De volta à Série A após uma desgastante temporada em 2021, não há sentimento de dever cumprido no Coritiba. O trabalho está somente no início, com desafios ainda maiores pela frente, de acordo com o presidente Juarez Moraes e Silva.

Em entrevista ao UmDois Esportes, o sucessor de Renato Follador no comando do Coxa fez um balanço da campanha do acesso na Série B e traçou o caminho que precisa ser seguido para quebrar o ciclo vicioso dos últimos anos. Rebaixamentos e acessos, em um cenário próximo do caos financeiro, precisam dar lugar à uma nova etapa, primeiro com a estabilização na elite.

O pensamento de crescimento passa, sem dúvida, pela transformação do clube em uma SAF (Sociedade Anônima do Futebol) e tem equipes como Ceará, Fortaleza – e também o Athletico – como exemplos a serem seguidos.

Recuperar o terreno perdido para o rival, aliás, é meta de longo prazo. "Se a gente olhar para o passado, [estamos] pelo menos dez anos [atrás]. Se olhar para o futuro, a gente consegue tirar essa diferença em menor tempo, mas é impossível antes de cinco anos. Impossível. Não tem como, nem com mágica, porque é o tempo que leva para você fazer as consolidações", admite Juarez, que aposta alto na mudança de patamar quando o Alviverde se tornar uma empresa, de fato.

"O Coritiba tem que virar um time de ponta, profissionalizado e moderno. E a SAF está aí para isso. Essa lei, hoje, é a melhor lei que já existiu na legislação brasileira para clubes de futebol no sentido de reestruturação. É pra valer mesmo, não faltou nada. Temos que aproveitar.".

Leia a entrevista completa:

Qual o balanço da temporada após a vaga garantida na Primeira Divisão?

Foi um ano de desafios imensos – 11 meses até agora – onde todo tipo de desafio foi enfrentado. O maior desafio de curto prazo foi o fluxo de caixa negativo. A gente não tinha perspectiva nenhuma de receita e tinha um déficit brutal sem possibilidade de reverter no ano. Inclusive um descompasso orçamentário onde se previa R$ 120 milhões para 2021, aprovado no Conselho na época, e que tivemos que ajustar para menos de R$ 50 milhões. Imagine você encarar esse cenário e, pior, com fluxo de caixa negativo. Então não era só R$ 50 milhões [de orçamento], era isso menos o déficit para o ano todo.

E isso levou a investimentos da própria diretoria, inclusive seu, no clube.

Logo no primeiro mês não se pagaria o salário. É um desafio você alinhar o fluxo de caixa financeiro tendo que dispensar 20 jogadores, contratar outros 20 e ser competitivo. E o Coritiba ainda tem uma situação genérica que não está superada, tem um Ato Trabalhista que cobre todas as ações dentro de uma esfera de ações. Mas as novas ações, as que vão sendo decididas em última instância, vão caindo sem estarem no Ato. E não há previsibilidade nenhuma. São surpresas que a gente recebe, vou te dizer, pelo menos uma por semana. São coisas dos últimos 15 anos, nenhuma gerada por nós. Nós não vamos deixar nenhuma ação trabalhista pendente na nossa gestão. Você tem que ter esse compromisso com a instituição, não se pode ter uma visão de curto/médio prazo. É preciso entender que o clube se perpetua e, a cada decisão que você toma, temos que olhar o impacto disso no futuro. Isso é responsabilidade fiscal na gestão privada. Não tem como ser diferente se você tem compromisso com a viabilidade do clube para o futuro. Outro desafio é que temos uma torcida espetacular, mas sofrida… uma década de sofrimento, de dificuldade, então ela é muito reativa e querendo resultados de curto prazo. Isso faz parte também do perfil da torcida.

Qual o número atual de sócios?

Pegamos com 10,5 mil sócios pagantes e hoje são 20,5 mil. A primeira meta é de 30 mil – e o equilíbrio se dá com 50 mil sócios. Mas a gente sabia que era impossível na Série B ter 30 mil associados. Isso aconteceu com o Coritiba somente em 2011 e 2012, nas finais da Copa do Brasil. Na realidade do Coritiba, 20 mil sócios na Segunda Divisão, a gente fez um grande movimento e só podemos agradecer à torcida, lembrando que ainda tem o cenário de pandemia. O público só voltou nas últimas rodadas e o que mais alavanca o sócio é poder ir ao estádio. Agora, queria fazer um agradecimento reiterado ao torcedor, que ele foi determinante na nossa capacidade de manter tudo em dia. Mesmo nesse cenário do fluxo de caixa desafiador, o Coritiba só atrasou um salário, em maio, depois não atrasou nem salário, nem prêmio, nenhum compromisso de folha de pagamento, seja do futebol, administração ou de compromissos fiscais. Além do Ato Trabalhista, o Coritiba também tem parcelamentos de impostos. Tudo isso tem que ser pago em dia e está sendo. Era um desafio brutal e a gente chegou. Ainda temos um aperto de caixa, mas está administrado nesse momento.

Para o Coritiba ser competitivo, é prioridade se tornar uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF)?

Há dois grandes desafios no segundo ciclo da gestão, em 2022. Um é formar um time competitivo, um novo elenco para disputar uma Série A, que tem outro perfil. O que foi montado em 2021 respeitou nossa capacidade financeira, no limite, para termos um time competitivo. E o Coritiba foi. Obtivemos o acesso sem nenhum susto. A última etapa do campeonato foi muito difícil, o time estava desgastado e quando viu o acesso consolidado, de certa forma, houve um relaxamento por ter cumprido o principal objetivo. Agora, nesta etapa que começa, o grande desafio é consolidar a reestruturação de gestão, que aconteceu de forma muito forte em 2021, saneando. Mas a efetiva reestruturação do Coritiba está com a SAF e vou justificar. Lembrando que na mesma intensidade é formar um elenco para se manter na Série A. O Coritiba tem vida na Série A. Nenhum clube grande sobrevive na Série B. A situação do Cruzeiro e do Vasco é muito difícil. É inviável o que se tem de receita. A SAF tem três pilares fundamentais para o futuro exitoso do clube. O primeiro é modernização, governança e compliance. Segundo é tratamento da dívida, você consegue alongá-las por vários fatores que a lei permite. E o terceiro é a atração de investidores. Com a SAF você consegue blindar a gestão possibilitando atratividade para o negócio, apesar de o futebol ainda ser visto com algum descaso pelos investidores.

Já existe algum investidor em potencial?

Não, porque você tem que cumprir um rito. Apesar de o estatuto do Coritiba não negar a possibilidade de se fazer uma SAF, a gente procurou um caminho mais sólido, que é o da Assembleia Geral de Sócios (AGS). O Coritiba vai realizar essa assembleia no dia 23 de dezembro, autorizada pelo Conselho. Vamos discutir e aprovar ou não o caminho do clube para estruturar a SAF. Então isso, claro, vai caber ao Conselho Administrativo, se for autorizado pela AGS. Esse processo está em andamento e estamos fazendo no caminho mais curto possível, mas há um rito, que é a assembleia, depois a constituição da empresa e aí sim a atração de investidores. Isso vai acontecer no transcorrer do primeiro semestre de 2022. Pretendemos terminar o primeiro semestre com a SAF constituída e o Coritiba com um nível de governança e atratividade bastante forte para nos oferecermos para o mercado, preservando a associação Coritiba Foot Ball Club, que vai continuar. Isso foi um dos um dos fatores aprovado pelo Conselho. A associação não pode se transformar em SAF. O Coritiba vai manter a associação e vai constituir uma SAF que vai tratar futuramente das questões do futebol.

Como isso afetaria o modelo diretivo do clube hoje, que tem um G5?

O modelo vai ser discutido a partir da aprovação feita pela AGS, não posso fazer isso antes. Estamos discutindo o tema, mas só posso dar a resposta tem janeiro.

No geral, é uma situação que ainda vai levar tempo para se concretizar e efetivamente trazer um investidor ao clube, certo?

Não é simples e não é fácil, mas vai ser feito passo a passo. Primeiro passo foi o saneamento da gestão, feito em 2021. A gente tinha que equilibrar as contas, já alongamos as dívidas em condições muito melhores, estamos reestruturando a companhia. Ajustamos o fluxo de caixa, temos um orçamento mais robusto para 2022, o clube está na Série A. Foi feita uma espécie de preparação para você tornar o clube atrativo. Virar uma SAF não é dizer “você salvou o Coritiba”. É você dar o caminho para que o clube seja restaurado e salvo. É apenas o caminho.

Falando em 2022, onde estará o Coxa entre os orçamentos dos times do Brasileirão?

A disparidade entre as equipes da Série A é absurda. Para não ser muito discriminatório, diria que você tem os primeiros dez e os últimos dez na tabela. Os primeiros dez, que são os, vamos lá, os grandes clubes, a diferença de orçamento para o restante é brutal – principalmente para quem sobe da Série B ou subiu nos últimos dois anos. Aquele times consolidados, sem terem caído nos últimos três anos, têm uma grande vantagem orçamentária em relação aos demais. Um jogador dos times do G4 hoje custa mais por mês do que a folha inteira dos times que estão na segunda parte da tabela. Como você tem equilíbrio numa competição assim? Não tem como. Ainda assim, estamos vendo alguns times avançar na primeira parte da tabela, como Bragantino, Fortaleza, o próprio Athletico. Esses times conseguem, com gestões profissionais e alternativas de captação de recursos por boa gestão, brigar por alguma posição.

É preciso ser eficiente na gestão do futebol…

Você não pode errar por que não tem recursos para errar e nem margem de erro, que faz parte do futebol. Você contrata um grande jogador, ele se machuca. Ta aí o Matheus Babi, do Athletico. Um alto investimento e o cara se machuca. Ou às vezes o jogador não se adapta ao sistema tático, têm muitos fatores subjetivos que acabam gerando o não retorno de investimento. Times com poucos recursos têm que errar quase nada e o desafio é maior. Ceará e Fortaleza são exemplos para serem seguidos, são times com perfis parecidos com o do Coritiba. Com torcidas importantes, fiéis, regionais, como é o Athletico também. O Athletico é um baita exemplo de gestão, está com uma dificuldade momentânea na Série A porque optou pelas copas. Mas vai superar por conta de que é um grande clube com potencial competitivo e desportivo muito forte. E é muito importante para o Paraná ter dois times na elite, no mínimo. O Athletico também é uma referência pra gente.

Tem como dimensionar o quanto o Coritiba ficou para trás do rival no últimos anos?

Se a gente olhar para o passado, pelo menos dez anos. Se olhar para o futuro, a gente consegue tirar essa diferença em menor tempo, mas é impossível antes de cinco anos. Impossível. Não tem como, nem com mágica, porque é o tempo que leva para você fazer as consolidações. Você tem que fortalecer tua base, ter um fluxo de caixa previsível pelo menos por um ano. Essas oscilações do Coritiba, de rebaixamento a cada um, dois, três anos, isso inviabiliza qualquer consolidação do clube. É impossível viver dessa forma. A marca deprecia, a formação cai. O Coritiba não vende jogador há mais de um ano porque não tem para vender. Agora nós estamos começando a valorizar de novo o elenco, com essa geração que foi campeã da Copa do Brasil sub-20.

Chegando proposta o clube se vê obrigado a negociar?

O clube não tem que vender, mas vai precisar vender. Mas a gente quer valorizar o máximo possível. Uma das linhas de receita é a venda de jogadores para qualquer clube formador. Mas o Coritiba tem que formar. Pretendemos colocar essa geração nova disputando o Paranaense, mas temos de preparar o time para a Copa do Brasil e para o Brasileirão. Então não dá para dizer que vai jogar todo o Estadual só com time jovem, ele tem que ser mesclado.

Chegou alguma proposta interessante por algum destaque formado pelo clube, como Natanael ou Igor Paixão?

Chegam, mas em valores que a gente sequer cogita ainda. As ofertas que chegaram nem foram analisadas, foram propostas muito baixas em relação ao potencial dos jogadores e a jogadores similares negociados do Brasil para fora. Isso por conta de todo esse momento difícil que o clube passou, de Série B, marca depreciando. Tudo isso afeta. Ou você está num ciclo virtuoso ou em um ciclo vicioso. O Coritiba, diria, que está recém começando um ciclo virtuoso de novo. Agora, com o desafio de manter-se e não ter medo de fazer as reformas que precisam ser feitas na reestruturação do clube. O Coritiba tem que virar um time de ponta, profissionalizado e moderno. E a SAF está aí para isso. Essa lei, hoje, é a melhor lei que já existiu na legislação brasileira para clubes de futebol no sentido de reestruturação. É pra valer mesmo, não faltou nada. Temos que aproveitar.

Qual a projeção da diretoria para as três competições de 2022?

No Paranaense, a prioridade é a formação de jogadores e dar minutagem a todo elenco, principalmente os mais jovens. O resultado não é prioridade. Evidentemente que queremos o melhor resultado possível, mas não tem um objetivo traçado. É colocar o time para jogar, é a preparação para a temporada. Na Copa do Brasil, o objetivo é no mínimo chegar à quarta fase, a fase de oitavas de final, que seria onde chegaríamos caso não tivéssemos pego o Flamengo no confronto. É aí que miramos. E para a Séria A a meta é a manutenção.

A próxima temporada tem duas janelas de transferência – entre 1º de fevereiro e 25 de abril e entre 18 de julho a 15 de agosto. Um período menor para se reforçar… Como isso afeta o planejamento?

O Coritiba deve contar com um elenco de 34 jogadores em 2022 – três para cada posição e quatro goleiros, completando o elenco com a base quando necessário. Esse é o elenco para 2022. Devemos alterar um terço do plantel em relação a 2021, que dá cerca de 12 jogadores. Pode ser um pouco menos ou um pouco mais. O Coritiba sabe das janelas, elas já foram indicadas pela CBF, mas ainda precisam ser validadas. Estamos trabalhando com elas e sabemos que temos que começar o ano com um elenco o mais próximo possível daquele que vai disputar a Série A e a Copa do Brasil. E também o Brasileirão começa em abril nesse ano. Ou seja, não podemos demorar muito para montar o elenco, tem que ser nos próximos 60 dias, no máximo 90, para ter condição de começar o Brasileirão com um time que já tenha treinado e se preparado adequadamente. Não vamos esperar para contratar. Elas vão acontecer de acordo com as oportunidades. O Coritiba tinha uma faixa etária maior em 2021. O objetivo é reduzir a idade média, ter um time mais jovem, veloz, marcador. Vamos continuar, até pela manutenção da comissão técnica, com um time mais aguerrido, que briga muito, que tem raça, mas uma equipe de velocidade.

Foi fácil bater o martelo da permanência do técnico Gustavo Morínigo?

O treinador goza de 100% da nossa confiança em relação ao que fez em 2021 e sobre o que vai fazer em 2022. É uma questão, que conversamos em outra matéria, dos valores que ele tem. É um cara extremamente correto, previsível, honesto, dedicado e focado na sua atividade. É um técnico experiente. Evidentemente que o elenco para 2021 não dava todas as possibilidades de reposição. Muita gente cobra que ele usou poucos jogadores – e foi em função também disso. Ele, focado no acesso, sempre tentava tirar o máximo dos jogadores que tinha e acreditava que pudessem entregar. E isso levou a questionamentos. Mas ele manteve o grupo motivado e focado até o último minuto. Trabalho foi exitoso ao extremo. A nossa convicção para 2022 é seguir o trabalho com ele. A negociação foi tranquila, até porque o contrato já previa remuneração de salários caso o Coxa tivesse o acesso. Quer dizer, não tivemos que discutir nem salário nem condições. A multa era baixa para os dois lados e continua a mesma. O contrato não sofreu nenhuma vírgula de alteração por vontade dele e nossa. A convicção é absoluta.

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