receita durante um ano no Brasileirão, sob uma gestão irresponsável, pode levar a mais endividamento.

O outro fator de preocupação é quanto ao espaço que a equipe deixa de ocupar.

“Se olharmos no longo prazo, o que está acontecendo é um processo de apequenamento. O Coritiba foi campeão brasileiro, tinha presença consolida na Primeira Divisão, mas não conseguiu se encaixar na fórmula do futebol moderno do país. Ele não está ficando menor em tradição, não. Mas acaba frequentando um escalão inferior. E isso impacta diretamente na capacidade de arrecadação e, consequentemente, na capacidade de investimento”, explica.

Outros times, mais organizados, acabam ocupando essas lacunas. Um exemplo é o Red Bull Bragantino, turbinado com o dinheiro da fábrica austríaca de energéticos. O Cuiabá, que também é clube-empresa, recém ascendeu à Série A, enquanto a Chapecoense, que trabalha com estrutura enxuta e livre de grandes dívidas, bateu e voltou à elite.

“O Coritiba tem um problema nessas horas que é o lastro da história. Tem todo um passado que complica. É clube grande, não um clube de uma cidadezinha que vive em função dele”, opina o jornalista especializado em negócios do esporte Erich Beting, fundador do site Máquina do Esporte.

“Talvez seja o momento de segurar um pouco para voltar bem estruturado. É óbvio que no campo pode dar certo e o time pode subir antes, mas não adianta nada querer competir para tentar pegar vaga na Libertadores. O objetivo do Red Bull, com todo investimento, era de não cair no primeiro ano”, ressalta Beting.

Segundona mais forte

Com a permanência do Cruzeiro, a queda confirmada de Botafogo e possivelmente Goiás, além do rebaixamento de Vasco ou Bahia, a Série B 2021 apresenta-se com uma disputa acirrada pelas quatro vagas à elite. Esse é outro contexto no qual o Coxa terá de se adaptar.

“Além dos times da Série B que sempre brigam pelo acesso, o Coritiba vai encontrar dois, talvez três clubes grandes, tradicionais. Vai ser um campeonato difícil, acho que é preciso fazer algo mais profundo, de médio-longo prazo, mirando o acesso e permanência. E fazer tudo para dar os dois passos em sequência”, avalia Mauro Cezar.

O estrangulamento financeiro vivido pelo Coxa também impacta nesse aspecto, já que o time passa a ter cota de televisão igual aos rivais (R$ 6 milhões por equipe), mas segue lidando com um passivo bem maior do que a maioria dos adversários.

“E esse jogo, para o Coritiba, apesar não ser um clube arrasado financeiramente como Botafogo ou Cruzeiro, é complicado na concorrência com os outros”, analisa Capelo.

A esperança para a torcida é de que as mudanças que começaram a ser implantadas pelo presidente Renato Follador, vencedor da eleição com maioria absoluta, tragam efeitos imediatos. Mas não há mágica.

“Com a entrada do diretor executivo [José Carlos] Brunoro, que tem experiência, talvez o Coxa consiga mudar um pouco e implantar uma forma de pensar única, da base até o profissional. Quem sabe isso crie mudanças para que o clube suba e permaneça”, comenta o ex-jogador Zé Elias, comentarista dos canais Fox Sports e ESPN.

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