Léo Gamalho chegou ao Coritiba para ser artilheiro. E está correspondendo à expectativa criada: ele é o goleador coxa-branca na temporada, com 14 gols em 26 jogos. Na Série B, tem sete e disputa a artilharia do torneio.

A adaptação rápida fez com que Léo caísse rapidamente no gosto do torcedor. Aos 35 anos, o centroavante diz que sente prazer em atuar pelo clube e tem uma missão: ajudar o Coxa na volta à elite. Mas o compromisso de subir vai além do âmbito esportivo.

É uma luta para homenagear o presidente Renato Follador, que morreu vítima da Covid-19, aos 67 anos, em junho. Follador foi quem bancou Léo Gamalho e apostou nos gols do atacante.

Em entrevista exclusiva ao UmDois Esportes, Léo Gamalho falou sobre sua relação com Follador e passou a carreira a limpo. Revelou um drama que quase o fez largar o futebol, a volta por cima no Coritiba e como ele rodou o mundo da bola.

Assista a entrevista completa com Léo Gamalho ou leia na íntegra:

O Coritiba vai disputar a Séria A em 2022?

A nossa meta é essa. O campeonato tem se mostrado difícil, mas estamos com esse objetivo. Não estamos medindo esforços para isso. Agora é conseguir uma sequência de vitórias para poder dar alegria ao torcedor nesses tempos que têm sido tão difíceis para todos nós.

Qual avaliação você faz da sua temporada?

Estou me sentindo bem. Eu tenho maior respeito e admiração pelo Coritiba. Eu sempre tive vontade de jogar aqui. Eu gosto muito daqui e sempre que joguei contra encontrei dificuldades. Sempre foi difícil, a torcida inflama, o gramado sempre bom e o jogo era bem jogado. Aí até comentava com a minha esposa que gostaria um dia jogar aqui. Hoje estou aqui, mas ainda não com a torcida. A gente sente falta do torcedor, e esperamos que logo eles estejam presentes.

Montagem sobre fotos de Albari Rosa/Foto Digital/UmDois Esportes
Montagem sobre fotos de Albari Rosa/Foto Digital/UmDois Esportes| Albari Rosa/Foto Digital/UmDois Esportes

Você tem contrato até 2022. Mas quase todos os clubes que você passou ficou apenas uma temporada. Por que você não chegou a ficar mais tempo em algum clube? Você acha que o Coritiba pode ser o clube que você crie maior identificação?

Normalmente eu peço contratos mais curtos, de um ano. Nunca fui jogador que pedia dois ou três anos de contrato. E isso facilita a mudança. Teve vezes que eu comecei bem no campeonato e outro clube pagava a multa rescisória. Às vezes você está na Série B e acaba recebendo proposta de um clube da Série A. Então, as minhas mudanças foram por situações melhores. Mas apesar de ficar pouco em cada clube, o torcedor acaba tendo um carinho por mim. É bom também ter essa bagagem, minha esposa e meus filhos gostam de viajar e morar em outros lugares. Isso facilita tudo.

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Muitos não sabem, mas você jogou no River Plate, da Argentina, nas categorias de base. Como você foi parar lá?

Eu comecei no futebol aos 12 anos, no Grêmio, e quando eu fiz 17 anos tive a proposta de jogar no River. Eu fui pra lá com minha família. Meu pai, minha mãe e meus três irmãos. Nós todos morávamos em Buenos Aires. Lá eles chamam o time de “reserva”, que é como um River Plate B. Eu fiquei um ano e fui muito bem tratado pelos argentinos. Achei que ia pesar pela rivalidade. E se não me engano, na época, de brasileiros só tinha eu e o Iarley, que estava no Boca Juniors. Quando saí do Grêmio teve uma disputa judicial e eu fiquei 10 meses sem jogar. Aí quando eu fui liberado para jogar, o Internacional me ofereceu um contrato e optamos por voltar para Porto Alegre. Então não joguei nenhuma partida oficial por lá, apenas amistosos.

Em 2015, você teve passagem pelo Nacional, do Uruguai. Como foi lá?

Pelo Avaí, na penúltima rodada do Campeonato Brasileiro, eu tive uma ruptura grau 3 na posterior da coxa. No final da minha recuperação, três meses depois, eu tive proposta do Nacional. Então demorou bastante para me condicionar porque foi uma lesão muito grave. Mas depois as coisas começaram a melhorar. O time era muito bom. Tinham jogadores conhecidos e de seleção como Nico López, Polenta, Fucile. A gente fez uma boa campanha na Libertadores. Um grupo muito difícil com Palmeiras e Rosário Central. Nós passamos e o Palmeiras ficou fora. Nas oitavas tiramos o Corinthians e depois pegamos o Boca Juniors. Na Bombonera perdemos nos pênaltis. Foi a melhor campanha do Nacional nos últimos anos. Foi uma pena porque no pênalti decisivo, se a gente fizesse estaria classificado. É uma das derrotas que eu mais amargo.

Como é o Gustavo Morínigo no dia a dia? 

Ele tem um perfil técnico. É um estrategista, que procura fazer boas estratégias para que a gente possa surpreender o adversário. No dia a dia, no tratamento aqui, ele deixa o ambiente leve. Ele é um treinador com um tratamento diferente. Às vezes nós estamos acostumados com treinadores brasileiros, outra cultura, com gritos e xingamentos. Ele é diferente e tem respeito com o jogador. É um cara bem centrado e equilibrado. Isso dá tranquilidade.

Você chegou no clube com o respaldo muito grande do Renato Follador. Ele deu várias entrevistas elogiando e colocando fé no seu futebol. Como foi para você lidar com a morte dele, vítima da Covid-19, aos 67 anos?

Foi muito difícil. Foi um baque porque a gente nunca imagina que isso vai acontecer. Mesmo a gente passando por uma pandemia, a gente sempre acreditou que ele ia sair do hospital. Nunca passei por isso em toda a minha carreira. Que Deus abençoe os familiares. É uma perda muito grande porque era um cara que vinha com vontade e ótimas ideias. Era um gerenciador que estava se mostrando a cada dia melhor no seu trabalho. Eu espero corresponder à expectativa que ele tinha não só comigo, mas com vários jogadores aqui que ele teve um olhar especial. Acho que todo mundo aqui procura dar uma resposta e corresponder para ele. E eu não sou diferente. Por isso esperamos corresponder para que ele lá de cima esteja vendo e que possa ficar orgulhoso pelo projeto que ele iniciou.

O Follador te chamou para conversar quando você foi contratado?

Eu cheguei aqui, fiz os exames médicos e logo no primeiro dia nós nos falamos. Foi surpreendente a forma como ele me tratou. Até cheguei em casa e comentei sobre a euforia e alegria que ele me tratou. Ele me disse que confiava muito em mim e que acreditava na minha experiência para ajudar a equipe. E isso nunca aconteceu comigo, de chegar no primeiro dia e o presidente me falar as coisas que falou. Isso me deu uma motivação a mais para estar aqui e poder ajudar.

Lá no nordeste você ganhou vários apelidos. O Ibra do Nordeste é o mais famoso. Aqui já te chamam de Ibra das Araucárias. Você gosta dos apelidos?

O Nordeste é um lugar bem especial para mim, apesar de muitas pessoas acharem que eu sou de lá. Mas eu sou gaúcho. Eu sempre fui bem tratado e quando sou bem tratado me dá uma vontade maior de dar o retorno para o torcedor. Os apelidos não têm como controlar. E se dizer que não gosta é que aumenta. O importante é ter o trabalho reconhecido. E não só comigo. Então nós vemos essas comparações com Messi, Cavani, Suarez e assim vai. Então levo na boa. E ser comparado com jogadores que são referência no mundo, não tem porque não gostar.

Você já fez 14 gols em 26 jogos. Sua melhor temporada, em gols, foi pelo Santa Cruz, com 32 gols. E a segunda foi pelo CRB, com 18 gols, que você já está próximo. Você coloca uma meta de gols? E por mais quanto você pensa em jogar?

Eu não coloco meta de gols. Nunca fiz isso. Não coloco meta porque se eu atingir, posso relaxar. E se não bater, posso me frustrar. Eu simplesmente entro todo jogo tentando ficar ligado na defesa, no posicionamento. Busco o gol a cada jogo. Sobre quantos anos eu vou jogar, eu estou me sentindo muito bem. Centroavante de área corre menos, eu me movimento mais, mas a experiência ajuda na leitura de jogo. Eu não tive muitas lesões, a última que eu tive foi em 2015. Tenho me cuidado. Não sei até quando vou jogar, mas cinco atrás não imaginava que estaria com 35 anos jogando. Vou apenas deixar a vida me levar.

Qual o momento mais difícil que você passou na carreira?

Foi em 2018. Eu falo pouco sobre esse assunto porque foi muito difícil. Quando estava na Coreia do Sul eu tive um problema sério que eu pensei em largar o futebol. Foi uma situação complicada que não gosto de expor. Mas eu não tinha alegria para treinar, para jogar. Quando eu voltei, fiquei quatro meses repensando se continuava ou não. Só voltei a jogar em abril depois do convite do Criciúma. E depois as coisas voltaram a acontecer. Que bom que não parei. São momentos difíceis que a gente passa. Eu sou cristão e tenho muita fé. Se eu não tivesse certeza que Deus estaria comigo, eu iria largar o futebol. E o futebol é minha vida e a única coisa que eu sei fazer. Espero que eu jogue por bastante tempo porque depois que eu parar, vou sentir falta.

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