Uma goleada estrondosa. Uma marca histórica. Um time inesquecível. Há dez anos, em 5 de maio de 2011, essa combinação colocou o Coritiba nas manchetes do mundo do futebol.

Ao massacrar o Palmeiras por 6 a 0, no Couto Pereira, na primeira partida das quartas de final da Copa do Brasil, aquele Coxa que jogava por música (e comemorava com trenzinho) alcançou incríveis 24 vitórias consecutivas. Meses depois, a marca virou recorde mundial homologado pelo Guinness Book.

A honraria, no entanto, caiu quatro anos depois, quando o mesmo livro dos recordes revisou seus critérios e reconheceu que o holandês Ajax emendou 26 triunfos seguidos entre 1971 e 1972.

Mas hoje, uma década depois, a perda do status de “o mais vitorioso do mundo” – que até virou campanha de marketing do clube – não passa de um mero detalhe para o torcedor.

O que vale são os feitos e a nostalgia de uma equipe que não somente venceu, mas encantou as arquibancadas. Um ataque potente, de 74 gols – média de três por partida e apenas cinco triunfos por diferença mínima –, e uma defesa sólida, que sofreu apenas 16.

E a caminhada histórica, iniciada com um sonoro 5 a 0 sobre o Iraty, em 3 de fevereiro, também rendeu taça. O título paranaense, o segundo de quatro anos de hegemonia, veio com duas vitórias sobre o rival Athletico, incluindo um 3 a 0 em plena Arena da Baixada que valeu a conquista do Estadual por antecipação.

Se a Copa do Brasil ficou no quase, assim como a vaga na Libertadores via Brasileirão, a época ainda é, sem dúvida, guardada com saudade.

“Quando estou um pouco triste, assisto aqueles jogos e vejo que fazia parte daquilo tudo”, confessa Vilson Ribeiro de Andrade, vice-presidente na ocasião.

“O clube vinha de uma situação muito ruim quando caiu em 2009. Então, todo mundo se uniu para ajudar. Jogadores, torcida, sócios e a própria imprensa. Todos esses fatores, junto com uma equipe que casou em campo, foram decisivos para termos essa campanha fantástica”, acrescenta Vilson, ressaltando que o clube ainda detém a marca de mais vitorioso das Américas e terceiro do mundo.

 A comemoração do trenzinho que se tornou uma marca. Hedeson Alves/Arquivo/Gazeta do Povo
A comemoração do trenzinho que se tornou uma marca. Hedeson Alves/Arquivo/Gazeta do Povo

Três vira, seis ganha do Palmeiras

Segundo tempo, 47 minutos e 30 segundos. Anderson Aquino recebe de Bill e avança em diagonal. Ele adianta a bola e ganha na velocidade do volante Chico. Na sequência, o atacante continua enfileirando marcadores e, mesmo desequilibrado por três adversários, finaliza com o pé direito.

O goleiro Marcos não pula, apenas observa. É o sexto do Coritiba contra o Palmeiras, roteiro mais do que perfeito para fechar a mágica sequência coxa-branca diante de 31 mil pessoas no Alto da Glória.

“A gente entrou querendo tanto, que não pisou no freio em nenhum momento. Se tivesse mais tempo, teríamos feito mais gols”, garante Aquino, que dois minutos antes viu o angolano Geraldo fazer o quinto enquanto o técnico Marcelo Oliveira pedia para o time tocar a bola.

O incomum pé no acelerador naquela circunstância tinha um motivo especial. A semana do confronto foi marcada por declarações que não caíram bem no CT da Graciosa. O volante Marcos Assunção, por exemplo, desmereceu os rivais que o Coxa havia enfrentado nos 23 duelos anteriores.

Mas foi o pentacampeão Luiz Felipe Scolari, o Felipão, quem mais causou irritação. “Estávamos muito focados até pelo que o Felipão falou, que não tínhamos ganhado de ninguém. Eles não respeitaram o Coritiba e deu no que deu”, lembra o meia Davi, autor do segundo gol da noite.

“Ele foi um pouquinho arrogante. A gente explorou aquilo na época”, revela o então diretor de futebol, Felipe Ximenes.

Quando o elenco chegou no vestiário para o aquecimento, as paredes estavam cobertas de mensagens de apoio de torcedores, mas também havia manchetes de jornal e reportagens nas quais  os palmeirenses minimizavam a campanha histórica do Coxa.

“Foi engraçado que você olhava para trás e estava todo mundo lendo. E a gente comentava que iríamos amassar os caras, que eles estavam f… Naquele jogo não precisou de preleção, não precisou de nada”, conta o volante Léo Gago, que fez o terceiro da goleada – seu primeiro naquela temporada.

“Nosso time já estava muito bem, mas depois de escutar que não tínhamos enfrentado times fortes, nossa confiança dobrou”, aponta o zagueiro Emerson, que abriu o placar de cabeça, aos 11 minutos.

O zagueiro Jeci, que acompanhou a partida do camarote do Couto porque estava machucado, conta que visitou o vestiário visitante após o apito final. O cenário era de espanto total, com direito a repetição das fortes declarações da saída do gramado, que falavam em vergonha e falta de vontade.

“Lembro que depois do jogo conversei com o Kléber [Gladiador], com o Marcos, o Danilo… e os caras estavam zonzos. Eles não acreditavam no que tinha acontecido”, relata.

“A forma como encaramos o jogo, nosso desempenho, foi memorável. Ali não só o Palmeiras, como todo o Brasil, pôde conhecer a força daquele grupo”, enfatiza o capitão Pereira.

 Léo Gago soltava pipa no CT da Graciosa quase todos os dias. Antônio Costa/Arquivo/Gazeta do Povo
Léo Gago soltava pipa no CT da Graciosa quase todos os dias. Antônio Costa/Arquivo/Gazeta do Povo

Grupo (mais que) unido

É unânime entre quem participou daquele elenco: o segredo do sucesso não estava exclusivamente no campo. O entrosamento entre os jogadores fora dos gramados fez toda a diferença para que os resultados fluíssem naturalmente.

“O ambiente do dia a dia era muito favorável, não tinha murmuriozinho, não tinha picuinha de quem estava fora, de quem estava jogando, e assim começou essa sequência”, recorda Marcelo Oliveira, com seu típico sotaque mineiro.

“Se você falar com 100% do time, vai ouvir que nosso ambiente era muito bom, muito fechado, além de ter muita qualidade. Era prazeroso estar ali”, afirma Anderson Aquino.

“Era um grupo fenomenal, ainda mais com o Marcelo Oliveira e o estilo paizão dele, o Tico [auxiliar], o Borjão [Edison Borges, auxiliar] e o o Juvenilson [preparador físico] também. É unanimidade que o grupo era unido demais”, confirma o lateral-direito Jonas.

E os jogadores não limitavam à convivência nos treinos. Os churrascos eram frequentes e as amizades entrelaçavam as famílias. Obviamente que sempre havia algum desvio de rota, mas, quando necessário, as correções aconteciam de forma discreta.

“O grupo era tão fechado, tão unido, que às vezes, quando alguém fazia alguma coisa errada a gente sempre conseguia amenizar por ser querido ou por ter um papel importante”, destaca Jeci.

Na liderança, o elenco tinha o zagueiro Pereira como o grande pilar. A influência do defensor era natural, mas sua imposição física, claro, também ajudava a meter medo no novatos.

“O Pereira era um fenômeno. Ele segurava a empolgação da garotada, ajudava a mantermos os pés no chão. Quando conquistamos o primeiro turno do Paranaense, foi ele quem mandou segurar a volta olímpica porque ainda não tínhamos ganhado nada”, diz Emerson, que também cita o meia Tcheco com papel importante na mentoria dos pratas da casa.

A turma do Mario Kart no Coritiba

Um hobby acompanhou grande parte do elenco coxa-branca naquele ano de 2011. Não importava onde, fosse no ônibus, no avião ou na concentração, eles estavam jogando Mario Kart no videogame portátil Nintendo DS.

A brincadeira começou aos poucos, mas ficou mais séria à medida que outros jogadores se interessavam pela disputa. Chegou ao ponto de uma segunda divisão ser criada, já que o game só permitia que oito  jogadores se conectassem por vez para as corridas.

“Acabava o treino, a gente tomava banho rapidinho e os oito primeiros que entravam no busão já ligavam. E os que chegavam por último ficavam na segunda divisão. Tinha acesso e rebaixamento”, conta Jonas, um dos que não desgrudava do videogame.

“Jogávamos meio que escondidos no avião, tinha muito passageiro que reclamava do nosso barulho”, lembra Rafinha. “Essa interação ajudava muito no ambiente, ajudava a passar o tempo, já que permanecíamos mais entre nós do que com nossas próprias famílias”, reforça.

 Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo
Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo

Um artilheiro que era um búfalo

A ofensividade era a principal característica do Coritiba, que tinha um centroavante brigador como referência acima da linha formada por três meias-atacantes (normalmente Rafinha, Davi e Marcos Aurélio).

Do seu jeito, Bill (foto acima) virou xodó da torcida, que repetia em uníssono seu nome toda vez que o Búfalo balançava a rede. Ao todo, foram 27 gols na temporada, 15 deles durante a sequência de 24 triunfos. “Bill era um malucão, mas um cara que você podia contar dentro de campo. Tocava a bola nele, que ele chamava a responsabilidade”, atesta o zagueiro Emerson.

“Bill é aquele maluco que não tem limite. Nas nossas resenhas, churrascos, era quem tínhamos que segurar porque era o primeiro a chegar e o último a querer a sair”, revela Rafinha, classificado por ele como o atacante do estilo que “dava porrada em zagueiro”

A proximidade com o diretor Felipe Ximenes, já que ambos são do Sul de Minas Gerais, também foi utilizada para tentar conter o ímpeto do Búfalo fora dos gramados.

“Ele foi quase que um filho meu aí… Tínhamos alguns tratos, eu falava: ‘Hoje pode sair, hoje não é dia de sair, tem que descansar’. Então, a gente conseguia manobrar em termo de gestão, porque o atleta é um ser humano como outro qualquer”, sublinha Ximenes.

Depois do recorde, Coritiba ficou no quase

No fim das contas, a série de vitórias foi quebrada pelo próprio Palmeiras, no jogo da volta, em 11 de maio, no Pacaembu. Isso não diminuiu a boa fase do Coxa, que seguiu até a inédita final da Copa do Brasil, contra o Vasco.

Na decisão, após derrota em São Januário por 1 a 0 e vitória no Couto Pereira por 3 a 2, a taça ficou com os cariocas pelo gol qualificado. E no Brasileirão, o time chegou à rodada final dependendo de si para se classificar para a Libertadores, mas perdeu do Athletico na última rodada, duelo que mesmo assim rebaixou o rival.

“Foi uma pena a gente não ter conquistado a vaga na Libertadores. Se tivéssemos conquistado, seria uma coroação para o grupo, que talvez tivesse mais tempo para permanecer junto. Eu queria ficar, mas fui vendido para que o clube pagasse o 13º salário e o mês de dezembro”, admite Léo Gago.

“Dá a impressão de que é muito pouco ser vice-campeão da Copa do Brasil. Você chegou na final contra um ótimo time do Vasco, ganhamos uma e perdemos outra. Eu acho que foi um feito daquele time chegar duas vezes à final [chegou também em 2012], o que não é fácil. O Coritiba chegou onde depois daquilo?”, questiona Oliveira.

As 24 vitórias seguidas

03/02/2011 Coritiba 5 × 0 Iraty
06/02/2011 Coritiba 4 × 1 Rio Branco-PR
10/02/2011 Coritiba 2 × 1 Corinthians-PR
13/02/2011 Coritiba 3 × 0 Roma-PR
16/02/2011 Coritiba 1 × 0 Ypiranga
20/02/2011 Coritiba 4 × 2 Athletico
24/02/2011 Coritiba 2 × 0 Ypiranga
27/02/2011 Coritiba 2 × 1 Cianorte
06/03/2011 Coritiba 3 × 2 Operário-PR
09/03/2011 Coritiba 3 × 0 Paranavaí
13/03/2011 Coritiba 4 × 2 Paraná Clube
17/03/2011 Coritiba 2 × 1 Atlético-GO
20/03/2011 Coritiba 3 × 0 Cascavel
23/03/2011 Coritiba 2 × 0 Arapongas
26/03/2011 Coritiba 4 × 2 Iraty
30/03/2011 Coritiba 3 × 1 Atlético-GO
02/04/2011 Coritiba 6 × 2 Rio Branco-PR
10/04/2011 Coritiba 1 × 0 Corinthians-PR
14/04/2011 Coritiba 4 × 0 Caxias
17/04/2011 Coritiba 4 × 1 Roma-PR
24/04/2011 Coritiba 3 × 0 Athletico
28/04/2011 Coritiba 1 × 0 Caxias
01/05/2011 Coritiba 2 × 0 Cianorte
05/05/2011 Coritiba 6 × 0 Palmeiras

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Crédito: Arquivo/Gazeta do Povo

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