A noite fria de inverno em Ponta Grossa, daquelas em que o vento cortante congela os dedos, foi o cenário de uma cena inédita no futebol brasileiro. Pouco antes de a bola rolar para Operário x Coritiba, pela 24ª rodada da Série B, no Estádio Germano Krüger, a torcida coxa-branca, calada, assistia os donos da casa gritarem, em coro, o nome do técnico Alex.

Tão acostumados a vibrar com os gols de seu Menino de Ouro, desta vez os torcedores do Alviverde viram o ídolo frente a frente, mas pela primeira vez como rival no comando de um adversário. E se não tinha boas lembranças contra o time do coração enquanto atleta – com apenas um triunfo – agora foi Alex quem comemorou.

Com menos de um minuto de jogo, o colombiano Zuluaga garantiu a vitória por 1 a 0 do Operário, que manteve a escrita de não perder para o Coxa como mandante desde 2011. Para o Fantasma e para Alex, três pontos que levam o time à oitava posição da Série B, com 33 pontos, e agora com o quarto melhor retrospecto do returno.

Um novo Alex contra o Coxa: adversário por 90 minutos

Apesar do frio intenso, que se refletia no casaco pesado e comprido vestido por Alex, o banco de reservas do Operário esquentou em apenas 52 segundos. O professor, ainda em seu terceiro trabalho profissional (também treinou Avaí e o turco Antalyaspor), foi engolido por abraços, amassado em meio ao entusiasmo de sua comissão e dos reservas.

Muito tranquilo e confiante após o gol relâmpago, Alex pouco falava. Gostava da pressão que o Operário fazia no Coritiba, claramente parte de seu plano de jogo.

Aos 25 minutos, quando o meia Boschilia teve a chance clara para ampliar, o treinador lamentou, olhou para o banco como se dissesse: “se fosse comigo em campo era gol”.

O treinador se manteve sereno até os 31 minutos, quando, veio o primeiro sinal de inquietação: palmas repetidas, pedindo ainda mais pressão pelo lado direito.

Um diálogo breve com seu auxiliar, como quem procura ajustes finos no tabuleiro e, no fim do primeiro tempo, o gesto clássico para que sua equipe subisse as linhas. Ainda assim, manteve-se contido, com braços cruzados e imóvel na maior parte do tempo, até mesmo quando seu time desperdiçou uma chance de cabeça.

Alex Operário x Coritiba
Alex venceu o Coritiba no primeiro duelo como treinador

Alex: “Sensação dos três pontos”

O apito do intervalo soou e Alex não mudou o semblante. Conversou com o quarto árbitro, lançou um olhar discreto para a área técnica do Coritiba e, sem pressa, desceu ao vestiário. No reencontro com o clube que o consagrou, parecia viver um duelo interno: entre o craque que todos esperavam rever e o treinador que ainda dá os primeiros passos.

Durante o segundo tempo, pouca coisa mudou. Muita calma e frieza. Conversava com Mingotti, o camisa 9 que havia entrado, orientava os jogadores a acompanhar Clayson, ponta veloz do Coxa. Aos 32′, olhou para o relógio no pulso. Pela primeira vez parecia apreensivo: mão no bolso, depois braços cruzados de novo, misturando controle e inquietação.

No fim, quando o meia coxa-branca Carlos de Pena deixou o campo, o uruguaio fez questão de parar e abraçar o treinador rival. Um gesto simples, mas simbólico de respeito pela história do ex-meia que fez história, além do Coxa, com as camisas de Cruzeiro, Palmeiras e Fenerbahçe.

“Eu fico com a sensação dos três pontos. Eu olhei para o Coritiba hoje como adversário. A partir de agora volto a ser torcedor e torço para que consigam o acesso, como vou trabalhar para o Operário conseguir”, resumiu Alex, na coletiva de imprensa.

Depois do apito final, ainda um abraço no amigo Mozart, técnico do Coritiba. “Nós temos uma amizade que transcende o futebol”, diz o comandante coxa-branca.

“Inclusive, nossa família tem uma relação muito boa. Reencontrá-lo fora das quatro linhas foi algo novo”, resumiu o amigo íntimo, que chegou a abrigar Alex em 2002, durante a Copa do Mundo.

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